Ay, ay, ay, ayCanta y no lloresPorque cantando se alegranCielito lindo, los corazones.Agora junta-se um trompete. Depois, milhares de vozes. Uns minutos mais tarde, há sul-africanos a cantarem. E, pouco depois, sul-coreanos que provavelmente não fazem ideia do que estão a dizer, mas que já acertaram no refrão. E jornalistas estrangeiros que não param de trautear ou assobiar aquele refrão que fica no ouvido – pelo menos um está a passar por isso.A Cidade do México tem som, tem cor e tem dança. No fundo, tem salero. Porque, quando o assunto é Mundial de futebol, o México não brinca. É assim em 2026, mas foi também em 86 e em 70. Não é por acaso que estes dois Mundiais são apontados por muitos como os mais vibrantes e excitantes de sempre.É certo que Pelé e Maradona ajudaram, mas os mexicanos fizeram boa parte do serviço. E é assim sempre que eles lá aparecem. Quando há Mundial, lá vêm com o trompete e os sombreros.A capital está vestida de verde – e de Mundial. Nas paredes, na publicidade, nas decorações, nas camisolas e no barulho. Tudo cheira a Mundial e isto, numa organização partilhada com a calmaria dos Estados Unidos e Canadá, não é coisa pouca.Diferente do QatarNão é muito relevante se o México está a ganhar ou a perder. Em rigor, não é sequer relevante se o México está a jogar – o dia seguinte ao jogo inaugural do torneio prova-o.Sabemos que, mais tarde ou mais cedo, na rua ou num café, no estádio ou na fan zone, alguma alma vai entoar um “ay, ay, ay, ay”. E todos sabem como continuar.Tanto assim é que há vídeos de adeptos da Coreia do Sul a cantarem a música nas ruas e nas bancadas. E também da África do Sul – os tais que perderam contra o México, mas nem por isso recusaram entrar na cantoria.Por aqui, há patos a circularem na rua com a camisola do México. Há adeptos a lutarem com cones de sinalização na cabeça. Há coreanos e mexicanos juntos a dançarem o famoso “Gangnam Style”. Há jornalistas atirados ao ar durante as reportagens – e outros a beberem shots de tequila. Há coreanos com bigodes postiços e sombreros. E grelhadores a tratarem da carne no meio de uma metrópole.Há quatro anos, no Qatar, o ambiente tinha pouco que ver com isto. É certo que mudava quando apareciam mexicanos, argentinos ou marroquinos, mas, em geral, o ambiente foi morno.As gentes locais ligavam pouco a futebol. E o preço de ir até ao Qatar obrigou muitos turistas a verem o futebol no sofá. Isto levou a FIFA a contratar cidadãos para se fazerem passar por adeptos de selecções, criando situações bizarras como grupos de paquistaneses a tentarem ser argentinos – eram os argentinos nascidos em Buenos Árabes.Aqui, não é preciso. Pelo menos, no México. As primeiras horas de Mundial já sugeriram que o ambiente no Canadá e nos Estados Unidos nada terá de semelhante, mas vamos dar o benefício da dúvida. Daqui a uns dias traremos uma impressão sobre como está a ser no Texas.TumultosApesar da festa, há duas cidades a organizarem o Mundial. Numa, milhares vestem-se a rigor, cantam o cielito lindo, bebem tequila e fazem amigos estrangeiros. Na outra, a população protesta.Professores, familiares de desaparecidos, trabalhadores dos transportes, agricultores e até profissionais do sexo têm saído à rua para lembrarem que, por detrás da festa, há um país com contas por acertar.Os professores, em braço-de-ferro com o Governo de Claudia Sheinbaum, exigem aumentos salariais e o regresso a um sistema público de pensões abandonado há quase duas décadas. As famílias dos desaparecidos, em protesto contra o crime organizado, levaram fotografias e velas para as ruas da capital.Pelo caminho houve ruas cortadas, trânsito caótico e confrontos com a polícia. Os adeptos também sentiram o impacto. No dia do jogo inaugural, muitas das principais avenidas junto ao estádio foram encerradas e milhares tiveram de percorrer vários quilómetros a pé para assistirem à partida.O México não põe os seus problemas em pausa por causa do Mundial. Mas também não deixa que os problemas acabem com a festa. Canta y no llora.
Há quem organize Mundiais. O México organiza fiestas
1970, 1986, 2026. Quando o assunto é Mundial, o México não brinca. O ambiente na capital é vibrante e ao som do cielito lindo e do trompete todos cantam: até os coreanos, esses magos do salero.












