TV estatal promete transmitir algumas partidas do Mundial, para comemoração de um crescente número de fãs de futebol, mas torneio também expõe desigualdades na ilha 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Torcedores da Seleção Brasileira assistem ao duelo contra o Marrocos em festa em Havana — Foto: Pablo PORCIUNCULA / AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 14/06/2026 - 18:12 Futebol na Copa do Mundo: Escape para cubanos em meio à crise e blecautes Em meio à crise em Cuba, a Copa do Mundo surge como um escape momentâneo para a população. A TV estatal, apesar de problemas iniciais, transmite jogos, proporcionando alívio em meio a blecautes frequentes. O futebol ganha espaço, especialmente entre jovens, contrastando com a tradicional paixão pelo beisebol. Contudo, a desigualdade é evidente, com alguns podendo assistir aos jogos em bares caros e outros limitados às calçadas. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO “Você precisa ser feliz”, diz um grafite na parede de um prédio em ruínas em Havana. E por quase duas horas, durante o jogo entre Brasil e Marrocos pela Copa do Mundo, os cubanos deixaram de lado suas preocupações. A transmissão dos jogos pela TV estatal cubana começou com dois dias de atraso devido a um problema com o pagamento dos direitos. No sábado, foi ao ar a primeira partida. Em um pequeno café no na região central de Havana, de casas com cores em tons pastéis, fachadas descascadas e varais de roupa nas varandas, homens sentados em pequenos barris observavam com atenção a televisão na parede. O beisebol é o esporte nacional de Cuba, e a única participação do país em uma Copa do Mundo (de futebol) ocorreu há quase um século, em 1938, quando chegou às quartas. Mas a chegada da internet móvel, há uma década, abriu espaço para essa nova paixão, e a bola de futebol já reina soberana, especialmente entre as crianças. Quando a TV estatal anunciou, no dia seguinte à abertura do torneio no México, que transmitiria 16 partidas da primeira fase e todos os jogos das fases eliminatórias, o ambiente mudou. Agora, a eletricidade precisa cumprir sua parte: há mais de quatro meses sob bloqueio petroleiro dos EUA, e com uma rede de transmissão antiquada, os blecautes são rotina. Moradores de Havana assistem a jogo entre Brasil e Marrocos em café — Foto: Pablo PORCIUNCULA / AFP Ismael Veranes, diretor de recursos humanos do Teatro Nacional de Cuba, foi ao café para assistir ao jogo porque está há mais de 20 horas sem luz em casa. Enquanto bebe um suco de frutas, o único prazer que se permite durante o jogo por causa da crise econômica, garante que a Copa alivia sua mente em meio a um dia de transportes caóticos e blecautes. — Quando retorno de casa cansado, não tem luz. Faz calor de noite, e os mosquitos são terríveis — diz Veranes, que divide sua torcida entre a França e o Brasil. Uma hora antes do jogo, em uma esquina próxima, Michael, um fã de Lionel Messi, de nove anos, e sua irmã Meiliuvis, de 10, brincavam com uma tampa de garrafa sob os olhares de Che Guevara, imortalizado com sua boina na parede de uma galeria do outro lado da rua. Enquanto no passado os cubanos eram fiéis ao beisebol — Fidel Castro costumava rebater para as multidões —, desde a chegada dos smartphones, em 2018, “as crianças tendem mais para o futebol”, explica Osmany, pai de Michael. E embora a crise se reflita nos campos de futebol “muito deteriorados” da ilha, a Copa “nos permite uma distração rápida”. Muitos cubanos falam com nostalgia de Mundiais passados, quando a TV estatal transmitia todas as partidas, e a comida e gasolina não eram tão escassos, com exceção dos anos 1980, quando a ajuda soviética chegou ao fim. Agora, apenas os bares com TV a cabo e cerveja cara exibem todos os jogos, e a muitos resta apenas assistir das calçadas. — Não é a mesma coisa — diz, em tom de tristeza, Alan, de 36 anos, em pé na rua com dois amigos e uma lata de cerveja na mão. Estudantes de medicina mexicanos comemoram gol do México em bar de Havana — Foto: Pablo PORCIUNCULA / AFP Em Cuba, onde a crise ampliou as desigualdades, alguns torcedores de futebol são mais iguais do que outros. No arborizado bairro de classe média de El Vedado, em Havana, as cervejas vendidas a US$ 1 circulavam em uma festa em um centro cultural decorado com bandeiras do Brasil e cartazes da Copa. Do lado de fora, uma fila de veículos 4x4 atestava a existência de uma pequena elite que passa muito bem, recebendo salários em dólares no setor privado, ao mesmo tempo em que outros cubanos vasculham o lixo em busca de comida. Mas até ali a crise se faz sentir: de tempos em tempos, o sinal da TV congela, para protesto dos presentes. Víctor Díaz, um biólogo de 24 anos, comemora poder acompanhar a Copa. — Ter algo para aliviar todas as dificuldades, como as que temos dia após dia, é incrível.