Substância usada para combater dores articulares pode acelerar perda cognitiva e morte celular 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Suplemento contra dor articular é um aminoaçúcar — Foto: Magnific RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 13/06/2026 - 09:37 Suplemento Glucosamina Ligado a Maior Risco de Morte em Alzheimer Um estudo publicado na Nature Metabolism associa o uso do suplemento glucosamina ao aumento de 25% no risco de morte em cinco anos para pacientes com Alzheimer. Utilizado para aliviar dores articulares, a glucosamina pode acelerar a perda cognitiva, especialmente em pessoas com comprometimento cognitivo leve. Os pesquisadores da Universidade da Flórida realizaram testes em camundongos, indicando que esse suplemento pode agravar a demência. A glucosamina é vendida sem prescrição médica e seu efeito prejudicial em cérebros comprometidos ainda requer mais estudos para determinar a dose e duração do uso, além de explorar se outros suplementos apresentam riscos semelhantes. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Pessoas com doença de Alzheimer que tomavam o suplemento comum glucosamina tinham 25% mais probabilidade de morrer em até cinco anos do que aquelas que não o tomavam. Essa é a principal conclusão de um novo estudo que meus colegas e eu publicamos na revista científica Nature Metabolism. A glucosamina é uma molécula de açúcar vendida sem receita médica como tratamento para dores articulares e artrite. Mais de 40 milhões de americanos a utilizam todos os anos. Descobrimos também que a glucosamina afetava pessoas nos estágios mais iniciais da perda de memória, uma condição chamada comprometimento cognitivo leve. Pessoas nesse estágio inicial da demência que tomavam glucosamina tinham 25% mais probabilidade de evoluir para Alzheimer completo. Nossa análise de pacientes com doença de Alzheimer baseou-se em registros médicos anonimizados do sistema de saúde da Universidade da Flórida. Incluímos 24 mil pacientes com demência e 41 mil com comprometimento cognitivo leve, comparando aqueles que tomavam glucosamina com os que não tomavam. Em seguida, realizamos experimentos em camundongos geneticamente modificados para apresentar sintomas semelhantes aos do Alzheimer, a fim de identificar o possível mecanismo pelo qual a glucosamina pode afetar o cérebro. Descobrimos que bloquear a enzima responsável pela produção de açúcares como a glucosamina melhorou os sintomas de demência nos animais. Em contraste, administrar glucosamina aos mesmos camundongos agravou a perda de memória. Em camundongos saudáveis que receberam o mesmo suplemento, não observamos nenhum efeito. Por que isso importa A agência reguladora americana de alimentos e medicamentos, Food and Drug Administration (FDA), classifica a glucosamina como suplemento alimentar, e não como medicamento sujeito a prescrição. Como resultado, qualquer pessoa pode comprá-la sem consultar um médico. A glucosamina é um aminoaçúcar. Formada por glicose e um aminoácido chamado glutamina, essas moléculas são usadas pelo organismo para construir novas células. Como a glucosamina não é considerada um nutriente essencial, a deficiência de glucosamina não é reconhecida como uma condição médica. Ainda assim, muitas pessoas utilizam o suplemento com base em relatos de que ele melhora a saúde das articulações, especialmente dos joelhos. Há mais de uma década, minha equipe e eu, na Universidade da Flórida, estudamos como o cérebro utiliza e processa açúcares e o que dá errado nesse processo em pessoas com doença de Alzheimer. Um problema menos conhecido associado ao Alzheimer é que células cerebrais e proteínas acumulam revestimentos extras de açúcar. Normalmente, células e proteínas do cérebro possuem pequenas cadeias de açúcar em sua superfície, chamadas N-glicanos. Esses açúcares ajudam proteínas recém-formadas a adquirir sua estrutura tridimensional correta e a se conectar com outras proteínas com as quais interagem. Mas, em pessoas com Alzheimer, essas cadeias de açúcar se acumulam em locais inadequados. As proteínas subjacentes começam a falhar, levando à perda de memória e à morte celular. Essa condição é chamada de hiperglicosilação. Considerando que cerca de 7,2 milhões de americanos com 65 anos ou mais vivem com Alzheimer, estimamos que muitos deles também estivessem tomando glucosamina para a saúde das articulações. Nossa hipótese era que esse aminoaçúcar pudesse estar contribuindo para o declínio cognitivo. Estudos anteriores haviam associado os suplementos de glucosamina a um menor risco de demência em adultos cognitivamente saudáveis. Nossos resultados não contradizem esses trabalhos, mas acrescentam uma importante ressalva: embora a glucosamina pareça segura e potencialmente protetora para um cérebro saudável, ela pode ser prejudicial para um cérebro que já esteja apresentando declínio cognitivo. O que ainda não se sabe Como nosso estudo se baseou em registros médicos de pacientes, e não em um experimento controlado com pessoas, ele não pode demonstrar que a glucosamina causa um declínio cognitivo mais rápido — apenas que existe uma associação entre os dois fatores. Responder a essa questão exigiria um estudo em que alguns pacientes recebessem glucosamina aleatoriamente e outros não. No entanto, se houver a possibilidade de a glucosamina aumentar o risco de demência, administrar deliberadamente o suplemento a pacientes poderia ser antiético. Além disso, ainda não sabemos se o aparente efeito prejudicial da glucosamina em cérebros com problemas de memória depende da dose utilizada, da marca do suplemento ou da duração do uso. Também não sabemos se essa observação se aplica a outras formas de demência. Próximos passos Uma maneira de testar se a glucosamina causa diretamente o declínio cognitivo seria acompanhar pacientes que tomavam o suplemento e depois o interromperam. Cerca de 8% dos pacientes com demência em nosso banco de dados se enquadram nessa situação. Esperamos acompanhá-los por vários anos para verificar se a interrupção do suplemento desacelera o declínio cognitivo. Também estamos avaliando compostos capazes de bloquear as moléculas N-glicanas e reduzir o acúmulo de açúcares nas células cerebrais, para investigar se isso poderia retardar ou até reverter a doença de Alzheimer. Por fim, pretendemos explorar se outros suplementos metabolizados pelo organismo de forma semelhante à glucosamina apresentam riscos comparáveis para cérebros que já estão sofrendo declínio cognitivo. *Ramon Sun é professor de Bioquímica e Biologia Molecular da Universidade da Flórida, nos Estados Unidos.
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