NASA é obrigada a pedir ajuda a SpaceX para trazer astronautas à TerraGerando resumoInvestidores do mundo inteiro acompanharam, atentos, a maior abertura de capital da história dos mercados financeiros. A SpaceX, fabricante de foguetes reutilizáveis, fornecedora de internet via satélite e desenvolvedora de inteligência artificial do bilionário Elon Musk, precificou na quinta-feira, 11, sua oferta pública inicial de ações (IPO). Captou o montante recorde de US$ 75 bilhões e agora é avaliada em US$ 1,7 trilhão, valor superior ao Produto Interno Bruto (PIB) de países como Suíça e Arábia Saudita. A estreia dos papéis na Bolsa dos Estados Unidos ocorre nesta sexta-feira, 12.PUBLICIDADEOs números assombrosos escondem uma mudança ainda maior. A listagem da SpaceX valida, de vez, a chamada “economia espacial” — todo o ecossistema de empresas que provê estrutura para a exploração do espaço sideral — e fornece parâmetros de preço para um setor que, embora estratégico para governos, ainda era encarado pela população como ficção científica.“Até aqui, o espaço era um setor sem referência pública de preço e quase sem porta de saída para o investidor: quem colocava dinheiro numa startup espacial não sabia quando nem como sairia. O IPO cria o benchmark (ponto de referência), atrai fluxo de fundos passivos com a futura entrada em índices e dá ao investidor comum acesso a um setor antes restrito”, afirma Tiago Zanolla, investidor em startups e fundador do grupo UFEM Educacional.Antes, a gigante se financiava por meio de rodadas de financiamento entre fundos de investimento que compram participação em empresas de capital fechado (private equity). Esse mercado é normalmente restrito a grandes investidores e já não consegue suprir as necessidades da SpaceX. O lançamento da companhia à Bolsa decorre da busca por novas fontes de captação, essenciais para a manutenção do plano de investimentos da empresa em exploração espacial e no desenvolvimento de inteligência artificial.PublicidadeA continuidade desse plano é interessante não só para a própria SpaceX, mas para o governo dos Estados Unidos. A fabricante de foguetes subverteu a lógica do setor espacial, historicamente dominado por programas de agências governamentais, como a americana Nasa.Criada há 24 anos por Musk, a SpaceX assinou o primeiro contrato com a Nasa em meados de 2006. Na época, a empresa recebeu financiamento para desenvolver aeronaves capazes de transportar cargas e tripulação à Estação Espacial Internacional (ISS). Hoje, a agência espacial depende da infraestrutura fornecida pela SpaceX para levar astronautas ao espaço. Em 2025, a companhia foi responsável por 80% dos lançamentos realizados pelos Estados Unidos. Neste ano, o porcentual é de 73%. Nas últimas quatro décadas, mais da metade dos lançamentos orbitais americanos foi feita pela companhia, de acordo com dados da Administração Federal de Aviação dos EUA (FAA). O projeto Artemis da Nasa, de retorno à Lua, por exemplo, tem a SpaceX como principal contratada.“No espaço, o Estado americano deixou de ser operador e virou cliente”, aponta Zanolla.PublicidadeSpaceX ganhou protagonismo no lançamento de foguetes e colabora com projetos da Nasa Foto: John Raoux/APO governo dos EUA não é o único Estado que observa de perto o crescimento da SpaceX. De acordo com Marcelo Cabral, estrategista-chefe e sócio-fundador da Stratton Capital, ex-CEO do Bradesco Europa e Bradesco Securities em Nova York, a companhia é vista como sensível para a indústria de defesa em função do possível lançamento de satélites espiões e operação de sistemas de localização para agências de inteligência americanas.“A companhia baixou muito o custo dos lançamentos de satélites em órbita, pela eficiência e pela possibilidade de os foguetes voltarem. Ou seja, poder usar mais de uma vez o mesmo foguete. Então, o número de satélites de comunicação em órbita aumentou muito”, afirma Cabral. Leia tambémIPO da SpaceX: Entrada de empresa de Musk na Bolsa pode tornar 4,4 mil trabalhadores milionáriosPor que as fortunas dos bilionários estão crescendo mais rápido do que nunca?SpaceX define preço de IPO e deve inaugurar era de trilhões em Wall StreetO sistema de internet via satélite da SpaceX, a Starlink, também já demonstrou o impacto em guerras. De acordo com a agência de notícias Reuters, Musk teria “mandado” desligar o sinal de internet via satélite em uma região da Ucrânia durante uma operação contra a Rússia, frustrando a ofensiva militar.A SpaceX lidera, ainda, a criação da Golden Dome, um escudo antimísseis formado por uma rede de satélites encarregados de proteger o território americano. Nações como China, Rússia e Índia acompanham o desenvolvimento desse tipo de solução. “Isso acaba criando demanda por empresas que têm atuação nessa área”, afirma Cabral. “Tem uma tendência que já vem ocorrendo há décadas e que tem se aprofundado cada vez mais, de trazer fornecedores privados (para setores estratégicos). Ou seja, permitir que o setor privado faça os investimentos, evitando que o governo precise utilizar recursos fiscais para investir nesses setores (como o espacial).”PublicidadePor outro lado, tanto poder concentrado em uma empresa privada, que tem “dono”, levanta preocupações. Mesmo após o IPO, a expectativa é de que Musk continue no controle da SpaceX.