Portugal chegou a 2025 sem ter cumprido na totalidade nenhum dos 17 Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 das Nações Unidas. A conclusão consta da 8.ª edição do relatório Objectivos de Desenvolvimento Sustentável 2015–2025, publicado esta quinta-feira pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), que faz o balanço de uma década de esforços nacionais para alcançar um modelo de desenvolvimento mais justo e sustentável.A avaliação não é feita objectivo a objectivo, mas sim indicador a indicador. Dos 189 indicadores globais analisados, 23 já atingiram integralmente a meta estabelecida, inseridos num grupo mais alargado de 105 que registaram uma evolução globalmente positiva. Portugal demonstrou capacidade real de transformação em áreas como a energia, a água e a inovação — e nalguns casos alcançou metas que países com mais recursos ainda não conseguiram.O retrato fica menos animador quando se olha para os restantes: 38 indicadores afastaram-se das metas, dez não registaram qualquer alteração na última década e 36 não são sequer passíveis de avaliação, por ausência de dados ou irregularidade nas séries estatísticas. Os retrocessos na qualidade da aprendizagem, na igualdade de género e na protecção dos oceanos revelam que o crescimento económico e o desenvolvimento legislativo não foram suficientes para mudar realidades estruturais.Energia, água e inovação lideramO relatório identifica três objectivos onde Portugal se destaca positivamente, com mais de 70% dos indicadores a evoluírem na direcção certa.O melhor desempenho global pertence à Energia Limpa e Acessível (ODS 7), com 80% dos indicadores com evolução favorável. Para além da meta de acesso universal à electricidade, já integralmente cumprida, as fontes renováveis atingiram 36,5% do consumo final bruto de energia em 2024. O ritmo, porém, terá de acelerar para cumprir a ambiciosa meta nacional de 51% fixada para 2030.A Água Potável e Saneamento (ODS 6) segue-se com 75% dos indicadores em trajectória positiva. A qualidade da água para consumo manteve-se em níveis de excelência (98,9% de água segura em 2024), a proporção da população sem condições básicas de saneamento reduziu-se para apenas 0,2% em 2025, e a totalidade das bacias hidrográficas transfronteiriças está já abrangida por acordos de cooperação.No campo da Indústria, Inovação e Infra-estruturas (ODS 9), 72,7% dos indicadores registaram evolução favorável. Os avanços concentram-se na investigação e inovação: Portugal tem hoje mais investigadores por habitante e investe mais dinheiro em Investigação e Desenvolvimento (I&D). Além disso, a nossa economia está a tornar-se mais verde: para gerar a mesma riqueza, as empresas poluem hoje menos (libertando menos dióxido de carbono para a atmosfera) do que em 2015.Para além deste grupo de topo, o INE assinala um conjunto de objectivos com progresso satisfatório, onde 60% a 67% dos indicadores evoluíram favoravelmente: Parcerias para a Implementação dos Objectivos (ODS 17, com 66,7%), Saúde de Qualidade (ODS 3, com 64,0%) e ainda da Redução das Desigualdades (ODS 10), da Acção Climática (ODS 13) e de Erradicar a Fome (ODS 2), todos com 60,0%.O que já foi alcançadoEntre as metas integralmente cumpridas, o relatório destaca realizações em domínios tão distintos como biodiversidade e direitos humanos. Na eficiência de recursos, o consumo interno de materiais por unidade de PIB já atingiu a meta nacional estipulada. No plano da governação urbana, o país cumpriu o objectivo relativo à existência de estruturas de participação directa da sociedade civil no planeamento e gestão das cidades.Na protecção do mar, Portugal cumpriu desde 2022 a meta sobre o enquadramento legal que reconhece e protege o direito de acesso da pequena pesca aos recursos e mercados. Na vida terrestre, foram cumpridas metas estruturais como a adopção de legislação para o controlo de espécies invasoras e a integração de metas de biodiversidade nas contas nacionais.No capítulo das instituições, Portugal atingiu a meta relativa às garantias constitucionais para o acesso público à informação e mantém instituições de direitos humanos conformes com os Princípios de Paris.Maior risco de atrasoO documento identifica claramente a Educação de Qualidade (ODS 4), a Igualdade de Género (ODS 5) e a Protecção da Vida Marinha (ODS 14) como as áreas onde o país regista os retrocessos mais preocupantes.Na educação, o desempenho é “globalmente desfavorável”: apenas 44,4% dos indicadores registaram evolução positiva e 33,3% pioraram. O dado mais preocupante vem do programa PISA: a proporção de alunos com competências mínimas em leitura caiu de 82,8% em 2015 para 76,8% em 2022, e em matemática de 76,2% para 70,2%. O INE aponta ainda fragilidades nas infra-estruturas tecnológicas das escolas.O contraste com os avanços nas taxas de conclusão — 96,1% no ensino básico e 90,4% no secundário em 2023/2024 — e na universalização do pré-escolar revela um sistema que inclui mais alunos, mas que não consegue garantir que todos aprendam com a mesma qualidade.Em matéria de igualdade de género, apenas 25% dos indicadores avaliáveis registaram evolução favorável. O INE sublinha que a persistência da violência de género constitui um dos aspectos mais preocupantes: em 2022, 22,5% das mulheres entre os 18 e os 74 anos declararam ter sofrido violência em contexto de intimidade. Portugal regista um bom desempenho na implementação de quadros legais para a igualdade, mas as estatísticas confirmam que a lei não foi suficiente para eliminar disparidades profundas na participação política, nas funções de poder e na exposição das mulheres à violência.Quanto à vida marinha, 60% dos indicadores apresentaram progresso negativo. A área protegida manteve-se estagnada nos 7% entre 2017 e 2024, muito aquém da meta internacional de 30% para 2030 — se bem que, no último ano, o Governo tenha anunciado a criação de novas áreas marinhas protegidas que colocam este indicador no bom caminho.O financiamento para a investigação científica ligada ao mar, ao contrário da tendência geral, diminuiu de 2,1% para 1,7% entre 2016 e 2022. Além disso, a quantidade de espécies de peixe geridas com medidas de precaução (por falta de dados completos) baixou de 66,6% para 50,0%. Ainda assim, o INE destaca uma boa notícia: no Continente, todos os grupos de peixes (100%) que são estudados de forma mais rigorosa já são pescados de forma sustentável, sem colocar em risco a sua capacidade de reprodução futura.