Peças levadas por museus turcos integram mostra inaugurada nesta semana no Coliseu e reforçam a ligação histórica da lendária cidade com os povos da Anatólia Uma réplica gigante do Cavalo de Troia paira sobre o porto de Çanakkale, no oeste da Turquia, um presente do set de filmagem de 'Troia', enquanto uma grande exposição em Roma se prepara para destacar as raízes anatólias do local — Foto: IONUT IORDACHESCU/AFPTV/AFP Um presente do set de filmagem de "Troia", uma réplica gigante do Cavalo de Troia domina a paisagem do porto de Çanakkale, às margens do Estreito de Dardanelos, no oeste da Turquia. Relatada inicialmente por Homero e posteriormente adaptada para o cinema em 2004, com Brad Pitt no papel de Aquiles, a lenda da antiga cidade chega ao Coliseu de Roma esta semana, onde uma grande exposição será inaugurada na sexta-feira. Com o objetivo de destacar as raízes anatólias da cidade, a Turquia emprestou mais de 220 artefatos que estarão em exibição na mostra "Troia e Roma", em cartaz até meados de outubro. — Ao ler Homero, não se tem uma ideia muito clara da identidade dos troianos. Mas, na época da Guerra de Troia, eles certamente estavam entre os povos da Anatólia — afirmou Reyhan Korpe, vice-diretor das escavações de Troia e especialista em história antiga da Universidade de Çanakkale. Localizadas na costa do Mar Egeu, na Turquia, as ruínas de Troia são Patrimônio Mundial da UNESCO. O sítio arqueológico abrange 185 hectares de pedras e muralhas em ruínas, espalhadas por uma paisagem pontilhada de papoulas e esquilos. Durante 30 anos, Korpe percorreu cada centímetro desse vasto sítio arqueológico, cujas camadas revelam a história de nove assentamentos diferentes, com os vestígios de suas muralhas entrelaçados e sobrepostos ao longo do tempo. Flanco ocidental do Oriente — Passei um ano inteiro caminhando entre as pedras, com mapas na mão, tentando entender como elas se encaixavam — contou ele à AFP. Sua paixão pelo local é evidente. Fundada por volta de 3000 a.C., a cidade foi habitada continuamente até ser abandonada no século VI d.C. — Era a parte mais ocidental da civilização oriental — disse Korpe, explicando o que conferia a Troia sua importância estratégica. A Guerra de Troia, ocorrida por volta de 1200 a.C. e que teria durado dez anos até o cerco e a derrota da cidade — episódios narrados em parte na Ilíada —, foi, segundo ele, o primeiro confronto entre o Oriente e o Ocidente. A referência é ao mundo da Anatólia e ao universo grego, razão pela qual Korpe a define como "a primeira guerra mundial". A ideia encontra forte ressonância nessas colinas arborizadas, que, milênios mais tarde, testemunharam as batalhas da Primeira Guerra Mundial, em 1915, quando tropas aliadas sofreram uma sangrenta derrota ao tentar tomar os Dardanelos do Império Otomano. Hieróglifos luvitas Das centenas de peças emprestadas pela Turquia para a exposição em Roma, mais de 100 pertencem ao Museu de Troia, algumas delas apresentadas ao público pela primeira vez. Entre os destaques está um selo de bronze com hieróglifos, descoberto em 1995, que oferece pistas importantes sobre as raízes anatólias da cidade. — É o único vestígio de escrita encontrado em Troia redigido em uma língua anatólia, o que prova que a primeira língua falada ali foi a dos povos luvitas — explicou a diretora do museu, Sinem Duzgoren. Os luvitas foram um povo antigo que habitou o oeste e o sul da Anatólia durante a Idade do Bronze e o início da Idade do Ferro. Sua língua desempenhou um papel importante no Império Hitita. De Wilusa a Ílion Embora Troia não fosse uma cidade hitita, fazia parte da esfera de influência do império, que a chamava de Wilusa. O nome foi posteriormente transformado em Ílion pelos gregos — ou Ílios, na obra de Homero. — Essas peças podem não ser as mais espetaculares, mas são as mais importantes do ponto de vista histórico, porque testemunham a história de Troia — afirmou Duzgoren à AFP. Também foram enviadas a Roma diversas armas utilizadas em conflitos da época, como pedras para fundas, facas, lanças e pontas de flecha. — Essas armas são mencionadas na Ilíada e datam do mesmo período ao qual Homero faz referência — disse ela. Essa realidade, porém, está muito distante das batalhas épicas e romantizadas retratadas em "Troia" (2004), dirigido por Wolfgang Petersen. Além de deixar como legado a réplica de 12 toneladas do Cavalo de Troia que hoje se ergue na orla de Çanakkale, o filme ajudou a reacender o interesse internacional pela antiga cidade, observou Korpe. — Nem os produtores nem o diretor vieram aqui, embora tenha sido justamente nessa época que fizemos algumas das descobertas mais importantes — lamentou. — Mas o número de turistas aumentou, mesmo que estivessem apenas à procura de vestígios de Brad Pitt entre as ruínas! — completou.