O estresse que o mercado doméstico de juros enfrentava antes do feriado de Corpus Christi se ampliou na sexta-feira e levou as taxas futuras aos maiores níveis desde abril de 2025. O movimento, que parecia apenas uma reprecificação muito expressiva do ciclo de política monetária, já dá sinais de que uma espiral negativa pode ter tomado conta do mercado de juros, trazendo de volta às discussões a possibilidade de novas ações do Tesouro Nacional diante da recente deterioração nos ativos locais. Em apenas uma semana, as taxas aumentaram até 70 pontos-base (ou 0,7 ponto percentual) nos vencimentos de 2028 e 2029 — de longe os mais afetados pela recente onda de estresse. A deterioração se estende a níveis próximos àqueles observados na primeira metade de março, pouco depois da eclosão da guerra no Irã, quando o Tesouro Nacional teve de intervir no mercado de títulos públicos por meio da suspensão dos leilões semanais de títulos atrelados à inflação (NTN-Bs) e prefixados (LTN e NTN-F), com uma recompra recorde de R$ 49 bilhões em papéis. Diante de tamanho estresse, parte do mercado já questiona se não é hora do Tesouro novamente agir de forma mais enérgica a fim de frear a intensa deterioração que se construiu nos últimos pregões. Embora a maioria ainda não defenda uma intervenção direta, com recompra de títulos públicos, é consensual a necessidade por uma postura mais sensível às condições do mercado. Até porque, na última quarta-feira, quando o mercado já dava sinais de piora, houve um leilão de prefixados, que não foi totalmente colocado no mercado. “Ele deveria reduzir (as ofertas) aos lotes mínimos ou suspender os leilões da próxima semana”, defende um gestor de renda fixa, sob condição de anonimato. Para ele, a situação atual é diferente de março, já que o posicionamento dos investidores no mercado de juros é bem menor e, portanto, o Tesouro não precisará prover liquidez por meio de um leilão de recompra. Naquela ocasião, parte da atuação enérgica do Tesouro se explicou porque a aposta majoritária dos fundos locais era na queda das taxas futuras e, com a guerra, vários gestores foram “stopados” e precisaram ser “resgatados”. “[O Tesouro] Precisa ser ativo no curto prazo. As posições em juros estão muito menores do que em março e o Tesouro ainda precisa se financiar”, pondera o profissional. Na avaliação de Luis Felipe Vital, chefe de estratégia macro e dívida pública da Warren Investimentos, além de um posicionamento técnico menos estressado, não há um choque de expectativas tão grande como o que ocorreu em março, quando o salto dos preços do petróleo começou a jogar dúvidas sobre o ciclo de cortes da Selic que o mercado esperava. “A dúvida deixou de ser ‘quando’ os cortes ocorrerão e passou a ser ‘se’ eles ocorrerão. Isso volta a pressionar o mercado, gera desmonte de posições e acionamento de ‘stops’, mas em um ambiente muito menos posicionado do que o observado em março”, pontua Vital. Por isso, ele não enxerga necessidade de uma nova intervenção do Tesouro, mas pondera que “o acompanhamento próximo das condições de mercado” e “a disposição para agir, caso necessário” devem ser preservados. Ao comentar a volatilidade observada no pregão de sexta-feira, um gestor pondera que o mercado parece ter perdido “referência”. Isso porque, de fato, houve movimentos bastante instáveis das taxas futuras na sessão. Após abrirem a sessão em queda de 10 pontos-base em alguns vértices, os juros chegaram a salta mais de 30 pontos-base em relação aos ajustes no “miolo” da curva. O movimento, claro, foi bastante atrelado ao exterior, mas há em curso de forma concomitante uma reprecificação relevante do ciclo doméstico de ajuste na Selic, que tem forçado “stops” na curva. “O mercado perdeu referência. Seria hora do Tesouro cancelar os leilões de NTN-B e de prefixados e se dizer atento às condições de mercado”, defende. Para esse profissional, sem algum tipo de intervenção, é possível que as taxas subam ainda mais “só por fluxo”, sem novos fatores negativos a precificar. A parcela do mercado que defende outra intervenção ativa, como a de março, por ora, é minoritária, mas é praticamente consensual a ideia de que os próximos leilões do Tesouro devem vir bastante tímidos a fim de não adicionar ainda mais volatilidade às taxas. “A tendência é de uma postura mais calibrada, com maior sensibilidade aos níveis de preço e às condições de mercado”, projeta um outro gestor de renda fixa, ao enxergar uma atuação mais “seletiva” do Tesouro daqui em diante. “A estratégia parece ser acompanhar a evolução dos preços e da liquidez, evitando movimentos que possam ser interpretados como uma resposta a uma deterioração mais estrutural do cenário. A atuação deve permanecer guiada por eficiência e disciplina, ajustando o ritmo conforme o mercado incorpora novas informações.” No contexto atual, é possível que o Tesouro volte a ofertar lotes de apenas 150 mil papéis por vencimento nos leilões da semana que vem, avalia um profissional de uma importante casa da Faria Lima. Segundo ele, este é o menor volume que a entidade tem ofertado nos últimos meses e que deve ser novamente utilizado caso o mercado siga estressado nos dias dos próximos leilões - terça (9) e quinta-feira (11) da semana que vem.