Comprar uma casa em Lisboa, ou sequer na sua periferia, tornou-se quase tão difícil como ser astronauta.Dizer que as casas estão caras é pouco, o mercado imobiliário tornou-se obsceno, de uma falta de noção à prova de todas as máquinas. Podemos dizer, sem exagero, que os preços das casas em Lisboa são pornográficos quando comparados com os salários médios — digo médios e não mínimos — de qualquer trabalhador português.Eu trabalho. Eu recebo um salário. E sabem onde vivo? Numa tenda. É verdade. Numa barraquinha de poliéster nos arrabaldes de Lisboa. Vivo como um animal rente ao chão. Ainda tenho um telemóvel dos bons e consigo acompanhar o mundo a partir do interior da minha barraca, através daquele rectângulo luminoso que substituiu as janelas.Há dias deparei-me com um anúncio a um filme de Jacques Demy. Quando vivia no centro de Lisboa costumava ir ao Cinema Nimas e sei perfeitamente quem é o realizador francês. O título ficou-me na cabeça sem que eu o tivesse convidado a entrar: O Acontecimento Mais Importante Desde que o Homem Chegou à Lua. Eu preferia conhecer o acontecimento mais importante desde que o mercado imobiliário enlouqueceu.Desde que trabalhar deixou de ser suficiente para habitar uma casa. Desde que uma pessoa passou a precisar de sorte, heranças, milagres ou pais ricos para conseguir uma chave. Não vi o filme de Demy, nem tenho especial interesse em vê-lo. Os homens têm-se em demasiada conta. Sempre tão cheios de si, tão empenhados em marcar o mundo com acções que julgam grandiosas e que, vistas de fora, pouco significam.Para os outros animais, que importância teve a chegada do homem à Lua? Nenhuma. É-lhes indiferente. A mim também. Se ao menos existisse um filme sério sobre os macacos que morreram para que o homem chegasse à Lua. Que eu saiba, só há comédias e homenagens sem grande dignidade. E foram pelo menos dois os macacos sacrificados em nome dessa aventura humana. O Albert I, em 1948, que não sobreviveu ao lançamento. O Albert II, que resistiu ao voo, mas morreu devido a uma falha no paraquedas. Que sorte macaca, já viram?A comparação pode parecer estúpida, mas às vezes, aqui dentro da minha tenda, a tentar sobreviver, sinto-me parte de uma experiência humana da qual não faço verdadeiramente parte. Como se estivesse a ser sacrificada em nome de uma coisa que não aprovo nem compreendo. Vivo na escassez para que outros vivam na abundância.
O acontecimento mais importante desde que o mercado imobiliário enlouqueceu
A comparação pode parecer estúpida, mas às vezes, aqui dentro da minha tenda, a tentar sobreviver, sinto-me parte de uma experiência humana da qual não faço verdadeiramente parte.
O mercado imobiliário de Lisboa tornou-se inacessível a trabalhadores médios, impossibilitando acesso à habitação. Para managers tech, isto sinaliza uma crise de retenção: o gap salário/habitação força migração IT para mercados remotos, impactando recruitment.










