Um borrifo de água à distância, um movimento diferente entre as ondas e a indicação de um guia apontando para um ponto do horizonte. Segundos depois, em meio aos olhares atentos dos turistas a bordo do barco, uma baleia de dezenas de toneladas salta alguns metros acima da água antes de desaparecer novamente sob a superfície. Cenas como essa são comuns durante as famosas temporadas de observação de baleias em diferentes partes do mundo, incluindo o litoral do Rio de Janeiro neste período do ano. A atividade movimenta o turismo e contribui para pesquisas científicas, mas também levanta debates sobre conservação, com pesquisadores e organismos internacionais alertando para os impactos causados aos animais quando ocorre de forma irresponsável. Estima-se que mais de 13 milhões de pessoas participem de atividades de observação de baleias todos os anos ao redor do mundo, segundo a Comissão Baleeira Internacional (IWC, na sigla em inglês). Além da costa brasileira — cuja temporada de observação se estende de meados de maio a outubro —, entre os destinos mais comuns estão Austrália, Canadá, Argentina, Islândia, México, Nova Zelândia e África do Sul. Rotas migratórias das baleias — Foto: Editoria de Arte / O Globo No geral, essas rotas (os chamados "corredores azuis") conectam áreas polares e subpolares (onde os animais encontram grande abundância de alimento), a águas mais quentes, perfeitas para a reprodução e nascimento dos filhotes. — As regiões polares, durante o verão, são imensamente mais produtivas em plâncton, os pequenos organismos marinhos dos quais elas se alimentam. Ao findar o verão, elas começam a migração para águas mais quentes e tranquilas, onde o filhote pode nascer com mais segurança e adquirir durante os primeiros meses de vida a camada de gordura que vai protegê-lo do frio durante o próximo verão, junto com sua mãe, nas águas polares — explica ao GLOBO o coordenador de Desenvolvimento Institucional do Instituto Baleia Jubarte, José Palazzo. Momento biológico crucial Ainda que seja uma atividade capaz de movimentar a economia em comunidades costeiras ao redor do mundo — estimativas citadas pela IWC apontam um potencial de mais de US$ 2,5 bilhões (R$ 12,9 bilhões) em receita anual e cerca de 19 mil postos de trabalho globalmente — e de estimular a conscientização sobre a conservação dos cetáceos, observá-los em seu habitat natural requer uma série de cuidados. Estudos compilados pela organização mostram que embarcações podem provocar alterações comportamentais em diferentes espécies, especialmente quando se aproximam demais dos animais ou quando várias embarcações se concentram ao redor de um mesmo grupo. Entre as respostas mais comuns estão mudanças de direção, aumento da velocidade de deslocamento, mergulhos mais longos e frequentes e interrupção de atividades como descanso, alimentação e socialização. Embora essas alterações nem sempre resultem em danos imediatos, elas podem obrigar os animais a gastar energia adicional em um período já marcado por uma grande demanda energética devido aos grandes deslocamentos percorridos, destaca o biólogo Rodrigo Tardin, coordenador do Laboratório de Ecologia e Conservação Marinha (ECoMAR) da UFRJ. — Nesse momento, é crucial que ele não gaste energia extra, ou gaste o mínimo possível. É um momento biológico crucial para a vida dele — afirma Tardin ao GLOBO. O impacto pode ser ainda mais significativo para fêmeas grávidas que migram para áreas de reprodução, lembra o especialista: — Para uma fêmea que está retornando para ter seu filhote, ela não pode se dar ao luxo de eventualmente trocar de rota ou ajustar seu comportamento para evitar uma rede ou outro obstáculo. Esse é um momento em que conservar energia é fundamental. Rotas migratórias das baleias — Foto: Editoria de Arte / O Globo Impactos cumulativos Além disso, outro ponto de preocupação são os ruídos subaquáticos causados pela aproximação de barcos em regiões de grande circulação desses animais, altamente dependentes da comunicação acústica para manter contato entre eles, localizar alimento e navegar. Segundo estudos citados pela IWC, os motores das embarcações podem mascarar esses sinais ou obrigar os animais a vocalizar com mais frequência e intensidade, e uma exposição prolongada pode até mesmo provocar alterações temporárias ou permanentes na audição. Pesquisas