O treinador espanhol Luis de la Fuente teve um caminho incomum para assumir uma das favoritas nesta Copa do Mundo. Em vez de um currículo vitorioso em clubes, a exemplo de antecessores como Vicente del Bosque e Luis Enrique, foi um anúncio de jornal que o levou, há 13 anos, ao comando da Espanha — primeiro em seleções de base, e agora na equipe principal, que estreia hoje, às 13h (de Brasília), contra Cabo Verde. Casos como o de De la Fuente, de treinadores com bagagem em seleções nacionais e pouca (ou nenhuma) vivência relevante em times de ponta, vêm se tornando mais comuns nas principais candidatas ao Mundial em 2026. E podem colocar em xeque a dinastia dos “treinadores de clube” em Copas. O primeiro abalo a essa tradição veio em 2022. Lionel Scaloni, que havia assumido a Argentina sob desconfiança quatro anos antes, sem jamais ter atuado em clubes, terminou com o troféu no Catar. Até então, desde 1990, com a Alemanha de Franz Beckenbauer, todos os campeões tinham treinadores que lá chegaram graças à experiência em clubes profissionais. Antes, também eram raras as exceções a essa regra. Os sinais de mudança começaram a aparecer em 2014, com o título da Alemanha de Joachim Löw. Com um vice-campeonato europeu dirigindo o Stuttgart nos anos 1990, é verdade que Löw tinha história em clubes. Mas também é verdade que só assumiu a seleção por ter sido auxiliar do técnico Jürgen Klinsmann na Copa de 2006, quando os alemães chegaram à semifinal. Em 2018, quando levou a França ao bi mundial, Didier Deschamps ainda era mais conhecido na carreira de treinador por feitos no futebol de clubes, em especial o vice da Liga dos Campeões de 2004 dirigindo o Monaco. Já em 2026, após 14 anos e duas finais de Copas à frente de Les Bleus, a bagagem na seleção se sobressai. Vicente Del Bosque comandou a Espanha no título mundial de 2010 — Foto: PIERRE-PHILIPPE MARCOU / AFP — Antes, os treinadores tinham que provar competência em ambientes de alta pressão para assumir seleções. Agora, como as federações nacionais têm investido em processos e identidades próprias de trabalho, você não necessariamente precisa de um treinador que traga a bagagem de clube, e sim alguém capaz de organizar e processar as informações acumuladas pela seleção ao longo do tempo — avalia Israel Teoldo da Costa, coordenador do Núcleo de Pesquisa e Estudos em Futebol da Universidade Federal de Viçosa (UFV). Com os países cada vez mais nivelados tática e tecnicamente, e o número reduzido de datas para treinar, aproveitar melhor o tempo passou a ser crucial nas seleções. Nesse contexto, ganham pontos os treinadores que já conhecem seus atletas de outros carnavais, destaca Teoldo. De la Fuente, um ex-jogador do Athletic Bilbao que procurava emprego em 2013, ganhou uma chance na seleção espanhola sub-15 a partir do tal anúncio de jornal. Depois, escalou as categorias sub-19, sub-21 e sub-23 até assumir a equipe principal. Alguns dos convocados para a Copa, como o lateral Cucurella, os meias Pedri e Merino e os atacantes Oyarzabal e Dani Olmo, já haviam sido dirigidos por De la Fuente na seleção em diferentes estágios de sua formação esportiva. Os cinco disputaram, por exemplo, a final das Olimpíadas de Tóquio em 2021, contra o Brasil, sob o comando do mesmo treinador. Marc Cucurella acertou com o Real Madrid, mas ainda não foi anunciado — Foto: HENRY NICHOLLS / AFP Ancelotti do outro lado Outro exemplo que cruza o caminho do Brasil é o treinador marroquino Mohamed Ouahbi, que dirige o Marrocos no Grupo C desta Copa. Ouahbi tinha passagens pelo futebol de base na Bélgica antes de assumir a seleção sub-20 do Marrocos em 2022, ano em que o treinador Walid Regragui, vitorioso em clubes africanos, levou a seleção principal marroquina a uma inédita semifinal de Copa. Com a demissão de Regragui em março deste ano, a opção local foi por promover Ouahbi, que vinha de um título mundial sub-20 à frente do Marrocos. A preferência por trabalhos longevos também aparece na Escócia, outra rival do grupo do Brasil, que retornou a uma Copa do Mundo depois de 24 anos sob o comando de Steve Clarke, à frente da seleção desde 2019. Carlo Ancelotti brilhou em diversos gigantes da Europa antes de assumir a seleção brasileira — Foto: Reprodução Trata-se de um contraste com o status de nomes como o italiano Carlo Ancelotti, à frente do Brasil, ou ainda o alemão Thomas Tuchel, técnico da Inglaterra, e Julian Nagelsmann, da Alemanha. São treinadores bem-sucedidos em ligas europeias, mas que hoje lideram trabalhos recentes, que não chegam a um ciclo inteiro de Copa, nas seleções nacionais. Todos podem ser campeões, mas a capacidade de corrigir erros com a rapidez que exige uma Copa do Mundo tende a ser calibrada, segundo Teoldo, pela antiguidade no posto: — A longevidade nas seleções é um ativo mais estratégico até do que nos clubes hoje em dia. É óbvio que isso precisa ser validado por certos indicadores de performance, mas o trabalho de longo prazo ajuda a reduzir as incertezas sobre como usar os jogadores, em um contexto no qual o tempo de treinamento é escasso. No caso da Espanha de De la Fuente, outra quebra de paradigma nesta Copa é a ausência de jogadores do Real Madrid na seleção, algo inédito em Mundiais — Marc Cucurella assinou ontem com o clube merengue, mas disputa o torneio como atleta do Chelsea. Na única vez em que levantou a taça, em 2010, a “Roja” tinha cinco convocados do Real, incluindo o goleiro e capitão Casillas. Treinador da época, Del Bosque, havia conquistado antes dois títulos da Liga dos Campeões e um Intercontinental dirigindo o clube de Madri. Agora, as esperanças da seleção espanhola estão nos atacantes Lamine Yamal, do Barcelona, e Nico Williams, do Athletic Bilbao; e no volante Rodri, do Manchester City. O trio, porém, vem convivendo com problemas físicos nesta temporada, e apenas Rodri deve ser titular na estreia contra Cabo Verde, que chega como franca-atiradora em sua primeira participação em Copas.