Você sabe o que são Terras raras e por que tem tanta gente graúda atrás delas?Controle sobre a cadeia de suprimentos de minerais críticos e terras raras tornou-se uma questão estratégica para os EUA. Gerando resumoBRUXELAS - A União Europeia (UE) quer entrar na disputa pelas reservas de terras raras no Brasil, com Estados Unidos e China. A Comissão Europeia pretende intensificar a negociação para chegar a uma parceria em território brasileiro e um acordo com o governo federal. PUBLICIDADEO objetivo de fundo é assegurar suprimentos para as indústrias estratégicas europeias, entre elas as de tecnolgia e defesa, e escapar do controle de chinês no segmento e do apetite americano disparado por Donald Trump.Diplomatas brasileiros afirmaram que os europeus demostraram preocupação com o avanço dos EUA e da China nas reservas de minerais críticos da América do Sul. Embora o subsolo nacional não tenha sido totalmente mapeado, estima-se que o País detenha a segunda maior reserva de terras raras do mundo (23%) e cerca de 21 milhões de toneladas.Instalações industriais da mineradora de óxidos de terras raras Serra Verde, em Minaçu (GO), comprada por mineradora dos EUA Foto: Serra Verde/DivulgaçãoA UE vai despachar ao Brasil, entre 18 e 24 de junho, o comissário de Parcerias Internacionais, Jozef Síkela, responsável por tratar do tema e assegurar o que os europeus chamam de uma “cadeia de suprimentos segura e sustentável” de matéria-prima crítica.PublicidadeO comissário visitará Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Ele estará acompanhado lideranças do projeto de investimento europeu Global Gateway, da diplomacia do bloco e também do Banco Europeu de Investimentos (BEI).Leia maisMineradora brasileira aposta em projeto de R$ 3 bi para beneficiar terras rarasNo sábado, dia 20, Síkela vai visitar um dos projetos de terras raras atualmente em avaliação de investimentos europeus, o Colossus, da empresa australiana Viridis, em Poços de Caldas (MG). Funcionários europeus em Bruxelas veem uma oportunidade para a Europa, oferecendo o que chamam de parcerias “confiáveis” e “estáveis”, enquanto existe instabilidade global por causa da disputa franca por liderança e uma guerra comercial entre Estados Unidos e China.Os europeus falam em oferecer tecnologia, formação e investimento produtivo, seguindo os seus parâmetros climáticos e sociais.PublicidadeA UE montou com os governos de Brasil, Argentina e Bolívia grupos de trabalho para selecionar seus projetos prioritários a fim de receber aportes. Os europeus também mostraram os seus interesses, e os portfólios foram cruzados e mostrados a empresas do bloco. O objetivo é criar conexão industrial entre as empresas locais sul-americanas e as europeias.Interlocutores europeus querem diversificar suas fontes de acesso a minerais críticos, entre eles os elementos de terras raras abundantes no Brasil, mas escassos no restante do mundo (exceto a China). Eles fizeram chegar aos governos que estão dispostos a investir dinheiro nos países, “mas não para que refinem o lítio e o mande de volta para a China”.Leia maisOnde está o tesouro dos minerais para carros elétricos e transição energética no Brasil? Veja mapaOs europeus são claros: buscam diversificar a cadeia de suprimentos e garantir independência, para escapar de quem, com uma ordem política, “fecha o mercado de exportação e paralisa a indústria automobilística alemã“. O agente oculto é a China.Como retaliação à guerra comercial com os EUA, Pequim já represou a exportação de minerais críticos, o que afetou a indústria americana, inclusive a indústria de defesa.PublicidadePUBLICIDADEEm janeiro, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, disse no Brasil que o acordo em discussão com o Brasil nortearia a cooperação e projetos de investimentos conjuntos em lítio, níquel e terras raras. “Isto é fundamental para as nossas transições digital e limpa, bem como para a nossa independência estratégica num mundo onde os minerais tendem a tornar-se um instrumento de coerção”, disse ela.O bloco europeu sabe que será difícil cobrar exclusividade - o governo brasileiro já recusou um acordo nessas bases com os EUA - mas exigem que ao menos parte das exportações dos insumos volte à Europa. Dizem, em contrapartida, que vão investir em produtos de valor agregado feitos localmente.Ofensiva europeia ocorre após EUA comprarem participação em mineradora brasileiraA viagem de Síkela e a ofensiva europeia ocorrem depois de os Estados Unidos aportarem recursos e comprarem participação na Serra Verde, que explora terras raras leves e pesadas em Minaçu (GO), também em busca de alternativas um mercado global dominado pela China - Pequim concetra cerca de 70% da capacidade de exploração e 90% do refino. A compra foi feita pela mineradora USA Rare Earth, da qual o governo Trump passará a ser acionista.PublicidadeA China é o principal detentor e, sobretudo, processador de