Jan Op Gen Oorth: “Até agora, infelizmente, muitos dos ativos desses grupos não são apreendidos nem confiscados” — Foto: Divulgação No porto de Antuérpia, nas ruas de Barcelona ou de Paris ou em posse de mafiosos da Itália. Toneladas de cocaína entram todos os anos na Europa, movimentando cifras bilionárias e com a participação crescente da maior facção criminosa do Brasil, o Primeiro Comando da Capital (PCC). Recém-classificado como organização terrorista pelo governo de Donald Trump, o PCC é um problema urgente não tanto para autoridades americanas, mas, sim, para as europeias. A cocaína e outras drogas que chegam aos EUA estão na esfera de negócios de cartéis do México, da América Central e de traficantes de alguns países sul-americanos. A cocaína que chega à Europa passa em grande medida pelas mãos do PCC. Mas autoridades europeias apostam em uma abordagem distinta da de Washington para lidar com as facções brasileiras e com redes criminosas de outros países. “O PCC atua hoje com todas as redes criminosas da Europa que querem traficar cocaína da América Latina para a Europa”, disse em entrevista ao Valor Jan Op Gen Oorth, principal porta-voz da Europol. Sediada em Haia, na Holanda, a Europol é a Agência da União Europeia para a Cooperação Policial, que tem como missão ajudar com dados de inteligência países do bloco europeu e outros na prevenção e combate ao crime internacional organizado. Na paisagem do crime organizado europeu há uma diversidade de grupos em ação. Entre eles, os calabreses da N’Drangheta e também os mafiosos da Camorra e da Cosa Nostra, organizações sérvias, albanesas, montenegrinas, russas e até de curdos do Irã, com presença mais visível da Suécia, segundo Oorth. O PCC é parceiro de vários deles em operações lucrativas envolvendo cocaína. “Há 15 ou 20 anos, um único grupo era suficientemente poderoso na Europa para fazer entrar cocaína proveniente da América Latina, e esse grupo era a N’Drangheta”, diz Oorth. “O que vemos agora é que o mercado do crime está mais diversificado do que nunca. Há grupos trabalhando em conjunto. Às vezes, há cinco, seis, sete, oito grupos numa única operação.” Num caso recente da longa lista de investigações, a Europol atacou um esquema que reunia criminosos de um cartel mexicano que estava comprando cocaína na Bolívia e que tinha ajuda do PCC para levar a carga até Santos e de lá até Antuérpia. Um grupo marroquino-belga estava encarregado de retirar a droga do porto e, finalmente, entregá-la a um grupo albanês para ser distribuída pela Europa. Nessa rede variada de agentes, a Europol define o PCC não como uma organização que se destaque como vendedora da droga. Oorth diz que na relação com criminosos que atuam na Europa, a facção, criada nos presídios de São Paulo há três décadas, desempenha outro papel: a de operador logístico de quase toda cocaína que passa pelo Brasil rumo à Europa. “Ninguém, nem a N’Drangheta, nem os albaneses, nem os sérvios conseguem tirar cocaína do Brasil sem o PCC”, avalia Oorth. A Europol vê a facção como o player mais importante no que diz respeito ao transporte de cocaína para fora do Brasil, a partir dos portos de Santos, de Fortaleza, de Belém e de outros. As cargas vão escondidas nas estruturas de cargueiros ou dentro de contêineres. Ou são transferidas em alto mar por embarcações menores. As operações envolvem cooptação de funcionários, mergulhadores, especialistas em navegação. “Eles [membros do PCC] se tornaram uma espécie de UPS criminosa”, compara Oorth. Calcular a receita financeira da organização brasileira na Europa é impossível. Mas na Europol uma estimativa é que os números estejam na casa dos bilhões. “O dinheiro é reinvestido na economia legal e utilizado depois para outras atividades criminosas. É esse o grande problema”, diz Oorth. Cocaína é uma chaga no continente. É a droga mais usada por pessoas que buscam pela primeira vez centros de reabilitação. E foi responsável por 27% das mortes por overdose em 2024, de acordo com o último relatório da European Union Drugs Agency (EUDA), divulgado na semana passada. É a droga que mais preocupa autoridades. Não só pelos impactos à saúde. Mas pelos crimes. As operações clandestinas que garantem o longo percurso que começa nos plantios da Colômbia, no Peru ou na Bolívia, passa pelas estradas e portos do Brasil e que termina em cidades europeias estão ligadas a uma lista de crimes. Lavagem de dinheiro, associação criminosa, corrupção de agentes públicos, falsificação de documentos, homicídios e tráfico de armas. Uma das investigações feitas na Europa mostrou, por exemplo, que integrantes do PCC que tinham prestado serviço de transporte de cocaína para um cartel europeu teriam recebido como parte do pagamento armas que tinham vindo do Paquistão. O dinheiro é reinvestido na economia legal e utilizado depois em outras atividades criminosas. É esse o grande problema” Autoridades da Europa não têm nenhuma dúvida sobre o papel do PCC - e em menor escala do Comando Vermelho - no fluxo da droga para o continente. Mas têm optado por abordagem distinta da dos EUA. Sob Trump, o governo americano declarou mais de uma dezena de grupos narcotraficantes latino-americanos como organizações terroristas. Este mês, o Departamento de Estados dos EUA incluiu PCC e CV na lista. O porta-voz da Europol diz que a instituição não se posiciona sobre a decisão de classificar ou não organizações como terroristas e que, na Europa, cabe a cada país tomar essa decisão. Mas afirma: “Não tenho conhecimento de que um único país na Europa estaria inclinado a designar grupos como o PCC, a N’Drangheta ou a Máfia Albanesa como organização terrorista”. Na Europol há uma visão que se assemelha à visão de setores do governo