A aguardada notícia de um acordo entre Estados Unidos e Irã para a guerra no Oriente Médio provocou queda de 4,76% na cotação do barril de petróleo do tipo Brent (referência internacional), a US$ 83,17, o menor valor desde 5 de março, logo após o início do conflito. Com a queda da commodity, o dia foi de otimismo no mercado global, com fortes altas em mercados acionários de Ásia, Europa e Estados Unidos, mas os indicadores locais não acompanharam o ritmo positivo do exterior. O Ibovespa foi pressionado pela queda das ações da Petrobras e outras petroleiras privadas, fechando em baixa de 0,42%, a 170.415 pontos. O dólar caiu ontem em relação às principais moedas, mas subiu 0,06% sobre o real, cotado a R$ 5,06. Com o acordo que suspende a guerra por 60 dias e prevê a abertura do Estreito de Ormuz, a queda no preço do petróleo tende a reduzir a entrada de dólares no Brasil, porque a Petrobras é grande exportadora de óleo cru e vinha se beneficiando da alta das cotações. As ações preferenciais da estatal caíram 5,15% ontem, a R$ 39,06. A queda do petróleo tende a reduzir pressões inflacionárias nos próximos meses, mas ainda estão se propagando os efeitos da disparada da cotação desde o início da guerra, em 28 de fevereiro. Além disso, o cenário fiscal brasileiro não ajuda. Na leitura de Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor do Banco Central (BC) e conselheiro da gestora Jubarte Capital, a falta de maior reação positiva dos indicadores locais ao acordo EUA-Irã advém da disparada de gastos do governo. Fim da guerra EUA x Irã — Foto: Criação O Globo — O ambiente vai melhorar em geral por conta da redução do conflito, isso acalma. Mas no caso brasileiro houve uma piora importante, relacionada à expansão fiscal, com gasto adicional de R$ 215 bilhões — disse Figueiredo, avaliando que o aumento dos gastos públicos atrapalha o Banco Central a reduzir os juros. — O BC tem, então, que abortar grande parte da queda da taxa básica de juros (Selic). E isso tudo está sendo realizado à margem do arcabouço fiscal, num momento em que se precisava de moderação dos gastos. O Comitê de Política Monetária (Copom) decide na quarta-feira o rumo da Selic, a taxa básica de juros. O Boletim Focus do Banco Central, divulgado ontem — com dados anteriores ao anúncio do acordo EUA-Irã — mostrou que a mediana das projeções do mercado financeiro para o IPCA de 2026 subiu de 5,11% para 5,30% em uma semana, se distanciando ainda mais do teto da meta, de 4,5%. Para 2027, a expectativa avançou de 4,03% para 4,10%. Já a estimativa para a taxa básica de juros (Selic) no fim do ano passou de 13,50% para 13,75%. A previsão para 2027 avançou de 11,50% para 12%. A maior parte dos operadores ainda prevê apenas mais uma redução da Selic este ano, de 0,25 ponto percentual, para 14,25% na reunião desta semana, mas o anúncio da trégua na guerra reacendeu a possibilidade de dois cortes ou mais. Nos negócios de ontem no mercado de juros futuros, a taxa de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 caiu de 14,36% para 14,24%. Período de transição Segundo Alberto Ramos, diretor de pesquisa econômica para a América Latina do Goldman Sachs, mesmo com o acordo provisório entre EUA e Irã os efeitos sobre a inflação não devem desaparecer imediatamente. — Ainda haverá um período de transição até que o fluxo de navios no Estreito de Ormuz retorne à normalidade, caso isso de fato ocorra. Além disso, mesmo com a queda recente dos preços, dificilmente o petróleo voltará aos níveis observados antes do conflito, em fevereiro — afirma. Ex-diretor do BC e atual estrategista-chefe da BTG Asset Management, o economista Tiago Berriel avalia que o BC e o mercado não devem “baixar a guarda” por causa do acordo. — Tem muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. São muitos os choques: a guerra, as cadeias produtivas desorganizadas, o fiscal, a escala 6x1, El Niño. Do ponto de vista de política monetária, deve-se ter cautela extra, porque a guerra “acabou” várias vezes nos últimos cem dias. E o mercado também terá cautela. Tem muita incerteza política no debate, também. O mercado e os agentes econômicos precisam de cautela. Contudo, o Brasil ainda é um país geopoliticamente seguro e com preços atraentes. Existe espaço para atração de capital, e observamos um sólido interesse de investidores estrangeiros no país. Basta a gente não fazer nada muito errado — disse Berriel. Felipe Tavares, economista-chefe da BGC Liquidez, também vê com preocupação a pressão criada pelos recentes indicadores macroeconômicos e citou pesquisa eleitoral divulgada ontem, mostrando que o presidente Lula aumentou a vantagem sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL). Apesar do possível fim do conflito se refletir num aumento do apetite do investidor global a risco, o retorno das apostas em inteligência artificial contribui para a redução do investimento internacional nos papéis brasileiros. Desde o pico do ingresso do estrangeiro no segmento de ações brasileiras, em meados de abril, saíram, em dois meses, quase R$ 32 bilhões da Bolsa brasileira, a B3. Para Marcel Andrade, responsável pela área de soluções na SulAmérica Investimentos, as aberturas de capital (IPOs, na sigla em inglês) nos EUA tendem a drenar recursos que apostaram nas companhias dos mercados emergentes: — Toda aquela dúvida que existia no mercado sobre os resultados das empresas de IA ficou para trás. Os balanços mostram que os investimentos estão se pagando. E há esse movimento de euforia dos IPOs, como o da SpaceX, e os que virão, como Anthropic e OpenAI. O fluxo de capitais que tinha deixado os EUA está voltando — disse Andrade. Bolsas nos EUA Em seu segundo dia de negociações, a ação da SpaceX subiu 19,6%, a US$ 192,50. De acordo com a consultoria Vanda Research, as pessoas físicas compraram só em ações da companhia o mesmo volume que negociaram em todo o mercado americano na semana passada. Em Nova York, as Bolsas registraram alta firme. O índice Nasdaq, de papéis ligados à tecnologia, avançou 3,07%. O Dow Jones subiu 0,9% e alcançou nova máxima histórica em pontos, e o S&P 500, índice de referência americano, subiu 1,65%. Com a queda do petróleo, operadores americanos passaram a atribuir menor probabilidade a uma alta de juros por lá até dezembro. O Federal Reserve (Fed, o BC americano) também se reúne esta semana para decidir os juros, com apostas na manutenção na faixa atual, entre 3,5% e 3,75%, enquanto avalia de que forma o choque nos preços da energia afetará a economia do país.
Bolsas, petróleo e dólar: como os mercados reagiram ao acordo entre EUA e Irã e por quê
Apesar da redução dos juros globais, indicadores locais foram pressionados pelo receio com ampliação dos gastos públicos em ano eleitoral














