A Ordem dos Médicos exige esclarecimentos urgentes aos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS) sobre a falha de energia que, na passada sexta-feira, paralisou os sistemas informáticos do Serviço Nacional de Saúde (SNS), deixando previsivelmente mais de 150 mil consultas e actos clínicos programados sem registo informático em tempo real.As perturbações começaram logo pela manhã, afectando unidades de saúde de todo o país, e só ao final do dia, cerca de nove horas depois, os SPMS deram a situação como normalizada.Em comunicado, a Ordem dos Médicos considera ser "indispensável conhecer, com rigor e transparência, o que aconteceu, quais as causas concretas, os sistemas afectados, durante quanto tempo estiveram indisponíveis e que medidas foram adoptadas para garantir a continuidade da actividade clínica e a segurança dos doentes".Segundo a Ordem, "previsivelmente mais de 150.000 consultas e actos clínicos programados ficaram sem registo informático em tempo real". Em consequência, "muitas consultas não se realizaram ou foram adiadas", uma ocorrência com "impacto directo no acesso dos doentes aos cuidados de saúde, na qualidade da decisão médica e na organização do trabalho".Como o PÚBLICO avançou, a falha de energia ocorreu no centro de dados do SNS, situação que levanta dúvidas e preocupações. Em comunicado, a iniciativa Cidadãos pela Segurança (CpC) questionou a falta de geradores e de centros de dados de contingência, notando que qualquer infra-estrutura de missão crítica —- como é o centro de dados do SNS — "deve ter três camadas de protecção contra falhas de energia", nomeadamente o sistema UPS (baterias que entram em funcionamento imediatamente após a falha da rede, garantindo continuidade enquanto os geradores arrancam), geradores a diesel e um site de contingência (segundo centro de dados).A CpC explica que, "se as UPS falharam, os geradores deviam ter compensado". Se os geradores falharam, o site de contingência devia ter assumido o controlo, continua. "Se nenhum destes mecanismos funcionou – ou se simplesmente não existiam um ou todos – estamos perante uma falha de arquitectura que vai muito além de um 'acidente' fortuito: estamos perante incompetência grosseira", critica a iniciativa, em comunicado.Na sexta-feira ao final do dia, a SPMS adiantou que, no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência, “está a implementar, até ao final deste ano, um segundo pólo da sua infra-estrutura central, garantindo assim maior redundância e garantia de disponibilidade”. Para a iniciativa CpC, "esta frase, apresentada como boa notícia, é na verdade uma confissão: em 2026, a infra-estrutura crítica de saúde de todo um país depende de um único centro de dados sem redundância geográfica operacional. Incrível".Na carta dirigida à SPMS, o bastonário da Ordem dos Médicos solicita também esclarecimentos sobre os sistemas de redundância existentes e sobre o projecto do segundo pólo de infra-estrutura central dos SPMS, anunciado para reforçar a resiliência dos sistemas críticos do SNS.No plano da comunicação, também sobram críticas. O bastonário garante que os SPMS não contactaram a Ordem dos Médicos até hoje e entende que "este bloqueio de informação é incompreensível”.“Uma comunicação institucional imediata teria sido essencial para informar e apoiar os médicos, proteger os doentes e assegurar que os profissionais sabiam como actuar perante o problema em concreto", afirma Carlos Cortes. A Ordem dos Médicos lembra que é segunda falha grave, em menos de um mês, nos sistemas de informação do SNS. A 22 de Maio, uma falha de segurança afectou dados administrativos e informação associada a processos clínicos de mais de 100 mil utentes em todo o país, incluindo crianças, e nessa ocasião a Ordem também solicitou esclarecimentos urgentes à SPMS, "que até ao momento não respondeu".
Mais de 150 mil consultas sem registo: Ordem dos Médicos quer esclarecimentos urgentes sobre falha que paralisou SNS
Falha de energia no centro de dados do SNS deixou profissionais de saúde sem acesso aos sistemas informáticos. Falta de geradores e de sistemas de contingência levanta dúvidas e preocupações.







