A Colossal Biosciences, startup americana de “desextinção” que tenta trazer de volta espécies desaparecidas como o moa gigante da Nova Zelândia e o dodô, anunciou um avanço inédito: 26 pintinhos saudáveis nasceram a partir de ovos artificiais impressos em 3D. O experimento, divulgado em 19 de maio de 2026, é tratado pela empresa como uma prova de conceito para seu objetivo de desenvolver incubadoras capazes de sustentar embriões de aves extintas ou ameaçadas. O sistema criado pela Colossal combina uma estrutura rígida, com treliça de titânio impressa em 3D, e uma membrana bioengenheirada de silicone semipermeável. A ideia é reproduzir a principal função da casca natural: permitir a entrada de oxigênio, a saída de dióxido de carbono, a retenção de umidade e a proteção contra contaminantes. Segundo a empresa, o material tem capacidade de transferência de oxigênio de 21%, acima da absorção de uma casca orgânica de ovo de galinha. Há, no entanto, uma limitação importante: o ovo artificial não fornece cálcio, elemento que aves em desenvolvimento normalmente retiram da parte interna da casca. Ovo artificial com membrana de silicone pode ser 'chave' para reviver espécies extintas — Foto: Reprodução: Colossal Biosciences — A única coisa que estamos suplementando é cálcio. Os embriões em desenvolvimento não conseguem obter cálcio de, sabe, titânio impresso em 3D, aparentemente — disse Ben Lamm, CEO e cofundador da Colossal, ao Gizmodo. Lamm afirmou ainda que a empresa não pretende ampliar a criação de galinhas a partir do teste. — Sabe, nós já temos 26 galinhas. Não precisamos de mais. Vamos deixá-las viver suas vidas naturais — afirmou. Ovos com janela Além da membrana de silicone, o ovo artificial tem uma janela transparente na parte superior, que permite aos cientistas observar o desenvolvimento do embrião sem interferir no ambiente interno. Segundo a Colossal, o formato pode ser ajustado para diferentes tamanhos, de ovos menores, como os de pombos, a estruturas muito maiores, como as necessárias para espécies extintas de grande porte. Andrew Pask, diretor de Biologia da Colossal e especialista em epigenética, afirmou que a membrana foi projetada para reproduzir a eficiência da casca natural. — É uma membrana muito fina e realmente especializada, que permite uma troca gasosa muito eficaz, que é aquilo para o qual a casca do ovo é incrivelmente projetada — disse Pask. A empresa afirma que o sistema foi pensado para ser escalável e produzido em massa, no futuro, por técnicas de baixo custo, como moldagem por injeção. Os próximos testes devem envolver ovos menores, de pombos, e maiores, de emas. Edição genética Apesar do anúncio, o ovo artificial não substitui todas as etapas biológicas da reprodução. No teste atual, ovos postos por galinhas reais foram examinados entre 24 e 48 horas após a postura. Em seguida, o conteúdo viável foi transferido para a estrutura artificial, sem a casca natural. Ou seja: fertilização e postura ainda ocorreram dentro de uma ave viva. Para projetos de desextinção, como os do dodô e do moa gigante, a intervenção genética precisaria ocorrer muito antes. Segundo Hans Cheng, geneticista molecular da Universidade Estadual de Michigan e ex-pesquisador do Serviço de Pesquisa Agrícola do Departamento de Agricultura dos EUA, quando um ovo fertilizado já foi posto, o embrião tem cerca de 50 mil células — número alto demais para edição genética com as técnicas atuais. A estratégia da Colossal passa pelas chamadas células germinativas primordiais, precursoras de espermatozoides e óvulos. No ano passado, a empresa informou ter cultivado esse tipo de célula a partir do pombo-comum, espécie próxima do pombo-de-nicobar, apontado como possível substituto no projeto do dodô. Para o moa gigante, a empresa ainda não escolheu uma espécie substituta, embora ema e tinamídeo estejam entre as possibilidades. O papel do ovo artificial, nesse cenário, seria assumir a incubação em uma etapa posterior, quando o embrião de uma ave extinta de grande porte ultrapassasse o tamanho viável para o ovo de uma espécie substituta. Cientistas veem potencial, mas cobram transparência Pesquisadores independentes consideraram o sistema promissor, mas destacaram que o avanço ainda é parcial. Vincent Lynch, biólogo evolutivo da Universidade de Buffalo, classificou a reformulação da membrana protetora como “um desenvolvimento biotecnológico muito legal”, mas ponderou que a membrana é apenas um dos componentes de um ovo. — Eles não desenvolveram todas as outras partes — disse Lynch. A Colossal não divulgou a taxa de sucesso do experimento, ou seja, quantos embriões foram usados para que 26 pintinhos nascessem. Também não publicou, até o anúncio de maio de 2026, um artigo revisado por pares ou uma base de dados pública, o que impede a avaliação independente completa da metodologia. Christopher Preston, especialista em vida selvagem e meio ambiente da Universidade de Montana, afirmou que a tecnologia poderia, em tese, ajudar ações de conservação, como a adaptação de aves ameaçadas a mudanças climáticas ou doenças. Mas, para isso, seria necessário combinar o sistema de incubação com edição genética em aves. Já Stuart Pimm, ecólogo da Universidade Duke, observou que, para a maioria das espécies ameaçadas, medidas mais imediatas seguem sendo a redução da perda de habitat, colisões com edifícios e predação por gatos soltos. Aplicação na indústria avícola é improvável Embora especialistas apontem que a tecnologia poderia impactar a indústria avícola, a própria Colossal diz não ter planos de entrar no mercado agrícola. Segundo Lamm, o foco da empresa continuará em conservação e experimentos de desextinção. Na avaliação de Cheng, o interesse comercial também seria limitado: galinhas domésticas já põem cerca de 300 ovos por ano a baixo custo. O potencial mais imediato, segundo cientistas citados, pode estar na pesquisa em biologia do desenvolvimento, já que a janela transparente permitiria acompanhar diretamente a formação de órgãos e vasos sanguíneos em embriões. Fundada em 2021 por Ben Lamm e pelo geneticista George Church, da Universidade Harvard, a Colossal Biosciences já arrecadou mais de US$ 600 milhões e é avaliada em mais de US$ 10 bilhões. Seu portfólio de projetos inclui, além do dodô e do moa gigante, o mamute-lanoso, o tilacino e o lobo-terrível, espécie da qual a empresa afirma ter obtido três filhotes nascidos em 2024.
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