Os juros para financiar a dívida crescente da União dispararam, refletindo o desempenho fiscal medíocre do governo e a perspectiva de que a taxa Selic, já muito elevada, deverá cair muito pouco ou até mesmo subir. A temporada eleitoral mal começou e está recheada de estímulos variados ao crédito, enquanto os subsídios concedidos para programas de refinanciamento de dívidas acrescentam mais despesas para o Tesouro, embora não apareçam diretamente no resultado fiscal, que deverá melhorar “formalmente” para perto do zero. O aumento dos prêmios de risco se relaciona basicamente ao cenário doméstico. O choque do petróleo, também ele amortecido por subsídios, foi um gatilho que empurrou para cima uma inflação já desancorada há muito tempo. Ele coincidiu com a aceleração do ativismo do Planalto para melhorar a posição do presidente Lula na corrida eleitoral e perdurou até o Brasil ser atingido por ameaças de mais e maiores barreiras comerciais pelos Estados Unidos. Com isso, a intenção do Banco Central (BC) de reduzir uma taxa muito proibitiva para o principal devedor do país — o Tesouro, com estoque de R$ 8,8 trilhões em abril — recebeu um choque de realidade contrário. As expectativas negativas se acumulam, e as previsões do mercado apontam inflação de 5,11%, fora da meta, neste ano, e ainda distante dela em 2028 (3,65%), quando há três meses as projeções do BC indicavam que ela estaria bem próxima dos 3% (3,3%). A ameaça de um El Niño rigoroso se acresce ao do aumento dos preços dos fertilizantes — a oferta de seus principais componentes caiu por causa fechamento do Estreito de Ormuz —, para sinalizar mais inflação de alimentos, que vem subindo. Com isso, os títulos do Tesouro prefixados com vencimento em 2029 romperam anteontem a barreira dos 15% (15,02%), ante 13,9% no encerramento de maio e 13,5% quando a guerra dos EUA contra o Irã começou. Os juros estão em ascensão em toda a curva. Os títulos atrelados ao IPCA com vencimento em 2032 pagavam na segunda-feira 8,36%, ante 7,8% no primeiro dia de março. Taxas salgadas de IPCA mais 7,35% eram oferecidas nesse tipo de papel para 2050. O recrudescimento do custo para emissão e rolagem da dívida pública já vinha em alta ao longo do ano e piorou. O custo médio das emissões em oferta, em 12 meses, subiu para 14,08% em abril, antes da atual alta acentuada. Naquele mês, o custo médio do estoque da dívida pública mobiliária federal interna chegara a 13%. Como o governo federal, com seu novo regime fiscal, não teve interesse em produzir mesmo míseros superávits fiscais em quatro anos de mandato, a dívida bruta cresce ao sabor de uma taxa de juros impossível de ser mantida por muito mais tempo. Segundo o BC, a carga de juros nominais pagos nos doze meses encerrados em abril foi de R$ 1.095,5 trilhão (8,43% PIB), ante R$ 928,4 bilhões (7,65% do PIB) em abril de 2025. Como o governo tem déficit primário, o resultado consolidado do setor público apresentou um déficit nominal de R$ 1,222 trilhão, ou 9,41% do PIB, um dos mais altos do mundo. Com esses juros pré-falimentares, a situação fiscal só não é trágica a curto prazo porque o regime fiscal amarrou os gastos ao aumento de arrecadação, o que de fato ocorreu. As receitas públicas totais bateram recordes sucessivos ao longo dos últimos dois anos, mas há um limite de expansão para elas. Quando elas reduzirem seu ritmo de crescimento, o peso dos juros se fará sentir ainda com mais força. Por isso os investidores indicam a necessidade de um ajuste sério de contas a partir de 2027, que é bem possível que não venha. O presidente Lula vive repetindo que não quer governar para ficar “cortando orçamento”, e não há por que supor que faça isso com seriedade se for reeleito. O principal candidato da oposição, o senador Flávio Bolsonaro, mal tem ideias a respeito, e as poucas que surgiram nos bastidores de sua campanha, que indicavam algum aperto, foram rapidamente desmentidas. A perspectiva de que medidas corretivas não venham em futuro próximo também embala os juros dos títulos públicos. No nível atual, são veneno para os investimentos. Eles levaram embora, por exemplo, 45% do Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) das empresas do setor de bens de consumo e varejo. Em 2024, consumiram 33,3% dele, segundo dados da consultoria Alvarez & Marçal (Valor, 9-6). Segundo a pesquisa da consultoria, o volume agregado de investimentos do setor representou 26,8% do valor total do Ebitda — menos que os 28,4% de 2024 e bem inferior aos gastos financeiros. Ao sustentar a economia com mais crédito e estímulos fiscais, na direção contrária à das ações do BC, cuja obrigação é deter a inflação, o governo descumpriu a promessa de encaminhar a estabilização da dívida e, com juros maiores para refinanciá-la, preparou uma armadilha para o próximo governo, que pode ser do próprio Lula. Sem medidas fiscais abrangentes no curto prazo, o futuro então deverá ser igual ao passado: crescimento medíocre, com mais inflação e menos investimento.
Já altos, juros dos títulos públicos sobem ainda mais
Os títulos do Tesouro prefixados com vencimento em 2029 romperam anteontem a barreira dos 15% (15,02%), ante 13,5% quando a guerra dos EUA contra o Irã começou









