Clavicular ganha a vida dizendo aos outros quanto seus rostos valem. Virou sucesso na internet ao encarnar a promessa de que marteladas no maxilar, somadas a estratégias ainda menos convencionais, poderiam transformar um "subumano" num "semideus", os dois polos da hierarquia que organiza seu mundo. Em poucos meses, converteu-se numa espécie de Bryan Johnson do looksmaxxing, cultura saída das vizinhanças incel que promete tirar o rosto do campo da sorte.

As notas que ele distribui por onde passa são demolidoras. A sala pode rir, o entrevistador pode tentar salvar a cena com uma piada, mas Clavicular segue impávido, professando suas análises como o plantonista que lê a ficha do último acidentado. É que a crueldade tem método: grau de inclinação dos olhos, ângulo da mandíbula, proporção entre os terços do rosto e outros fatores da escala PSL, criada em fóruns nos quais a humilhação erótica virou sistema de classificação.

Há quem veja na falta de ciência dos looksmaxxers a prova de que beleza é apenas gosto. Erro. Opiniões convergem mais do que gostaríamos. Um rosto bonito no Japão dispensa apresentações no Brasil. O mesmo vale para cães, flores ou frutas. Quem psicologiza transforma cada preferência em autobiografia; quem culturaliza reduz cada gosto a tribo; mas fato é que até recém-nascidos olham por mais tempo para faces que adultos consideram atraentes.