Embora o impacto do ponto de vista macroeconômico das novas tarifas propostas pelos Estados Unidos seja pequeno, há impacto forte para alguns Estados e é preciso trabalhar para reverter o aumento da taxação. A política conta muito e o Brasil precisa definir suas estratégias. A avaliação é de Marcos Troyjo, ex-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, o Banco do Brics. As declarações foram dadas durante participação da economista em evento promovido pelo Lide em São Paulo sobre as relações econômicas Brasil-EUA. Os dados de exportação mostram que há oportunidades desperdiçadas pelo Brasil em relação ao mercado americano, aponta Troyjo. Os EUA importam o equivalente a 12% do seu PIB, diz. “Ou seja, aquilo que os Estados Unidos compram do resto do mundo representa uma realidade macroeconômica superior ao PIB da França e ao PIB de todos os países juntos do continente africano.” A exportação do Brasil aos EUA significa apenas 1% do que os americanos compram do mundo, destaca. Quanto mais se puder despolitizar a negociação sobre as tarifas que os EUA propuseram contra o Brasil, diz Troyjo, “melhor”. “Mas as relações econômico-comerciais estão muito politizadas. Temos que reconhecer isso. Por exemplo, a atual administração do Brasil foi a última dentro das economias do G20 a ter qualquer contato com a segunda presidência Trump. Não me parece que fez esforços muito vultosos para mudar essa situação desde 2 de abril do ano passado [quando a política tarifária da atual gestão de Trump ficou mais clara].” Segundo Troyjo, o Brasil precisa “fazer de tudo para evitar a imposição de tarifas”. “Macroeconomicamente, o efeito é pequeno, embora represente uma parte importante de empregos e negócios de Estados como São Paulo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Paraná. Quem faz madeira, móveis, máquinas, alguns equipamentos, vai sofrer se realmente forem impostas as tarifas resultantes da investigação da sessão 301." Troyjo refere-se à tarifa de 25% proposta pelos EUA especificamente para o Brasil, além de uma tarifa de 12,5% proposta para um grupo de 60 países, incluindo o Brasil, ambos com base na Seção 301. A expectativa é de que a decisão final sobre as tarifas saia no decorrer de julho. “Alguma coisa ainda dá para ser feita. É preciso argumentar tecnicamente, mas tem que se mexer nos bastidores politicamente para tentar reverter isso, utilizando muito os compradores americanos. Para eles, parte importante dessas tarifas significa estagflação. Inflação, porque aumenta os custos. Estagnação porque toma-se a decisão de não investir, porque não se sabe quanto tempo essas regras vão durar. E em muitos casos os compradores americanos não têm um efeito de substituição tão imediato.” Joaquim Levy, diretor de estratégia econômica e relações com mercados do Banco Safra e ex-ministro da Fazenda, diz que os setores que devem sofrer mais com as medidas anunciadas são os setores industriais, que têm valor agregado importante nos produtos exportados. Para ele é preciso trabalhar em relação a isso. “Mas tenho confiança de que se chegará a um equilíbrio.” Henrique Meirelles, ex-ministro da Fazenda e ex-presidente do Banco Central (BC), diz que a relação entre Brasil e EUA é histórica, sólida, com grande número de empresas americanas interessadas na relação. “Vamos olhar isso no longo prazo e trabalhar para solucionar as outras questões.” Para ele, a inclusão do PIX na investigação americana com base na seção 301 que resultou na proposta de tarifa de 25% contra o Brasil não faz sentido quando se considera que o PIX é um produto brasileiro gratuito, instantâneo e de alta confiabilidade. Ele aponta, porém, que há uma questão estrutural, que foi a lei brasileira do cadastro positivo. Isso, diz, permitiu o acesso dos bancos ao cadastro. A transferência por PIX, destaca, é operada pelo Banco Central, o que representa uma intervenção oficial direta do Estado, que beneficia a economia brasileira “enormemente”. Do ponto de vista das empresas americanas, diz, não há algo similar ao cadastro brasileiro positivo ou ao PIX, o que pode ser um problema para elas e que pode ser visto como concorrência desleal. Marcos Troyjo — Foto: Andre Coelho/Valor