Quarta edição do Agroenergia discute o avanço do SAF e do biobunker e reforça o potencial do país para liderar a produção de energia renovável destinada à aviação e ao transporte marítimo Evento promovido pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), com apoio da Embrapa Agroenergia, reuniu lideranças do setor — Foto: Wenderson Araujo/CNA A corrida global para reduzir as emissões de carbono na aviação e no transporte marítimo está criando um novo mercado para combustíveis sustentáveis e abrindo uma grande oportunidade para o agronegócio brasileiro. Com uma das maiores disponibilidades de biomassa do mundo, experiência na produção de biocombustíveis e capacidade para ampliar a oferta de matérias-primas, o Brasil desponta como um dos países mais preparados para atender à crescente demanda por Combustível Sustentável de Aviação (SAF) e biobunker, apontados como alternativas essenciais para a descarbonização desses setores. O protagonismo que o país pode assumir nessa nova cadeia produtiva pautou a 4° edição do Agroenergia – Transição Energética Sustentável, promovido pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), com apoio da Embrapa Agroenergia, que ocorreu em Brasília. O encontro reuniu representantes do setor produtivo, da indústria, da pesquisa e do poder público para discutir os desafios e as oportunidades de um mercado que tende a ganhar escala nos próximos anos. Ao contrário de outros segmentos da economia, que já contam com diferentes alternativas para reduzir suas emissões, a aviação e o transporte marítimo ainda dependem, em grande medida, de combustíveis líquidos de alta densidade energética. Nesse cenário, o SAF e o biobunker são as principais soluções para cumprir as metas internacionais de descarbonização sem comprometer a eficiência operacional. Para os participantes do seminário, o Brasil reúne vantagens competitivas para ocupar uma posição de destaque nesse mercado, graças à combinação de produção agrícola em larga escala, capacidade de inovação, infraestrutura para biocombustíveis e diferentes rotas tecnológicas de produção. Oportunidade de liderança Na avaliação do vice-presidente da CNA, Marcelo Bertoni, o agronegócio brasileiro é referência mundial na produção sustentável de alimentos e fibras, e tem ampliado, cada vez mais, sua contribuição ao fornecer energia renovável para um mercado em expansão. “Nós temos biomassa, matéria-prima, tecnologia, pesquisa e produtores rurais preparados para fazer parte dessa transformação”, afirmou. Bertoni ressaltou, no entanto, que transformar esse potencial em investimentos e geração de renda exigirá segurança jurídica, regras claras, certificação adequada e um ambiente favorável aos negócios. Para ele, o produtor rural deve ocupar um papel central nessa nova cadeia. “O agro brasileiro não quer apenas participar da transição energética, quer ser o protagonista. A nossa missão é transformar a sustentabilidade em competitividade e, principalmente, em renda para quem produz”, disse. O diretor de Negócios e Inovação da Embrapa, Alexandre Alonso, destacou que a expansão do SAF e do biobunker representa uma oportunidade para agregar valor à biomassa produzida no país, estimular investimentos e fortalecer uma nova agenda de desenvolvimento sustentável. “O agro brasileiro já é parte essencial da segurança alimentar e energética do país e, agora, pode ser também protagonista da descarbonização da aviação e do transporte marítimo, agregando valor à produção nacional e fortalecendo uma nova agenda de desenvolvimento sustentável no país”, explicou. A perspectiva de crescimento desse mercado também foi reforçada pelo diretor-superintendente da União Brasileira do Biodiesel e Bioquerosene (Ubrabio), Donizete Tokarski. “Cada litro de biocombustível que nós produzimos agrega valor significativo em toda a cadeia produtiva”. Vantagem estratégica do agro brasileiro Com um olhar mais técnico, o vice-presidente de Trading da Inpasa, Gustavo Mariano, explica como a agricultura será a base da transformação energética dos diferentes modais de transporte: “Grãos, óleo, etanol e biodiesel ganham novas aplicações na produção de SAF e biobunker, e a ampliação do uso de combustíveis renováveis fortalece ainda mais o papel estratégico do agro brasileiro”. Mariano destacou que a Lei do Combustível do Futuro representa um marco para o setor ao criar uma demanda regulatória para o SAF no país. Ele explica a tendência de evolução da mistura obrigatória e seus desafios. “Começaremos com 1% de mistura de SAF nos combustíveis de aviação e chegaremos a 10% até 2037. O Brasil tem uma vantagem competitiva única porque reúne praticamente todas as rotas de produção de SAF. O desafio central agora é escalar a produção e reduzir os custos para garantir competitividade”, explicou. Discussões e protagonismo Apesar das perspectivas positivas, Gustavo Mariano alertou que o Brasil precisa participar ativamente das discussões internacionais sobre critérios de sustentabilidade para evitar barreiras que comprometam sua competitividade. “Não podemos permitir que regulamentações internacionais excluam o Brasil com critérios que não são técnicos nem racionais. Nosso trabalho é demonstrar que o país é capaz de promover uma descarbonização efetiva”, analisou. O head de Biorrefino da Refinaria Riograndense, Flávio Mingorance, concorda que o Brasil tem vocação para atender à crescente demanda mundial por combustíveis renováveis, mas segundo ele, Estados Unidos e Europa deverão liderar esse mercado até o fim da década, enquanto Ásia e Austrália devem ganhar protagonismo nos anos seguintes. Impacto na cadeia produtiva Para o chefe-geral da Embrapa Agroenergia, Bruno Laviola, esses combustíveis devem ser vistos como instrumentos capazes de impulsionar uma nova etapa de desenvolvimento para o agronegócio brasileiro. A gerente de Biocombustíveis da Caramuru Alimentos, Janaína Lemes, defendeu uma atuação coordenada entre governo, entidades e cadeia produtiva para consolidar o etanol como plataforma global para produção de SAF. Já a professora da Universidade de São Paulo (USP), Glaucia Souza, ressaltou que os biocombustíveis continuarão desempenhando papel central na descarbonização dos transportes, especialmente nos países emergentes. O presidente da Airbus Brasil, Gilberto Peralta, afirmou que a aviação já está preparada para utilizar o SAF e que o principal desafio deixou de ser tecnológico para se tornar econômico. “O que falta agora é destravar os investimentos e acelerar a produção.” Evento também debateu políticas públicas e regulação de combustíveis sustentáveis na aviação e no transporte marítimo — Foto: Wenderson Araujo/CNA Regulamentação Os desafios regulatórios também ganharam espaço nas discussões. Representantes do governo, do Congresso Nacional e da iniciativa privada discutiram o ambiente jurídico, regras e políticas públicas capazes de estimular investimentos. O deputado federal Arnaldo Jardim destacou que iniciativas como a Lei do Combustível do Futuro, o mercado de carbono, o Programa Mover e a Nova Indústria Brasil formam uma base regulatória para impulsionar a descarbonização. Já o diretor de Programa da Secretaria Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis do Ministério de Minas e Energia, Marlon Arraes, afirmou que a regulamentação do SAF está em estágio avançado, enquanto o combustível sustentável para navegação também avança por meio das recomendações elaboradas por um grupo técnico. O assessor da Comissão Coordenadora para os Assuntos da Organização Marítima Internacional (IMO), Flávio Mathuiy, acredita que as novas regras internacionais para o transporte marítimo deverão ampliar a demanda por combustíveis sustentáveis, criando uma oportunidade para o Brasil expandir sua participação como produtor e exportador. Assista à integra do evento no canal do Sistema CNA/Senar