Os três jogos da seleção brasileira na primeira fase da Copa do Mundo foram marcados para às 19h e 21h30 - exatamente as duas janelas de maior demanda histórica do setor de alimentação fora do lar. A coincidência entre os horários das partidas e o pico histórico do serviço de delivery tende a elevar a pressão sobre a operação das plataformas, já que parte dos entregadores pode optar por não permanecer conectados durante os jogos. Mais da metade dos consumidores brasileiros (57%), segundo pesquisa do PayPal com a Morning Consult realizada em junho de 2026 com 1.042 adultos, planeja recorrer a serviços de entrega de produtos a domicílio durante os jogos. E 67% dos entrevistados afirmam que pretendem gastar com comida e petiscos durante o torneio, com pizza liderando as intenções de consumo, mencionada por 49%. A pressão não é nova, mas a edição de 2026 aumenta sua escala. Pela primeira vez, o torneio terá 48 seleções e 104 partidas distribuídas ao longo de seis semanas, ante 32 seleções e 64 jogos nas edições anteriores, ampliando o número de ocasiões em que a operação pode enfrentar aumento de demanda. A tarifa dinâmica, mecanismo pelo qual as plataformas elevam automaticamente a remuneração dos entregadores em momentos de escassez de oferta, é a principal ferramenta para reequilibrar o sistema. Mas tem limites. “A tarifa dinâmica apenas atenua o problema”, afirma Nathalia Zambuzi, professora e especialista em engenharia e modelagem de redes de transporte do Centro Universitário FEI. “Ela pode incentivar entregadores que estavam fora da operação a entrar no sistema, mas não vai criar novos entregadores que não estão cadastrados.” O nó central, segundo Zambuzi, é que a tarifa competirá com a atratividade do jogo. “Qual valor de tarifa vai convencer o entregador a deixar de ver o jogo para trabalhar?”, questiona a pesquisadora. Dados históricos reforçam a assimetria. Durante a Copa de 2022, na estreia do Brasil contra a Sérvia, os pedidos cresceram 50% e o faturamento de bares e restaurantes avançou 40% na média nacional, segundo a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel). Em São Paulo, o crescimento foi mais expressivo com alta de 103% nos pedidos e 58% na receita. Além da tarifa dinâmica, as plataformas recorrem a modelos preditivos para antecipar oscilações na demanda. Segundo Zambuzi, o processo ocorre em duas etapas. Primeiro, algoritmos baseados em séries temporais e aprendizado de máquina estimam quantos pedidos devem ser feitos em determinado momento. Qual valor de tarifa vai convencer o entregador a deixar de ver o jogo para trabalhar?” Em seguida, essas projeções são usadas para organizar a operação logística, definindo a distribuição dos entregadores e as rotas em tempo real. O limite está na precisão dessas previsões. “A IA não sabe o que o entregador vai fazer; ela estima a probabilidade de determinados comportamentos e ajusta a operação conforme esses comportamentos se confirmam ou não”, afirma a pesquisadora. Numa situação de queda brusca de oferta, o sistema tende a operar de forma defensiva. “A plataforma vai priorizar, vai racionar, vai deixar parte da demanda sem atendimento ou vai alongar prazos. Isso é o que o sistema faz quando a oferta não consegue acompanhar a demanda”, diz Zambuzi. Nesse cenário, a plataforma pode recorrer a tarifas mais altas, prazos maiores ou menor exposição de restaurantes para conter a demanda dentro da capacidade efetiva disponível. No dia de abertura da Copa de 2022, os downloads globais de aplicativos de delivery cresceram 15% e o número de vezes que o consumidor acessou o aplicativo avançou 10%, segundo levantamento da empresa de analytics Adjust. O tempo médio de uso do serviço, desde quando o usuário abre o aplicativo até quando o fecha, passou de 15 minutos para cerca de 17 durante o torneio. O iFood informou que usa inteligência artificial para monitorar a demanda em tempo real e ajustar a logística por região. Para o período da Copa, a empresa prevê uma programação especial para entregadores, incluindo ativações em mais de 41 pontos de apoio no Brasil - espaços onde os profissionais poderão acompanhar os jogos - e ferramentas de previsibilidade de ganhos. “Os entregadores mantêm total autonomia para decidir quando, onde e por quanto tempo desejam se conectar à plataforma”, informou a companhia. Para bares e restaurantes, o aumento da demanda vem acompanhado de pressão operacional. Um levantamento da Abrasel mostra que 52% dos estabelecimentos pretendem transmitir os jogos e 57% adotarão estratégias específicas para o período, com destaque para decoração temática (72%), cardápios exclusivos (53%) e investimento em equipamentos de exibição (49%). Oito em cada dez esperam aumento de faturamento nos dias de jogo. Em 2022, na primeira semana da Copa, a Abrasel registrou crescimento de cerca de 30% no faturamento do setor. Diferentemente de 2022, quando os jogos ocorreram em tardes de dias úteis, as partidas deste ano serão disputadas em sextas e sábados à noite. Um levantamento da empresa de tecnologia Mindminers mostra que 24% dos consumidores afirmam aumentar a frequência em bares e restaurantes durante a Copa. Para preparar a operação, a Abrasel lançou uma cartilha com orientações sobre reforço de equipe, pré-produção, digitalização do atendimento e contratação intermitente para reforços pontuais. O que os dados da última Copa e as projeções para 2026 indicam é que a capacidade do sistema logístico de absorver o provável aumento da demanda - e o impacto sobre prazos e disponibilidade - dependerá também da decisão individual dos entregadores de permanecer ou não conectados durante os jogos.
Aplicativos de delivery ajustam operação para a Copa
Jogos do Brasil à noite, na primeira fase do campeonato, coincidem com horário de pico para plataformas de entrega de produtos











