Especialistas atribuem às "bondades eleitorais" do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a melhora indicada pela pesquisa Genial/Quaest na avaliação de seu governo entre os evangélicos - segmento em que a direita tem mais força. O petista, que buscará a reeleição em outubro, lançou um conjunto de medidas econômicas que englobam redução de impostos, renegociação de dívidas e ampliação de benefícios para os mais pobres. Leia mais: Além disso, dizem especialistas, o petista também pode ter se beneficiado do desgaste de seu principal adversário, o senador e pré-candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, com o episódio "Dark Horse". Mensagens reveladas em maio mostram Flávio pedindo dinheiro ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do extinto Banco Master, para financiar a cinebiografia de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. Pesquisa Genial/Quaest divulgada quarta-feira (10) mostrou que, pelo segundo mês consecutivo, houve uma melhora na avaliação de Lula entre os evangélicos. A desaprovação, que era de 68% em abril, caiu para 65% em maio e chegou a 60% em junho, uma redução de oito pontos percentuais no período. Já a aprovação passou de 28% em abril para 30% em maio e alcançou 35% no levantamento mais recente. “Em princípio, o impacto das ações do governo para melhorar a percepção da economia, como o Desenrola ou a isenção do Imposto de Renda, que atingem principalmente as pessoas de camadas mais pobres, pode impactar indiretamente os grupos de religião evangélica, que são formados principalmente por pessoas mais pobres”, afirma Hilton Fernandes, cientista político com experiência em pesquisas de opinião e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FespSP). Segundo Fernandes, essa é atualmente a hipótese mais consistente para explicar o avanço dos índices de Lula nesse público. Ele pondera, no entanto, que com os dados disponíveis ainda não é possível concluir se a melhora na avaliação do governo está se convertendo em intenção de votos para Lula entre os evangélicos. Economistas têm alertado, no entanto, que mesmo com arrecadação recorde, o governo não registra superávits primários, e a dívida pública está em trajetória de alta. O "pacote de bondades" de Lula, além disso, pode tanto pressionar a situação fiscal quanto diminuir o ritmo de corte de juros pelo Banco Central (BC) - em meio a uma conjuntura econômica internacional delicada, em função da guerra no Irã. Para o cientista político Vinicius do Valle, pesquisador de pós-doutorado do núcleo Religiões no Mundo Contemporâneo do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), além da economia, fatores políticos e de comunicação também devem ser considerados dentre os fatores que ajudam a explicar a mudança na percepção dos evangélicos medida pela Quaest. Para ele, o governo passou a disputar mais a narrativa sobre seus resultados e a se comunicar de forma mais intensa à medida que o ambiente pré-eleitoral começa a ganhar força. “A propaganda eleitoral, a forma com que os governos se publicizam e se defendem quando vai chegando o momento eleitoral, costuma fazer a avaliação deles subir”, afirmou. Apesar da melhora registrada entre os evangélicos, os dois especialistas afirmam não identificar ações específicas do governo voltadas a esse segmento que expliquem diretamente o avanço da aprovação. “Não vejo porquê haveria uma melhora na avaliação dele por alguma ação direta para evangélicos. Não há nada evidente nesse sentido”, disse Fernandes. Desgaste de Flávio Bolsonaro O cientista da FespSP afirma que o desgaste de Flávio Bolsonaro com o caso "Dark Horse" ainda precisaria ser testado em novas pesquisas, mas considera plausível que o episódio tenha reduzido a credibilidade de parte dos discursos contrários ao governo. “Quando surge a divulgação do áudio, existe um arranhão na imagem do Flávio Bolsonaro. Isso pode diminuir o peso das críticas ao governo porque algumas pessoas passam a questionar quem fazia essas acusações”, afirmou. Valle segue linha semelhante, mas enfatiza o impacto do episódio sobre a dinâmica da polarização política. Para ele, o movimento observado entre os evangélicos pode refletir menos um ganho direto de Lula e mais um enfraquecimento do principal nome da direita no momento. Na avaliação do pesquisador, parte do eleitorado evangélico passou a rever sua percepção sobre Flávio Bolsonaro após o episódio envolvendo Vorcaro. “Se a gente for pegar o número na minúcia, foi menos o Lula que ganhou e mais o Flávio que perdeu”, acrescentou.