A decisão dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras tem como pano de fundo uma transformação que ocorreu longe dos comunicados oficiais: as duas maiores facções brasileiras deixaram de atuar apenas como grupos criminosos nacionais e passaram a operar em redes transnacionais de tráfico, armas, lavagem de dinheiro e influência prisional. O anúncio feito pelo Departamento de Estado americano colocou PCC e CV sob uma nova categoria jurídica nos Estados Unidos. A partir de agora, as facções passam a ser tratadas como ameaças internacionais, sujeitas a sanções financeiras e a uma vigilância mais intensa sobre pessoas, empresas e redes de apoio associadas a elas. Embora a classificação seja contestada pelo governo brasileiro, que não enquadra as facções como grupos terroristas pela legislação nacional, a decisão americana se apoia em um argumento central: PCC e CV já não cabem mais dentro das fronteiras do Brasil. Especialistas, ouvidos pelo GLOBO para reportagem publicada em março, quando o tema já mobilizava os dois países, especialistas pontuaram o risco de que a medida, anunciada pelos EUA nesta quinta-feira, trouxesse riscos à soberania nacional. Veja o mapa da expansão: Mapa mostra expansão do CV e PCC pelo mundo — Foto: Reprodução/O GLOBO No caso do PCC, a expansão internacional é mais documentada. Um mapeamento do Ministério Público de São Paulo apontou a presença da facção em ao menos 28 países, com mais de 2 mil integrantes no exterior. A maior parte deles está em prisões, ambiente que reproduz a origem da facção paulista e funciona como espaço de recrutamento, organização e difusão de sua estrutura interna. A facção nasceu em 1993 dentro do sistema prisional paulista e transformou essa característica em método de expansão. Fora do Brasil, segundo investigadores, o PCC busca não apenas fazer negócios pontuais, mas também fixar presença, recrutar integrantes e reproduzir setores internos responsáveis por tráfico, finanças e controle prisional. Carros da polícia são queimados durante ataques do PCC em 2006 — Foto: Thiago Bernardes/ Diário de São Paulo Paraguai, Bolívia, Venezuela e Uruguai aparecem como territórios estratégicos. A proximidade com o Brasil, a posição em rotas da cocaína e a presença de fronteiras extensas tornaram esses países centrais para a logística da facção. No Paraguai, a infiltração em presídios e a disputa por influência já provocaram episódios de violência. Na Bolívia, autoridades prenderam brasileiros apontados como integrantes ou aliados do PCC, em um país considerado rota importante para a cocaína produzida na região andina. A Europa é outra frente de preocupação. Portugal se tornou um dos principais pontos de atenção por causa da língua, da grande comunidade brasileira e da posição estratégica no Atlântico. Autoridades brasileiras e portuguesas investigam a presença de integrantes do PCC no país, suspeitas de lavagem de dinheiro e o uso de embarcações para transportar cocaína até o continente europeu. A Itália também entrou no radar por causa das conexões entre o PCC e máfias locais. Investigações apontaram parcerias para o envio de grandes carregamentos de cocaína da América do Sul para a Europa. A aproximação levou Brasil e Itália a avançarem em acordos de cooperação entre autoridades responsáveis por combater máfias e organizações criminosas transnacionais. O avanço do PCC, porém, não se limita ao tráfico de drogas. Relatórios de inteligência citam suspeitas de conexões em rotas de armas, lavagem de dinheiro e movimentações financeiras internacionais. Países como Sérvia e Líbano aparecem em análises por possíveis vínculos logísticos ou financeiros, ainda que com diferentes graus de evidência e investigação. Expansão do Comando Vermelho O Comando Vermelho tem uma trajetória diferente, mas também passou por um processo de expansão. Fundado no sistema prisional do Rio de Janeiro, ainda nos anos 1970, o CV consolidou-se como a maior facção fluminense e a segunda maior do país. Seu poder se baseia no domínio de territórios, no controle de pontos de venda de drogas, na capacidade armada e em alianças com grupos de outras regiões. Nos últimos anos, a facção ampliou presença principalmente no Norte e no Nordeste. A expansão está ligada ao controle de rotas de drogas, ao refúgio de lideranças em áreas dominadas no Rio e a alianças com grupos locais. Investigações também apontam o uso crescente de armamentos pesados e novas tecnologias em confrontos, como drones adaptados para ataques em disputas territoriais. A conexão com armas é um dos pontos mais sensíveis para a leitura internacional do CV. A facção historicamente dependeu de armamentos importados por rotas ilegais, mas passou também a se valer de redes internas de abastecimento e adaptação de arsenais. Para autoridades estrangeiras, essa combinação entre domínio territorial, poder bélico e articulação com redes de tráfico torna o grupo um ator relevante no crime organizado regional. SSP-BA deflagra operação policial contra integrantes do CV na Bahia — Foto: Reprodução A classificação americana, portanto, não se explica apenas pela violência praticada no Brasil. Ela dialoga com a percepção de que PCC e CV passaram a integrar circuitos internacionais de crime organizado, com capacidade de movimentar dinheiro, drogas e armas por diferentes países. Também pesa o tamanho da economia criminal. Estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública estimou que organizações criminosas movimentaram R$ 146,8 bilhões em 2022 com mercados ilícitos ligados a combustíveis, ouro, cigarros e bebidas, valor muito superior à estimativa de R$ 15 bilhões associada ao tráfico de cocaína no mesmo período. Esse dado ajuda a dimensionar como facções deixaram de depender apenas da droga e passaram a disputar setores inteiros da economia ilegal. Para os Estados Unidos, o enquadramento como organização terrorista amplia instrumentos de pressão. A medida permite bloquear bens, restringir transações financeiras e punir pessoas ou empresas acusadas de oferecer apoio material às facções. Também aumenta o risco para bancos, operadores financeiros e companhias que possam ter relação indireta com redes investigadas. No Brasil, a decisão é vista com cautela. O governo Lula argumenta que PCC e CV são organizações criminosas movidas por lucro, e não grupos terroristas com motivação política, religiosa ou ideológica, como exige a legislação brasileira. A preocupação do Palácio do Planalto é que a medida abra precedente para ações unilaterais dos Estados Unidos sob o argumento de combate ao terrorismo. Ainda assim, há um ponto de convergência entre autoridades brasileiras e estrangeiras: PCC e Comando Vermelho se tornaram problemas internacionais. O PCC criou bases, recrutou em presídios estrangeiros, aproximou-se de redes europeias e buscou capitalizar o tráfico em euros e dólares. O CV expandiu sua presença para além do Rio, fortaleceu conexões armadas e passou a disputar rotas estratégicas em outras regiões do país.
De presídios brasileiros a redes globais: como PCC e CV foram designadas como terroristas pelos EUA; veja mapa
Facção paulista avançou por presídios, portos e rotas da cocaína; grupo carioca expandiu domínio territorial, redes de armas e influência fora do Rio











