Na primeira vez, não entendi o que estava acontecendo. Era noite. Eu estava sozinha em casa, lendo no sofá, quando ouvi uma melodia conhecida. Era "Let It Be". Apurei mais um pouco os ouvidos. Deduzi que vinha do apartamento de cima. Gostei. Tínhamos nos mudado havia pouco para o prédio. Descobrir que meu vizinho curtia os Beatles e ouvia alto uma de suas melhores músicas numa débil terça-feira fez com que eu simpatizasse com ele, mesmo sem conhecê-lo, a ponto de eu cogitar abrir a janela e cantar junto o refrão.
Ainda bem que não levei meu plano em frente. Só entrei no grupo da família e escrevi: temos um vizinho que também ama "Let It Be". Minha filha respondeu: não é o vizinho, é a Alexa tocando no banheiro, pus pra lembrar que todo dia às 20h preciso tomar meu remédio. Aliás, obrigada por ter me avisado, mãe!
No dia seguinte, na mesma hora, a mesma música. "Let It Be" não soava mais como um código de comunicação entre dois desconhecidos mas como o canto de celebração de uma mãe que, durante a infância da filha, suou o toca-discos para lhe mostrar seus melhores álbuns.
No terceiro dia, eu não estava lendo. Estava olhando pela janela, os olhos cheios de lágrimas. Tinha brigado com meu companheiro e "Let It Be" nunca me pareceu uma música tão triste. Não pensava no vizinho, não pensava na minha filha, só me perguntava o que deveria fazer para remendar aquela situação. Ligar para ele? Repetir o que já tinha lhe dito um milhão de vezes? De repente tive a sensação de que Paul compôs aquela música para mim. Da mesma forma que Mother Mary aparecia para ele, o beatle aparecia para esta escritora, sugerindo que deixasse o celular de lado, Let It be.












