O mercado de suplementos “para o cérebro” está em expansão. Prometem melhorar a memória, o foco, a produtividade e o humor e até prevenir o declínio cognitivo. Entre cápsulas de ómega-3, creatina, triptofano ou plantas exóticas como gotu kola (centela-asiática) e lion’s mane (cogumelo-juba-de-leão), a ideia é sedutora: otimizar o cérebro através de suplementos alimentares.E, ao contrário do que muitas vezes se assume, esta área não nasceu apenas do marketing. Há ciência real na base destas propostas. O problema começa quando a plausibilidade biológica é confundida com benefício clínico.Sabemos há décadas que défices nutricionais podem afetar o cérebro. A deficiência de vitamina B12 pode causar alterações cognitivas, sintomas psiquiátricos e até neuropatia. Défices de ferro estão associados a fadiga, dificuldades de atenção e pior desempenho cognitivo, sobretudo em crianças e mulheres com anemia. A deficiência de iodo durante o desenvolvimento fetal compromete o neurodesenvolvimento. Nestes casos, a suplementação não é “otimização”: é tratamento através da correção de deficiências nutricionais.

Temos também situações clínicas específicas em que certos suplementos parecem ser úteis. O melhor exemplo recente é, talvez, o dos ómega-3, particularmente das formulações ricas em EPA (ácido eicosapentaenoico), na depressão. Meta-análises sugerem um benefício modesto como adjuvante à terapia farmacológica e psicoterapêutica em alguns doentes com depressão. Isto não significa que tomar cápsulas de óleo de peixe melhore o humor de qualquer pessoa saudável, mas mostra que existem contextos em que a suplementação pode ser útil.É precisamente aqui que começa a “zona cinzenta” dos chamados “brain boosters”.Muitos suplementos comercializados para a memória e o desempenho cognitivo atuam através de mecanismos biologicamente plausíveis. O triptofano participa da síntese de serotonina; a creatina participa no metabolismo energético celular; a colina é precursora da acetilcolina. O problema é que o cérebro não funciona como um depósito em que basta adicionar mais matéria-prima para melhorar o desempenho.A existência de um mecanismo neurobiológico plausível não se traduz automaticamente em melhorias na memória, na atenção ou na inteligência em humanos.A creatina é um bom exemplo. Tornou-se popular no fitness, mas, recentemente, também entrou no universo da “saúde cerebral”. E há motivos para isso: o cérebro consome grandes quantidades de energia, e a creatina pode ajudar em situações de maior stress metabólico, como a privação de sono ou o envelhecimento. Alguns estudos mostram benefícios modestos na memória de trabalho ou na velocidade de processamento em contextos específicos. Mas isto está muito longe da ideia de um suplemento que aumenta o foco e a produtividade de qualquer pessoa.