minerais críticos do mundo e terá um papel central nas próximas duas décadas, conforme projeções da Agência Internacional de Energia (AIE).Pequim domina o refino de 19 dos 20 minerais críticos listados em estudo da agência Perspectivas Globais para Minerais Críticos 2025: com 44% do cobre, 70% do lítio, 92% das terras raras, 95% do grafite e 99% do gálio.Além de avaliar um projeto em concreto, a UE e o governo brasileiro discutem formalizar um acordo, ainda com termos mais genéricos, para dar base à cooperação em terras raras e outros minerais críticos.Segundo apurou o Estadão, os primeiros rascunhos do acordo não agradaram ao Brasil, porque se limitavam a discutir aspectos da extração mineral. Pessoas com acesso ao texto falam em tratativas para um memorando de entendimentos, espécie de carta de intenções - algo que a UE já assinou com Argentina e Chile.PublicidadeRepresentantes do Brasil avisaram Bruxelas que o acordo só será fechado se incluir beneficiamento e investimentos novos de europeus no País. Existem fundos que a UE pode mobilizar para financiar empresas europeias interessadas em reservas de terras raras.Enquanto o País ainda discute uma política nacional - um marco legal foi aprovado na Câmara e agora tramita no Senado -, o governo Lula adotou como diretriz firmar apenas acordos mais gerais, mas que deixem claro o interesse em parcerias que induzam a criação de uma cadeia industrial no País, voltada ao processamento e refino de terras raras ao invés da exportação de matéria-prima bruta.Os recados do governo nesse sentido parecem ter sido ouvidos. Interlocutores em Bruxelas e Luxemburgo afirmam que a parceria em discussão vai seguir um “modelo europeu” voltado também ao “benefício público” e que não se limita à exportação 100% da matéria-prima e haverá desenvolvimento da indústria local.A conclusão de um financiamento é considerado um projeto de prazo médio a longo. No Brasil, o BEI vai mobilizar equipe técnica, de project finance, setor público e manter conversas com o BNDES e o BDMG. PublicidadeHá interesse da UE em um contrato de offtake, com um comprador europeu adquirindo a produção antes mesmo de a operação começar. Segundo fontes a par das tratativas, essa é uma condição considerada muito importante em Bruxelas em Luxemburgo. Eles querem assaegurar a diversificação da distribuição dos minerais para que vão sejam enviados a outras partes do mundo e beneficie a Europa. Se não o todo, o que poderia cair na exclusividade e veto à venda a outros países (o que o governo Lula rechaça), um percentual relevante que aumente o acesso da Europa às reservas de terras raras.Os europeus indicaram estar de acordo com o processamento industrial local no Brasil - ao menos em parte - e que com o tempo poderia ser completo, idealmente, se houver capacidade produtiva instalada.O Banco Europeu de Investimentos (BEI) já financiou projetos dentro da Europa e agora busca os primeiros na América Latina. São projetos considerados de médio a longo prazo.PublicidadeEles participam da atual edição da Exponor, em Antofagasta, no Chile, uma das feiras mais tradicionais do setor mineral. E também observam oportunidades em outros países com reservas minerais relevantes, entre eles a Argentina.Dois funcionários técnicos do BEI vão acompanhar a visita de Síkela. Não há um montante pré-definido para o crédito - a instituição financeira vai avaliar caso a caso os projetos, de acordo com a demanda de financiamento.O banco é uma institutição que age sob interesse direto de empresas europeias, com a orientação política da UE. Ajuda empresas europeias a acelerarem investimentos e trabalha com empresas locais parceiras delas. O interesse é justamente procurar fornecedores de materiais estratégicos que faltam na Europa e existem em abundância na América.Impacto do acordo Mercosul-UEEventual aporte de investimentos empresariais e o memorando em discussão com o governo brasileiro devem se beneficiar das regras previstas no acordo de comércio entre Mercosul e a UE, em vigor desde 1º de maio.PublicidadeO tratado de livre comércio prevê preferências tarifárias para minerais e tem uma cláusula que vale só para o Brasil, dando ao governo a capacidade de exercer, no futuro, algum grau de controle sobre as exportações de terras raras. O objetivo, segundo diplomatas, era proteger as reservas e evitar que fossem destinadas à exportação como matérias-primas brutas.Se o governo vier a aplicar alguma taxa sobre a exportação, a União Europeia vai preservar uma preferência, ou seja, terá um tratamento melhor, uma margem mais baixa em relação a outros países.*O repórter viajou a convite da Delegação da União Europeia no Brasil
União Europeia acelera negociação com Brasil por terras raras após Trump fechar compra de mineradora
Comissário europeu desembarca no País em busca de alternativas no setor de minerais críticos, dominado pela China e campo de avanço dos EUA















