Em 1799, o naturalista George Kearsley Shaw recebeu em Londres a pele e o desenho de um animal vindo da Austrália. Tinha corpo de lontra, cauda de castor, bico de pato e pés palmados. Shaw examinou o espécime com a desconfiança metódica que a ciência recomenda e chegou a usar tesouras para procurar as costuras que teriam unido o bico ao corpo por algum taxidermista trapaceiro. Não encontrou nada. O animal era real.
A comunidade científica levaria 90 anos para aceitar todos os seus atributos. Em 1833, descobriu-se que a fêmea amamenta secretando leite pelos poros. Em 1884 confirmou-se que o animal bota ovos. Um mamífero. Que bota ovos e amamenta pelos poros. O ornitorrinco existe, mas desafia qualquer categoria conhecida.O pacote montado para salvar o BRB, o Banco Regional de Brasilia, é o ornitorrinco da regulação bancária brasileira. Tem bico de pato, pelos, nada como pato e, se o leitor procurar bem, provavelmente bota ovos. A diferença é que agora o bicho tem certidão de nascimento homologada pelo Supremo Tribunal Federal.
A peça central segue sendo o fundo gerido pela Quadra Capital, que recebeu cerca de R$ 15 bilhões em ativos originados no Banco Master. São uns R$ 12 bilhões em créditos, quase R$ 9 bilhões herdados do Credcesta, e R$ 3 bilhões em participações que incluem ações da Ambipar e da Oncoclínicas, uma concessionária de cemitérios e um grupo de restaurantes. A Ambipar está em recuperação judicial simultânea no Brasil e nos Estados Unidos, com dívidas que superam R$ 11 bilhões, depois que suas ações foram infladas em 863% numa operação que envolveu o próprio Master, conforme concluiu a CVM (Comissão de Valores Mobiliários), e desabaram 98% em 2025.














