O mais provável é que a chuva pouca seja transformada em pouquíssima ou nenhuma. A expectativa é de temperatura bem acima da média, aumentando o consumo de eletricidade Torres de transmissão em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense — Foto: Custódio Coimbra/Agência O Globo/03/05/2021 RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 05/06/2026 - 08:43 El Niño ameaça setor elétrico com chuvas escassas e alta demanda O fenômeno El Niño traz riscos significativos ao setor elétrico brasileiro, incluindo chuvas escassas e temperaturas elevadas, o que aumenta o consumo de eletricidade. Em 2026, o armazenamento dos reservatórios hidrelétricos pode não ser suficiente, exigindo mais das UHEs e o uso de termelétricas. Apesar de a geração eólica poder crescer no Nordeste, a diversificação da matriz elétrica ainda enfrenta desafios técnicos e de planejamento. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO No fim de abril, os reservatórios das usinas hidrelétricas (UHEs) estavam em 71%. Valor razoável se comparado ao mesmo período de 2025, quando o índice era 73%. Mas ruim se a referência são os anos de 2023 e 2024, quando tinham 84% de água armazenada. É como se as UHEs, em 2026, contassem com 50GW, ou um Nordeste inteiro, a menos de energia disponível. É inquietante. Todos os dias, no intervalo entre 9h e 14h, a geração solar produz cerca de 40GW. É espetacular o excedente de energia, que tem como resultado cortes compulsórios de geração (curtailment) que superam 30GW nos domingos e feriados. Nesse intervalo, as demais fontes geram o necessário para complementar a demanda e manter a segurança e a confiabilidade. Depois das 14h, quando a geração solar vai a zero, as UHEs precisam substituir, em curtíssimo tempo, aqueles 40GW, numa proporção de 10GW por hora. Essa característica é conhecida como rampa ou “curva do pato”. Observe que, se as UHEs já produziam de 35GW a 45GW, com o adicional do “pato” a geração iria para 80GW. Ainda devem ser consideradas as horas da demanda máxima, entre 17h e 18h. As UHEs suportariam esse esforço por três ou quatro meses, mas não até o fim de novembro, quando as chuvas, num quadro de normalidade, retornariam com mais intensidade. Há uma restrição adicional vinculada ao El Niño. Entre maio e novembro, o padrão é a incidência de pouca chuva no Sudeste, no Centro-Oeste e no Nordeste. Com o El Niño, o mais provável é que a chuva pouca seja transformada em pouquíssima ou nenhuma. Mais: a expectativa é de temperatura bem acima da média, aumentando o consumo de eletricidade. Essa combinação de eventos — pouca chuva e muito calor — exigirá mais ainda das UHEs, durante todo o dia, além da curva do pato. Conclusão: o índice atual de armazenamento pode não ser suficiente para o desafio que vem por aí. Com um detalhe: para que o ano de 2027 não seja prejudicado, os reservatórios, em novembro de 2026, não deveriam estar abaixo de 25% ou 30%. Em 2025, sem o El Niño, as UHEs estavam com 32%. Esse cenário é preocupante. Mas há dois aspectos positivos. Nos anos de El Niño, a geração das eólicas tende a ser maior no Nordeste, com uma condição: o aquecimento das águas do Atlântico Sul não pode fugir do normal. Além disso, uma consequência do El Niño é o maior volume de chuvas no Sul, cujos reservatórios representam 7% do total. Se alcançarem 90% (estão com 57%), será uma pequena, porém providencial, contribuição. De qualquer forma, é inescapável o uso de usina termelétricas (UTEs), numa proporção maior que a média. Esses resultados parecem contraintuitivos. Se temos uma matriz elétrica bem diversificada, 93% composta de fontes limpas e renováveis, por que dependemos de UHEs e de UTEs? Por várias razões. A primeira é de natureza técnica. A solar e a eólica só produzem quando há sol e vento. Geram energia, na média, em apenas 30% do tempo. Outra razão vem da falta de planejamento. A inserção das renováveis decorreu de gordos subsídios, que aceleraram em demasia o ritmo da expansão e desorganizaram o lado da oferta. Os efeitos das mudanças no clima, que vêm quase como castigo, são a terceira e mais relevante razão. O mesmo ser que acelera o ritmo da expansão das renováveis se empenha para desacelerar a velocidade de redução do uso de combustíveis fósseis. O custo disso, no caso concreto, é medido pelo elevado risco de blecaute com o El Niño e pela certeza de aumento na conta de luz. *Edvaldo Santana, doutor em engenharia de produção e professor titular aposentado da Universidade Federal de Santa Catarina, foi diretor da Agência Nacional de Energia Elétrica
O El Niño, o risco de blecaute e o aumento na conta de luz
O mais provável é que a chuva pouca seja transformada em pouquíssima ou nenhuma. A expectativa é de temperatura bem acima da média, aumentando o consumo de eletricidade