brasileiro e de muitos analistas segundo a qual grupos do crime organizado não são terroristas porque não querem alterar o status quo do ponto de vista político por meio de ações violentas. “A N‘Drangheta, na Calábria, existe há 150 anos e o seu único objetivo é ganhar dinheiro”, diz o porta-voz, lembrado que o grupo não tem o selo de terrorista. “Quanto ao Primeiro Comando Capital, não tenho conhecimento de que seus líderes pretendam alterar o sistema democrático no Brasil. Eles usam o sistema e ficam satisfeitos por tudo permanecer igual, porque conhecem as lacunas do sistema”, acrescentou ele. Na visão da Europol, a aposta mais certeira contra as redes criminosas como o PCC passa por cortar os caminhos por onde o dinheiro ilegal circula. A polícia europeia defende mais cooperação global entre forças policiais, sistema judicial, sistema bancário, bancos internacionais e plataformas on-line como forma de tornar mais eficiente a detecção e bloqueio de ativos financeiros do crime. O efeito seria asfixiar a tal ponto os canais de circulação do dinheiro ilícito que a atuação das organizações criminosas deixassem de ser lucrativas. Em visita a São Paulo na semana passada, Carl Alexandre, funcionário sênior do Departamento de Justiça dos EUA, que se aposentou este ano depois de uma longa carreira no órgão, defendeu que a decisão de Washington de designar PCC e CVC como terroristas tem o objetivo de restringir as opções para o dinheiro do crime. “Trump foi eleito dizendo que seria duro contra o crime. E há muitas ferramentas à disposição do governo americano para lidar com organizações criminosas transnacionais. Essa é uma das ferramentas”, disse Alexandre ao Valor durante evento realizado pela Escola de Segurança Multidimensional (ESM), da USP. “Pessoas que tenham relações financeiras ou que deem algum tipo de apoio material ao PCC ou que recebam apoio do PCC passam a estar em risco porque da forma como a lei foi escrita o termo apoio material permite interpretações muito amplas. Se essas pessoas forem pegas, serão processadas. O mesmo vale para empresas.” O governo brasileiro e muitos especialistas em segurança pública reagiram com críticas à decisão de Washington. O entendimento é que o selo de terroristas nas duas facções poderá representar uma ameaça à soberania nacional abrindo porta para ações militares americanas no território brasileiro. Outra preocupação é que ao dar esse status aos dois grupos, os EUA poderão limitar a troca de informações sobre os criminosos com órgãos de controle brasileiros. Há ainda outro ponto de forte atenção: o risco de que empresas que, desavisadamente, venham a ter algum tipo de relação com alguém vinculado às duas organizações sejam prejudicadas por ações judiciais ou por sanções americanas. Ontem, o Departamento de Segurança Interna dos EUA anunciou a prisão de um homem apontado como um ex-líder do PCC e do CV. Contra ele pesam acusações de associação criminosa e extorsão. O homem foi parado por policiais de trânsito na cidade de Mooresville, na Carolina do Norte, tentou fugir, mas acabou alcançado. Em seu poder, policiais encontraram uma pistola 9mm, vários celulares e laptops e dinheiro vivo. A Polícia Federal tem atuado em parceria com autoridades americanas e com a Europol em operações que envolvem narcotráfico, cyberataques, crimes ambientais, entre outros casos. Em 2025, um acordo entre Brasil e UE definiu a adoção de trâmites mais ágeis para a troca de informações e para realização de operações conjuntas entre Polícia Federal e Europol. O objetivo do acordo é ampliar as possibilidades de colaboração, segundo a PF. No Brasil, PF, Receita Federal, Ministério Público e polícias militares e civis têm atuado há anos para restringir o alcance da atuação do PCC e também do CV. Além de manter seus principais líderes em regimes especiais de prisão, órgãos têm apertado o cerco contra o fluxo do dinheiro ilícito por instituições financeiras e por empresas capturadas pelo crime. Outra frente são os portos. De janeiro a início de junho, a Receita, em parceria com outros órgãos, apreendeu só no porto de Santos - o maior do país - 1.412 quilos de cocaína que estavam prestes a ser transportados para o exterior. Os destinos eram Antuérpia, Roterdã, além de portos no Reino Unido, Portugal e também o Marrocos. Em 2025, a quantidade apreendida em Santos em operações que envolveram a Receita foi de 7.378 quilos de cocaína. Somente com as apreensões em Santos ano passado, redes de traficantes podem deixado de obter uma receita aproximada de 264,5 milhões - considerado para o valor de € 35.860 pelo quilo da cocaína, valor apontado pela a EUDA como o valor médio mais praticado em 2024 na vendas da droga por traficantes internacionais para traficantes locais. Além das apreensões no Brasil, autoridades na Europa também flagram toneladas de cocaína escondidas em navios que saíram do Brasil e de outros países. Em 2024, órgãos de controle dos países da UE fizeram 97 mil apreensões da droga, totalizando 330 mil quilos. Autoridades dos dois lados do Atlântico reconhecem que, a despeito do esforço, o que é apreendido representa apenas uma parte do fluxo ilícito que passa pelo Brasil com destino à Europa. “Até agora, infelizmente, muitos dos ativos financeiros ou do dinheiro gerado pelas atividades criminosas desses grupos não são apreendidos nem confiscados”, admite Jan Oorth. “As organizações criminosas continuam operando porque isso ainda dá dinheiro. Ainda não se confisca dinheiro suficiente.”
Europol diz que PCC já atua com todos os grupos criminosos da Europa
Porta-voz da agência policial da Europa fala do avanço da facção brasileira, mas diz que não vê disposição de europeus em classificar grupo como terrorista






