A hora de integrar segurança, direitos, educação e trabalho não é depois, é agora Barricada erguida por facção no Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio — Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo/28/10/2025 RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 04/06/2026 - 10:55 Prioridade: Integrar Segurança, Direitos, Educação e Trabalho no Brasil A construção de um país próspero é inviável quando o cotidiano é dominado pela ameaça constante. Integração entre segurança, direitos, educação e trabalho deve ser prioridade imediata, não algo a ser resolvido no futuro. Este é o momento de agir para assegurar um ambiente onde esses elementos coexistam harmoniosamente, promovendo um desenvolvimento sustentável e seguro para todos. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Há muito tempo o Brasil debate crescimento, produtividade, desigualdade e competitividade, como se segurança pública fosse tema lateral. Não é. Sem ela, vidas são interrompidas, negócios encolhem, investimentos recuam, territórios são capturados pelo medo, e a democracia perde capacidade de prometer futuro. Que projeto de país pode prosperar quando nosso cotidiano é organizado pela ameaça? Em 2024, o Brasil registrou 20,8 mortes violentas intencionais por 100 mil habitantes. Já foi pior: em 2017, essa taxa era de 31,2, a maior da série iniciada em 2012 no Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Mas os dados seguem preocupantes. Além disso, sabemos que a violência recai de forma desproporcional sobre grupos vulneráveis, em especial a juventude negra. A insegurança aumenta também diante do medo de crimes na rua, ainda que também estejam em queda. E não podemos jamais normalizar o controle de territórios inteiros por grupos criminosos, que interferem até na prestação de serviços, alimentando uma cadeia de ilegalidade muito além do tráfico. Portanto, uma nova estratégia de desenvolvimento precisa afirmar que segurança pública é, ao mesmo tempo, política econômica, social, urbana, educacional e climática. Sim, até climática, pois na Amazônia o crime organizado opera como infraestrutura de devastação. Tudo isso exige abandonar duas ilusões igualmente ruins. A primeira é a de que repressão, sozinha, resolverá o problema. A segunda é que políticas sociais bastam. Precisamos combinar repressão qualificada, corregedorias internas fortes e depuração das polícias, com inteligência policial e financeira, e prevenção territorializada com promoção de oportunidades. As evidências apontam nessa direção. Em Pernambuco, o Pacto pela Vida é associado, na literatura, a uma queda de cerca de 40% nos homicídios entre 2007 e 2013, combinando gestão por metas, monitoramento e integração institucional. Em Minas, o Fica Vivo! acumulou avaliações positivas ao articular prevenção para jovens vulneráveis, mobilização comunitária e ação estatal concentrada. No Rio Grande do Sul, o RS Seguro atua de forma integrada em quatro eixos: combate ao crime, políticas sociais preventivas e transversais, qualificação do atendimento ao cidadão e melhoria do sistema prisional. E vale recuperar, sem ingenuidade, o bom desenho original da UPP Social no Rio de Janeiro: o modelo nasceu para associar retomada territorial e policiamento de proximidade (UPPs), com coordenação de serviços públicos, ações sociais e desenvolvimento econômico local. O erro brasileiro não foi apenas de implementação; foi também descartar por inteiro uma concepção que, no papel, articulava repressão, prevenção e oportunidades, além de negligenciar uma reforma policial. A lição é cristalina: o Estado precisa agir simultaneamente em tabuleiros paralelos. No plano transnacional, enfrentando fluxos de armas, drogas, ouro ilegal, lavagem e mercados ilícitos —que atravessam fronteiras. No nacional, coordenando inteligência, metas, dados e padrões institucionais, e revendo a política — ineficaz — de encarceramento em massa de pequenos varejistas do tráfico ou de meros usuários. E no local, com ação territorializada, bairro a bairro, periferia a periferia, articulando escola, saúde, assistência, urbanismo, cultura, emprego e presença policial legítima. O crime opera em rede. Por que o Estado insiste em agir em silos? O Brasil está diante de uma escolha histórica. Ou seguirá tratando a segurança como um apêndice do medo eleitoral — abrindo margem para que grupos políticos explorem isso oferecendo falsas soluções autoritárias para um problema complexo — ou a assumirá como eixo de um novo projeto de desenvolvimento inclusivo. A hora de integrar segurança, direitos, educação e trabalho não é depois. É agora. *Ricardo Henriques é economista, superintendente executivo do Instituto Unibanco, professor associado da Fundação Dom Cabral e presidente do conselho da Anistia Internacional Brasil