citadas pelo órgão também mostraram o aumento de hormônios ligados ao estresse, como cortisol e aldosterona, em situações de forte perturbação humana, e que podem estar associados a doenças e menores taxas de sobrevivência em algumas espécies. Esses riscos se somam a outras ameaças presentes nas rotas migratórias, destaca Tardin. Isso porque as áreas frequentadas por baleias e outros cetáceos, como os golfinhos, também concentram alto tráfego marítimo e atividades pesqueiras, aumentando o risco de colisões. Segundo o Projeto Internacional de Mamíferos Marinhos (IMMP), cerca de 20 mil baleias morrem todos os anos após serem atingidas por embarcações. — Um dos maiores desafios na conservação de mamíferos marinhos são os impactos cumulativos. É a pesca, o turismo, as grandes navegações, a poluição sonora, a poluição química, tudo isso está acontecendo ao mesmo tempo — explica Tardim. — Não adianta a gente regular a pesca e deixar as atividades de navegação fluírem sem nenhum tipo de regulação. Não adianta regular a navegação e deixar o turismo de observação por barcos menores fluir sem regulação. Diante dos desafios, diversos países adotaram regulamentações específicas para a observação de baleias, com base nos princípios determinados pela própria IWC. As regras costumam incluir distâncias mínimas de aproximação, limites de velocidade para embarcações, restrições ao número de barcos permitidos em uma mesma área e protocolos voltados à proteção de mães e filhotes. No Brasil, explica Palazzo, a avistagem turística de baleias é regulada pela Portaria do Ibama 117/96, que determina que as embarcações devem respeitar o limite de aproximação ativa das baleias de 100 metros (a partir daí, a baleia pode se aproximar do barco se quiser), não persegui-las e nem dividir seus grupos. — O turista interessado deve procurar empresas operadoras da atividade que conheçam e respeitem essas normas, como as que são parceiras do Instituto Baleia Jubarte e/ou detentoras de selos de qualidade oficiais — completa Palazzo. Espécies mais comuns A espécie mais famosa nesses avistamentos é, sem dúvidas, a baleia-jubarte, dada à sua ampla distribuição nos oceanos do globo. Com uma população estimada em cerca de 84 mil indivíduos em todo o mundo, a espécie, que pode atingir de 13 a 16 metros de comprimento, realiza grandes migrações sazonais entre áreas de alimentação localizadas em regiões polares e áreas reprodutivas nos trópicos, podendo viajar mais de 8 mil quilômetros nessa trajetória, segundo a IWC. No Atlântico Sul, parte dessa população se desloca entre a Antártida e a costa brasileira, e em outras regiões do mundo, as rotas incluem destinos como Havaí, Caribe e Oceania. Outra que está entre as mais avistadas é a baleia-cinzenta, espécie que foi provavelmente a primeira no turismo de observação de baleias, ainda na década de 1950, de acordo com a IWC. Com uma população estimada em cerca de 27 mil indivíduos em todo o mundo, ela realiza uma das migrações mais conhecidas do planeta, viajando entre os mares de Bering e Chukchi, no Ártico, às lagoas da Baixa Califórnia, no México. Também é frequentemente associada ao turismo de observação a baleia-franca-austral, que pode atingir até 18 metros de comprimento. Com uma população estimada em cerca de 13,6 mil indivíduos, ela migra entre o Oceano Austral e áreas costeiras da América do Sul, África do Sul, Austrália e Nova Zelândia, buscando enseadas e baías protegidas para reprodução, o que favorece os avistamentos próximos à costa. Como escolher um passeio responsável Para reduzir os impactos sobre os animais, a IWC recomenda que os turistas busquem empresas comprometidas com boas práticas de conservação e educação ambiental;Antes de reservar um passeio, vale perguntar se o operador segue regulamentações locais ou nacionais para observação de cetáceos, como controla a aproximação das embarcações e quais medidas adota para evitar perturbações aos animais;A IWC também recomenda a presença de um guia a bordo, capaz de explicar o comportamento das espécies observadas e contextualizar a importância de sua conservação;Além disso, é importante saber se as empresas colaboram com pesquisas científicas por meio da coleta de dados, registros fotográficos ou apoio a projetos de monitoramento, contribuindo para ampliar o conhecimento sobre os animais.