Setor é responsável por cerca de 75% da produção nacional do poluente 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Painelistas do Fórum Freio de Mudanças Climáticas, da Rio Nature & Climate Week — Foto: Divulgação RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 11/06/2026 - 21:50 Agropecuária e o desafio das emissões de metano no Brasil A agropecuária brasileira é responsável por 75% das emissões de metano no país, destacando-se no debate global sobre redução de poluentes. Durante o Fórum Freio de Emergência Climática, especialistas discutiram como aumentar a produção reduzindo emissões. O Brasil é o quinto maior emissor de metano, com a pecuária bovina liderando. Desafios incluem o uso de tecnologias sustentáveis e rastreabilidade de gado. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Mesmo com bases científicas e perspectivas econômicas postas à mesa, a discussão sobre o controle e a redução das emissões de metano no setor agropecuário no Brasil e no mundo segue sem alcançar implementações e soluções práticas com consequências robustas, que impactem diretamente os dados internacionais. Durante o Fórum Freio de Emergência Climática, realizado na última quarta-feira, no Pier Mauá, em meio à Rio Nature & Climate Week, especialistas discutiram caminhos e perspectivas para “produzir mais e emitir menos”, tentando articular quais são os maiores desafios para alcançar objetivos de descarbonização no setor. Quinto maior emissor mundial de metano, atrás apenas de China, Estados Unidos, Índia e Rússia, o Brasil alcançou a marca de 21,1 milhões de toneladas do gás produzidas em 2023, um aumento de 6% em um período de quatro anos, de acordo com dados publicados pelo Observatório do Clima em agosto do ano passado. Segundo um levantamento do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG), três quartos das emissões do poluente — que é mais nocivo que o CO2 para o clima — são provenientes da agropecuária, especialmente da pecuária bovina. Este segmento de produção de carne bovina foi responsável sozinho por 14,5 milhões de toneladas. Na agropecuária o metano é produzido a partir do processo digestivo de animais ruminantes, como os bovinos, caprinos e ovinos. No rúmen, um dos compartimentos do estômago desses animais, vivem milhões de microorganismos capazes de quebrar as ligações químicas dos alimentos ingeridos. Com este processo, além do CO2, estes organismos também produzem o gás metano, cuja maior parte (95%) é emitido para a atmosfera por meio do arroto. Mediando o diálogo sobre o tema, o jornalista Marcelo Lins ressaltou a importância do debate sobre o protagonismo da agropecuária nas emissões de metano no mundo, especialmente no Brasil, e destacou que “sustentabilidade não é uma questão do campo progressista, não é uma questão ideológica, é uma questão de sobrevivência da humanidade”. Lins tocou ainda em pontos fundamentais da economia verde e dos investimentos sustentáveis que são a viabilidade e atratividade econômica que essas alternativas apresentam. — O caminho do laissez-produire (conceito que é pilar do liberalismo econômico que se traduz do francês como “deixai produzir”) já se mostrou inviável. Porque a gente sabe da exaustão dos campos, das práticas e técnicas que podem render um lucro a curto prazo, mas a médio e a longo prazo são inviáveis economicamente — pontuou o jornalista. — O excesso do uso de agrotóxicos em plantações das mais variadas, que aparentemente no primeiro momento podia parecer que ia baratear a produção, na verdade encarece. E isso tudo já está dado. Eduardo Fronza, gerente de projetos sênior e especialista em clima na Proforest, esclareceu que “grandes empresas compradoras de commodities definiram suas metas de descarbonização baseadas na ciência para a redução das emissões do chamado escopo 3, as emissões indiretas que estão concentradas na cadeia produtiva, na outra ponta”. Diante deste contexto, as empresas têm procurado fornecedores que colaborem para que elas atinjam esses objetivos e têm passado a olhar para isso como uma potencial oportunidade para o setor, “porque a prioridade para essas empresas agora não é comprar créditos de carbono, elas querem reduzir as emissões na sua cadeia”, acrescentou. Um dos maiores desafios para alcançar essas metas é fazer com que produtores se apropriem das tecnologias sustentáveis necessárias ao longo deste processo, afirmaram os painelistas. — Um trabalho que se realiza fortemente no Brasil e em vários outros lugares é esse contato direto com produtores para que eles sejam os que geram esse conhecimento com essas tecnologias disponíveis, as apropriam e as usem de acordo com seus próprios entornos — disse Juan Andrés Cardoso, ecologista do Centro Internacional de Agricultura Tropical, localizado em Cali. Uma forma eficaz de pôr isso em prática, explicou Cardoso, é usar a influência de “produtores campeões”, que servem como referência à sua comunidade e vizinhos em suas próprias regiões. — Dessa forma, faz-se uma aprendizagem entre pares, e não uma aprendizagem [vinda] da academia ou de parte muito técnica. Para Fronza, dois outros elementos centrais que dificultam esta dinâmica são a questão do financiamento para implementar estas práticas sustentáveis no Brasil e a rastreabilidade desses bovinos, tema-chave, segundo ele, para que essas propostas cheguem aos pequenos e médios produtores. — Um desafio que tem uma dimensão prática, especialmente quando a gente olha para a estrutura da cadeia pecuária no Brasil, é a questão dos fornecedores indiretos, o que é um grande desafio para a rastreabilidade — pontuou. — Às vezes, uma cabeça de gato vai passar por 3, 4, 5 fazendas até chegar a uma grande produtora. Por outro lado, esse caminho também é ressaltado como potencialidade, uma vez que a maior parcela da produção pecuária brasileira é escoada para o mercado interno. Na avaliação do especialista, as exigências e compromissos com relação à descarbonização das cadeias produtivas representam desafios mas também uma oportunidade para que esses pequenos e médios produtores alcancem um nível de produção mais qualificado e, portanto, mercados também mais exigentes e qualificados. — O mercado está, inclusive, disposto a pagar por esse resultado, porque é uma meta assumida, é um compromisso, e eles estão buscando esse desempenho.