China lança missão Shenzhou-23 com astronauta que ficará um ano no espaçoO lançamento faz parte dos planos de Pequim de enviar pessoas à Lua até 2030. Crédito: AFPGerando resumoCom a promessa de chegar a Marte a bordo de foguetes reutilizáveis, a SpaceX está levantando US$ 75 bilhões na maior oferta inicial de ações (IPO, em inglês) da história, que eleva o valor de mercado da empresa para mais de US$ 1,7 trilhão. Essa cifra supera o Produto Interno Bruto (PIB) — a soma de todos os bens e serviços em um ano — da Turquia, estimado em US$ 1,64 trilhão. PUBLICIDADEA transação posiciona a companhia como uma das 10 mais valiosas do mundo e fortalece sua influência em políticas industriais, regulações, padrões tecnológicos e questões geopolíticas. A SpaceX pretende catapultar seu poderio financeiro para desenvolver satélites com inteligência artificial. Ao mesmo tempo, o movimento deve impulsionar o capital político de uma companhia já conhecida pela capacidade de influenciar governos.“Empresas como a SpaceX e a Tesla, ambas de Elon Musk, movimentam uma quantidade de dinheiro tão grande que podem condicionar o mercado e eleger presidentes”, analisa André Sacconato, professor da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe). PublicidadeO maior cliente da SpaceX é o governo dos Estados Unidos Foto: Eric Gay/APDe fato, nos últimos anos, o empresário mais rico do mundo ocupou cargos públicos no governo norte-americano, participou de discussões sobre cortes de gastos e teve acesso direto ao núcleo decisório da Casa Branca. Enquanto isso, a SpaceX reduziu drasticamente o custo de acesso ao espaço e se consolidou como uma “arma” dos Estados Unidos na corrida espacial contra a China. Em geral, porém, o poder político das megacorporações é exercido de forma bem menos escandalosa, geralmente por instrumentos econômicos e conversas nos bastidores. Como as corporações bilionárias buscam influênciaDe acordo com reportagem do The New York Times publicada em março, os bilionários foram responsáveis ​​por 19% de todas as contribuições declaradas para campanhas federais em 2024. Foram quase US$ 3 bilhões despejados nas eleições por doação direta aos candidatos ou por comitês de ação política.“As corporações exercem influência direta ao financiar campanhas políticas, projetos governamentais e até a vida pessoal de parlamentares, oferecendo viagens e patrocínios”, enumera Sacconato. “Executivos de alto escalão frequentemente transitam pelos corredores do governo, mantendo proximidade com presidentes e ministros para pautar seus interesses.”PublicidadeNo Brasil, um símbolo reconhecido desse cenário são as relações de Daniel Vorcaro, do Banco Master, com autoridades da política nacional. “Havia uma promiscuidade muito grande entre o poder econômico e o poder político”, critica Ana Frazão, professora de direito comercial e econômico da Universidade de Brasília (UnB). “Os agentes econômicos compram essa proximidade, e isso, por si só, já desbalanceia a democracia. Afinal, o cidadão comum não tem esse mesmo acesso”, complementa. Frazão entende que essa influência se reflete em captura regulatória e legislativa, além da criação de normas mais benevolentes ao interesse dessas instituições.A professora afirma que o cenário não é inédito. O que vem mudando é o alto índice de concentração econômica na mão de poucos agentes econômicos. “Entre os entes econômicos mais importantes do mundo, a maioria são macroempresas com um faturamento anual maior do que o PIB de muitos países. O poder político é quase uma consequência disso”, complementa. Megacontratos não são exclusividade de MuskAtualmente, o maior cliente da SpaceX é o governo dos Estados Unidos. Ao longo da última década, a SpaceX e a Tesla receberam pelo menos US$ 18 bilhões em contratos federais, segundo uma reportagem da ABC News. PublicidadePUBLICIDADESó a SpaceX conquistou mais de US$ 17 bilhões em contratos desde 2015. A empresa é a maior contratada da Nasa para o serviço de transporte espacial de cargas e astronautas. Porém, esses megacontratos não são exclusividade das companhias lideradas por Musk. A Nvidia, fabricante de unidades de processamento gráfico para IA, tem parceria com governos do Reino Unido e da Coreia do Sul para a expansão da infraestrutura de centros de dados. A companhia também é peça central na disputa geopolítica entre Estados Unidos e China. Isso porque recentemente Washington impôs restrições à exportação de chips avançados para o país asiático.Elon Musk quer transformar a SpaceX em uma importante fornecedora de infraestrutura de inteligência artificial Foto: Alain Jocard/AFP“O governo americano depende dessas empresas para manter a hegemonia em setores críticos. Sem essas corporações, o Estado não conseguiria sustentar sua