Na sua primeira entrevista, o novo presidente da Agência Integrada para os Incêndios Florestais (AGIF), Paulo Mateus, explica que nunca se fez tanto uso do chamado "fogo bom" como na prevenção deste ano e insiste que o poder político deve criar incentivos fiscais em sede de IMI e IRS para aumentar a limpeza de terrenos. Sobre este ano, considera, em entrevista ao PÚBLICO/Renascença, que vai ser "desafiante" em termos de incêndios.Quando foi nomeado, o ministro da Agricultura deu-lhe algum caderno de encargos específico?Nas vésperas de ser nomeado, tive uma conversa com o ministro e aquilo que combinámos foi seguirmos o caminho que vinha sendo percorrido até então. Naturalmente, muita coisa aconteceu desde 2017; houve ganhos durante este período, mas também algumas fragilidades.O que é que tem sido mais difícil?Tudo o que implica passar para um novo paradigma, com novos procedimentos. As instituições e os agentes estão muito habituados a fazer o que tradicionalmente sempre fizeram e, portanto, esta dificuldade de mudar e de adaptação a novas realidades é aquilo que é mais difícil.Privilegiámos, durante muitos anos, a supressão, o combate [aos fogos], mesmo em termos de orçamentos. Não escamoteando a necessidade de termos um combate robusto, este novo caminho privilegia tudo aquilo que é prevenção, em sentido lato.Mas o seu antecessor, na última entrevista que deu no Hora da Verdade, queixava-se de que o Governo estava a dar menos dinheiro para a parte da prevenção do que no passado. Como é que correram estes últimos anos?Em 2024, de facto, houve. Mas foi por razões processuais. Já em 2025, retomámos o caminho. O orçamento global, neste momento, anda à volta dos 600 milhões de euros para prevenção e combate e está muito equilibrado: neste momento, cerca de 50% para prevenção e 50% para combate.A tendência é apostarmos cada vez mais nas questões da prevenção e, portanto, mudarmos esta visão. Mas o fogo faz parte do nosso ecossistema mediterrânico, com influência atlântica. Se excluirmos o fogo, vamos ter mais fogo adiante.Neste ano, o que é que se avançou, por exemplo, na utilização do chamado fogo bom?Foi definida uma meta pelo ministro da Agricultura para a utilização do fogo bom, do fogo controlado, da ordem dos 5 mil hectares. Ainda não temos os dados apurados relativamente àquilo que foi feito, mas o que sei é que não estará muito longe disso.Estes 5 mil hectares são a meta para este ano de 2026? E é o valor mais elevado desde o início da AGIF?É, e é o mais elevado desde o início da AGIF.E em que zonas é que escolheram fazer esse fogo controlado?Sobretudo nas zonas Norte e Centro, em zonas de montanha do Norte e Centro do país.O cenário dos especialistas aponta para um ano difícil. O ministro da Administração Interna já disse que pode ser um Verão terrível. Qual é a sua expectativa? Vai ser um ano desafiante. O Verão pode ser desafiante se tivermos períodos prolongados de ondas de calor, como tivemos no ano passado; acho que foram 19 dias com muito calor.E a situação não pode ser pior por causa do que aconteceu na zona Centro, com a devastação que dificultou a limpeza?Pode. Toda aquela zona está muito difícil. É um problema grande porque temos muitas árvores partidas, caídas, e vamos demorar anos a limpar aquilo tudo. Vamos demorar anos. O que há a fazer neste momento é definir prioridades.A primeira prioridade foi a desobstrução dos caminhos. Isso está praticamente feito. A prioridade seguinte é fazer essa limpeza nas zonas de maior risco e no interface urbano-rural, onde há pessoas.Não sei se já foram àquela zona, mas aquilo não vai ser fácil. Não é fácil em Portugal, como não foi fácil noutros países que tiveram problemas semelhantes. Portanto, o que há a fazer neste momento? Há que ter muita atenção para não fazer fogo naquela zona. Temos de ter muita vigilância, muito patrulhamento. Temos de informar as pessoas sobre todos os comportamentos que devem ter relativamente ao fogo, evitando-o. A questão da maquinaria também deve ser considerada: deve ser utilizada apenas em dias em que o perigo de incêndio o permita.Até às tempestades deste Inverno, um dos grandes debates sobre a limpeza de terrenos e a retirada do combustível tinha a ver com os recursos, com a mão-de-obra disponível. Muita gente queixava-se de que não havia ninguém. Agora surgiu este sistema dos vales de 1500 euros. Parece-lhe que é um projecto que deve ser alargado a todo o país?Eu gostava que sim, sinceramente. Mas aquilo que refere da falta de mão-de-obra é uma realidade. Temos de ser um bocadinho inventivos para resolver as tais limpezas. Por isso é que eu falo de questões estruturais que têm de ser resolvidas.Precisa da imigração para isso?Precisamos da imigração para isso. Há regiões do país onde a imigração pode dar uma boa ajuda para se fazerem esses trabalhos de limpeza.Agora, e por isso é que eu falo nas questões de gestão de combustível em larga escala, temos de ultrapassar os limites do minifúndio. Para isso, é preciso que haja mecanismos que permitam gerir o combustível em maior escala. E Para isso há várias possibilidades, nomeadamente benefícios fiscais que devem ser potenciados.Desde 1996, na Lei de Bases da Política Florestal, está previsto um conjunto de incentivos desta ordem, mas que tardam em chegar ao território. Estou a falar de incentivos no IMI, para evitar também a fragmentação da propriedade; estou a falar de incentivos, eventualmente em sede de IRS, para quem gere ou para quem se associa.A AGIF defende um modelo em que há uma força rural, pública e privada, dedicada à protecção das florestas, que apoie um Estado-Maior que coordene, comande e controle operações de combate a incêndios complexos. Isto está a funcionar verdadeiramente?Este modelo já estava perspectivado pela Comissão Técnica Independente de 2017. Aquilo que entendemos como útil é que haja duas forças especializadas, devidamente formadas e qualificadas, para resolverem e endereçarem o problema da protecção de pessoas e bens e dos fogos rurais.Mas isso está muito segmentado em Portugal: a operação por um lado, a prevenção por outro, certo?Por isso é que temos um sistema de gestão integrada de fogos rurais, porque são os dois lados da mesma moeda. A prevenção e o combate não podem funcionar um sem o outro.Como é que está a relação da AGIF com o corpo de bombeiros? A AGIF já referiu que há uma fraca incorporação do conhecimento disponível na decisão operacional de combate. Todas as entidades são absolutamente indispensáveis, todas elas. Se fizermos aqui um paralelismo com a orquestra, qualquer instrumento é absolutamente essencial para que a partitura e a melodia saiam convenientemente. E os bombeiros são essenciais. Portanto, não há aqui nenhuma clivagem entre a AGIF e os bombeiros. Não pode haver. Os bombeiros têm o seu papel, o seu conhecimento e a sua formação.