“Empresa privada operando um setor sensível não é novidade. A novidade é o grau de concentração. Estamos falando de um único fornecedor, controlado por uma única pessoa (Musk), operando infraestrutura crítica”, diz Zanolla. Uma empresa na cadeia inteira de IAA concentração em Musk pode ser um risco, mas é, ao mesmo tempo, um dos principais ativos da empresa. Ricardo Simon, diretor do family office Eclipseon e investidor da SpaceX desde 2024, aponta que a demanda pelas ações no varejo pode ter como chamariz a identificação das pessoas físicas com o magnata sul-africano e o entendimento de que foi Musk que guiou o crescimento da companhia até aqui.“Eu acredito que estamos passando por uma revolução tecnológica como poucas vezes vista. Se a SpaceX é uma das empresas que irão liderar esse movimento e essa revolução tecnológica, eu acho que faz sentido ter uma exposição”, diz Simon. PublicidadePara ele, a SpaceX está muito bem posicionada para um futuro em que as economias estarão muito concentradas em tecnologia e inteligência artificial, mesmo quando comparada a outras duas gigantes que devem chegar em breve à Bolsa, OpenAI e Anthropic. Fora a internet via satélite Starlink e o braço de exploração espacial, a SpaceX também é uma empresa que desenvolve inteligência artificial e conseguiu centralizar boa parte do processo de desenvolvimento. “Diferentemente das demais empresas que estão nesse meio da inteligência artificial, a SpaceX é a única que atua na cadeia inteira”, diz Simon. “Ela fabrica os próprios chips, constrói e opera os próprios data centers, tem também o próprio modelo de linguagem. Então, é uma empresa que consegue capturar valor da cadeia inteira de IA.”Fabio Guerra, diretor de novos negócios e estruturação da Hurst Capital, vislumbra outros caminhos para a SpaceX, unindo inteligência artificial e exploração espacial, com a montagem de data centers — instalações gigantes com supercomputadores para rodar e treinar inteligências artificiais no espaço.Publicidade“Nós temos uma discussão muito grande atualmente sobre o consumo de energia dos data centers. Quando a gente pensa em um possível data center na Lua, como é o plano de Musk, temos diferenciações de radiação térmica, de capacidade de geração de energia, que podem aumentar a eficiência”, diz Guerra. A Hurst Capital chegou a criar parcerias com fundos estrangeiros para fornecer acesso a investimentos na SpaceX, pré-IPO, para investidores brasileiros. No total, R$ 2,75 milhões foram investidos na empresa. O dinheiro veio de 65 investidores, com ticket médio de cerca de R$ 40 mil.“Acho que talvez, desde a Revolução Industrial, hoje seja a maior disrupção que a gente viveu”, afirma Guerra.Grande influência, pouco lucro Os números da SpaceX assustam e podem ser só o começo de uma sequência de IPOs gigantescos, com as esperadas listagens das companhias de inteligência artificial OpenAI e da Anthropic. PublicidadePrecificar uma empresa em patamares estratosféricos significa que o mercado financeiro, investidores institucionais e fundos de investimento acreditam em um retorno igualmente estratosférico no longo prazo. É necessário que seja assim, para valer os recursos investidos.É uma aposta arriscada no futuro, pois o presente ainda é bem diferente. Por enquanto, a SpaceX não dá lucro. A principal fonte de receitas é a Starlink, enquanto os segmentos de exploração espacial e IA só consomem capital. De acordo com documentos enviados à SEC, o xerife do mercado financeiro dos EUA, a empresa teve prejuízo líquido de US$ 4,9 bilhões em 2025.Enquanto o segmento de internet via satélite lucrou US$ 4,4 bilhões no período, a exploração espacial registrou prejuízo de US$ 657 milhões e a área de inteligência artificial, de US$ 6,3 bilhões. “Essas empresas concentram uma capacidade de mobilizar capital e inovação sem precedentes, puxam produtividade e reforçam a liderança tecnológica dos Estados Unidos. Em contrapartida, ampliam a concentração de poder econômico e criam uma dependência arriscada de uma aposta em IA que ainda queima muito caixa”, afirma Pedro Teberga, professor da Faculdade Einstein e especialista em negócios digitais. “O teste dos próximos anos é transformar essa euforia de valuation em lucro recorrente.”PublicidadeEntre os mais céticos, parece algo arriscado demais. Luciano Nakabashi, do departamento de Economia da Universidade de São Paulo (USP), chama a atenção para o impacto da concentração de liquidez em um conglomerado pequeno de empresas gigantes — e de que forma essa liquidez poderá se refletir em uma melhora no dia a dia das pessoas comuns.“Os governos têm de se preocupar em qualificar as pessoas para que elas não fiquem para trás nessa nova revolução industrial”, diz.