Ler jornal é prática que cria sincronia entre idioma, história e destino em comum com outros indivíduos de uma nação. Essa é a ideia central de "Comunidades Imaginadas", livro do historiador inglês Benedict Anderson de 1983. No Brasil, a comunidade imaginada não é sentida só na leitura dos jornais, mas também é exercida em nosso fascínio pelo futebol, esporte que é patrimônio nacional.

Nelson Rodrigues cravou nos anos 1950 que somos "a pátria de chuteiras". Acrescentaria a isso o detalhe das chuteiras verde-amarelas gingarem ao som do batuque do samba e uma boa conversa jogada fora. É em meio a uma boa partida de futebol, na apreciação do samba e no prazer da resenha, a conversa fiada que traz o riso fácil e a diversão jocosa, que nos sentimos mais tupiniquinis.

Boleiros são ótimos resenheiros. Vampeta talvez seja o maior resenheiro da história do futebol contemporâneo. Mas foi Adriano, o Imperador, que conseguiu resenhar de forma "sociologicamente futebolística" a primeira partida da seleção nesta Copa.

"A gente já estava perfilando para entrar no campo, eu dei a ordem. Ninguém entendeu nada, mas todo mundo voltou. Entramos no vestiário de novo. Fizemos uma roda. Ombro com ombro. Braços entrelaçados. Puxei a conversa. ‘Pessoal, isso aqui não tá legal. Que porra é essa? Não teve a nossa música hoje no vestiário. Não fizemos o nosso pagode no ônibus. Cadê a resenha? Ninguém fez brincadeira. Porra, assim não dá não. Vamos perder pra nós mesmos?’"