posição de superioridade global”, explica Sacconato. “Essa dependência cria um impasse. A capacidade de agir contra essas companhias ou de implementar regulações rigorosas fica limitada”.Ele compara o cenário norte-americano com o chinês, berço de marcas como Alibaba e Tencent. “A China define um projeto nacional de longo prazo, e as empresas precisam se encaixar nisso, mesmo que não resulte no lucro máximo imediato. Algo que só é possível numa ditadura”, contextualiza. Nos EUA, são as empresas que puxam o País, mas visando atender aos seus próprios interesses”, diz. PublicidadePara Frazão, esse poder se intensifica com o controle das narrativas. “São empresas trilionárias que financiam pesquisas e universidades, possuem controle midiático e difundem a ideia de que regular a tecnologia prejudica a inovação, inibindo legisladores e juízes”, afirma a professora de direito econômico. “E muitas dessas inovações surgem de pesquisas financiadas pelo Estado.”Big techs dominam o ranking de mais valiosas O lobby e as interferências empresariais no governo não são práticas recentes. Desde a democracia ateniense, comerciantes e proprietários de terra tentam influenciar decisões políticas. No entanto, a leitura de analistas é de que o cenário atual é diferente. Não só por se tratar de empresas trilionárias, mas pelo segmento em que elas atuam.Das dez empresas mais valiosas do mundo, apenas a Saudi Aramco, companhia de petróleo e gás natural da Arábia Saudita, não é uma corporação de tecnologia ou infraestrutura digital. A Nvidia projeta os chips, a TSMC fabrica os chips, a Microsoft opera infraestrutura de IA, a Amazon fornece nuvem, a Alphabet e a Meta desenvolvem modelos de IA, a Broadcom fornece componentes para data centers.Publicidade“A influência das grandes corporações hoje é mais complexa do que há 20 ou 30 anos porque elas deixaram de atuar apenas em setores econômicos tradicionais e passaram a controlar infraestruturas essenciais da vida social: plataformas digitais, inteligência artificial, satélites, sistemas de pagamento, nuvem, dados e comunicação”, explica Renato Eliseu Costa, professor do departamento de economia, administração e sociologia da ESALQ/USP.Se antes grandes empresas, como montadoras de automóveis, influenciava o Estado sobretudo por emprego, arrecadação e investimento, hoje controlam os meios pelos quais governos, cidadãos e mercados se conectam. “Em alguns setores, o Estado deixa de regular a empresa de cima para baixo e passa a negociar com ela em uma posição muito mais simétrica”, comenta.Analistas observam que, por atuar em setores estratégicos, os governos são ainda mais dependentes das maiores empresas do mundo Foto: Cheng Yu-chen/AFPCosta afirma que a assimetria formal continua favorecendo o Estado, que possui autoridade legal, poder tributário, poder regulatório e monopólio da coerção. “Porém, quando uma empresa domina uma tecnologia crítica, detém capacidade de execução que o Estado não tem. O regulador passa a depender de quem regula”.Freios e contrapesosEm abril de 2025, a Comissão Europeia aplicou as primeiras punições relevantes da nova Lei dos Mercados Digitais (DMA), multando Meta e Apple. No Brasil, a atuação mais significativa até agora se faz por meio do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), que investiga a concentração de poder de mercado de grandes multinacionais. Publicidade“O cenário parece apocalíptico, mas ainda é possível assumir o controle. Temos a lei antitruste, que previne o abuso de poder econômico; o direito do consumidor e o Código Civil, que protege os direitos de personalidade. Precisamos de um pacote regulatório que inclua um marco de inteligência artificial”, comenta Frazão. Leia tambémPlano de negócios da SpaceX lembra um filme de ficção científica; já o prejuízo é bem realMusk vai levantar US$ 75 bi no maior IPO da história e redefinir o poder no capitalismo modernoIPO da SpaceX: Entrada de empresa de Musk na Bolsa pode tornar 4,4 mil trabalhadores milionáriosRenato Costa, por sua vez, destaca que empresas desse porte no ecossistema nacional trazem ganhos importantes, como inovação acelerada, soberania tecnológica, empregos qualificados, capacidade industrial, projeção internacional e vantagem estratégica em setores sensíveis. “Democracias precisam de empresas inovadoras”, afirma.“O problema é que esses benefícios vêm acompanhados de desafios relevantes: concentração de poder, dependência pública, captura regulatória, fragilização da concorrência, opacidade contratual e dificuldade de submeter decisões privadas a critérios de interesse público”, diz. “A pergunta não é se o Estado deve ou não se relacionar com grandes corporações, mas como fazer isso sem abrir mão da capacidade de preservar o interesse público.”