A decisão dos Estados Unidos de classificar o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas estrangeiras colocou novamente sob os holofotes as lideranças que comandam as duas maiores facções criminosas do país. Embora muitos desses chefes estejam presos há anos em presídios federais de segurança máxima, investigações das polícias Civil e Federal apontam que eles continuam influenciando decisões estratégicas, movimentações financeiras, disputas territoriais e operações de tráfico dentro e fora do Brasil. O anúncio foi feito nesta quinta-feira pelo secretário de Estado americano, Marco Rubio. Segundo o governo dos EUA, PCC e CV comandam milhares de integrantes e mantêm redes criminosas que ultrapassam as fronteiras brasileiras. A partir da classificação, entram em vigor sanções financeiras e restrições que atingem integrantes, colaboradores e pessoas que prestem apoio às organizações. Enquanto o Comando Vermelho concentra seu poder em lideranças ligadas ao controle territorial de comunidades e à expansão da facção pelo país, o PCC opera uma estrutura mais burocrática e empresarial, com setores especializados em fiscalização financeira, tecnologia, comunicação e lavagem de dinheiro. Márcio Nepomuceno, o Marcinho VP do Complexo do Alemão, em 2007 — Foto: Salvador Scofano Mesmo preso há quase duas décadas em penitenciárias federais, Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, continua sendo apontado pelas autoridades como a principal liderança do Comando Vermelho. Segundo investigações recentes da Polícia Civil do Rio, ele permanece exercendo influência sobre a facção por meio de intermediários, como familiares e advogados, que transmitiriam suas orientações para chefes do tráfico nas ruas e nos presídios. A polícia sustenta que Marcinho participa de decisões sobre nomeações de chefes de comunidades, distribuição de recursos e direcionamento estratégico da organização. No mês passado, ele foi alvo de uma operação contra o braço financeiro da facção, que identificou imóveis e propriedades atribuídos a integrantes de sua família. Os investigadores afirmam que as apurações reforçam a tese de que ele continua ocupando o posto de chefe máximo do grupo criminoso. Doca Edgar Alves de Andrade, o Doca ou Urso, é considerado foragido da Justiça — Foto: Reprodução Se Marcinho VP é tratado pelas autoridades como o principal líder estratégico do CV, Edgar Alves de Andrade, o Doca, é apontado como o principal operador da facção nas ruas. Chefe do Complexo da Penha, na Zona Norte do Rio, Doca é considerado pela polícia um dos criminosos mais influentes do estado. Investigações atribuem a ele o comando da expansão territorial promovida pelo Comando Vermelho nos últimos anos, incluindo invasões de comunidades rivais e articulações para ampliar a presença da facção em diferentes regiões do Rio. A Polícia Federal também identificou conversas em que o traficante demonstrava interesse em se aproximar de agentes políticos. Segundo os investigadores, a estratégia teria como objetivo ampliar a influência da facção e criar mecanismos de proteção institucional. Com mais de 300 anotações criminais, Doca é apontado como responsável por ordenar invasões, execuções e alianças dentro do crime organizado. A polícia atribui a ele papel central na tomada de dezenas de comunidades pela facção nos últimos anos. Abelha Wilton Carlos Rabello Quintanilha, o Abelha — Foto: Reprodução Outro nome que aparece nas investigações é Wilton Carlos Rabello Quintanilha, o Abelha. Durante anos, ele integrou a cúpula do Comando Vermelho e foi apontado como um dos principais articuladores da estratégia que levou a facção a ampliar sua ofensiva contra áreas dominadas por milicianos no Rio. Segundo a Polícia Civil, sua influência cresceu após deixar a prisão, em 2021, quando recebeu a missão de executar projetos definidos pelas lideranças encarceradas. Embora tenha perdido espaço dentro da estrutura da organização após divergências internas, investigadores afirmam que Abelha continua participando do conselho permanente da facção e mantém influência em decisões estratégicas. BMW Juan Breno Malta Ramos Rodrigues, o BMW — Foto: Reprodução Aliado de Doca, Juan Breno Malta Ramos Rodrigues, o BMW, é descrito pelas autoridades como o líder da Equipe Sombra, grupo especializado em assassinatos e disputas territoriais. Segundo as investigações, ele atuou na linha de frente da ofensiva do Comando Vermelho contra milícias e facções rivais, comandando criminosos treinados para confrontos armados. Além das execuções, BMW também teria assumido funções administrativas relacionadas ao tráfico em áreas controladas pela facção, incluindo a gestão financeira de pontos de venda de drogas. Marcola Condenado por tráfico e homicídio, Marcola, que está em presídio federal de Rondônia, era um dos presos que facção pretendia resgatar — Foto: Divulgação No PCC, o principal nome continua sendo Marcos Willians Herbas Camacho. Cumprindo penas que ultrapassam 300 anos de prisão, Marcola é apontado pelas autoridades como o responsável por transformar a facção paulista em uma organização com atuação internacional. Preso no sistema federal, ele continua sendo considerado o principal centro de poder da organização criminosa. De acordo com órgãos de inteligência, sua influência permanece determinante em questões estratégicas, como rotas de exportação de cocaína, resolução de conflitos internos e definição dos rumos da facção. Investigações recentes indicam que ele também esteve por trás de uma série de decisões que resultaram em uma reorganização da cúpula da organização após disputas internas. Quadrado Outro integrante de destaque é Gratuliano de Souza Lira. Segundo o Ministério Público e a Polícia Civil de São Paulo, ele chefia a chamada Sintonia do Raio-X, setor encarregado de fiscalizar o cumprimento das regras internas do PCC e monitorar as finanças da organização. A função inclui supervisionar a arrecadação de recursos, verificar movimentações suspeitas e identificar possíveis desvios de dinheiro. Investigações também apontam que ele atua em esquemas de lavagem de dinheiro e arrecadação por meio de atividades ilícitas fora do tráfico tradicional. Andrezinho e Destino A estrutura do PCC também possui um setor dedicado à segurança digital. De acordo com as autoridades, André Luiz de Souza e Eduardo Fernandes Dias comandam a chamada Sintonia da Internet e Redes Sociais, responsável por desenvolver mecanismos de proteção das comunicações internas da organização. Entre as atribuições da dupla estariam a padronização de sistemas de criptografia, a supervisão de canais de comunicação e o monitoramento da atuação de integrantes da facção nas redes sociais. Segundo as investigações, eles também exercem funções disciplinares, podendo recomendar punições para membros que coloquem em risco informações estratégicas do grupo.