Portugal melhorou a sua pontuação no mais recente relatório global sobre desenvolvimento sustentável e mantém-se entre os 20 melhores países do mundo nessa matéria. A 11.ª edição do Relatório de Desenvolvimento Sustentável, que avalia 169 nações com base nos 17 Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas, põe o país na 17.ª posição, com 81,1 pontos, acima da média dos países da OCDE, fixada nos 78,2. Desde que a Agenda 2030 foi adoptada, em 2015, Portugal ganhou quase três pontos, numa evolução lenta mas consistente.No contexto europeu, o país fica atrás dos países nórdicos e de nações como a Alemanha, França e Espanha, que ocupa o lugar imediatamente acima de Portugal, com apenas uma décima de diferença, uma margem que convida à reflexão sobre o que pode ainda ser feito.Por outro lado, Portugal supera a Bélgica, os Países Baixos, a Irlanda, a Itália e mais de uma dezena de outros Estados-membros da União Europeia, incluindo a Grécia, a Roménia e Chipre. A Finlândia, a Suécia e a Dinamarca continuam a dominar os três primeiros lugares mundiais, e 16 das 20 primeiras posições do índice são preenchidas por países da União Europeia.Desafio na educação, alerta nos resíduosAs maiores conquistas estão na erradicação da pobreza e no acesso à água potável e saneamento, os únicos domínios classificados pela Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável (SDSN) das Nações Unidas como metas já alcançadas em Portugal (se bem que os dados mais recentes do INE não contem a mesma história).Nas infra-estruturas e inovação, o país também apresenta uma evolução fortemente favorável: 88,5% da população tem acesso à Internet, as subscrições de banda larga cresceram, o desempenho logístico melhorou e o número de investigadores aumentou (embora subsista a precariedade na ciência).Em matéria climática, Portugal adoptou uma taxa efectiva de carbono (também conhecida como imposto sobre o carbono, e que incide sobre os combustíveis fósseis) das mais rigorosas da Europa, e as emissões de CO2 per capita estabilizaram nas 3,4 toneladas, um valor relativamente baixo no contexto europeu.Entre as áreas onde persistem desafios significativos estão a educação, a igualdade de género, as cidades sustentáveis e as instituições de paz e justiça. Na administração pública, apesar do bom controlo da criminalidade, verificam-se retrocessos na celeridade dos processos administrativos e na adequação das compensações por expropriação.Nas cidades, a sobrecarga com os custos de habitação é um constrangimento concreto e mensurável: 19% da população gasta uma proporção excessiva do rendimento em renda.Um domínio assinalado com o alerta máximo no relatório é o consumo e produção responsáveis, onde os principais problemas são a elevada geração de lixo electrónico (11,9 quilos per capita) e a exportação de resíduos plásticos (5,8 quilos per capita). A estes acresce uma pegada ambiental indirecta que atravessa fronteiras: Portugal é responsável por 20,2 metros quadrados per capita de desflorestação importada noutros territórios, um indicador que mede o impacto do nosso consumo em florestas.O retrocesso mais preocupante ocorre na protecção da vida marinha, onde quase todos os indicadores pioraram. Numa nação com uma das maiores jurisdições oceânicas da Europa, os dados são difíceis de ignorar: o índice de qualidade das águas diminuiu, quase 69% do peixe capturado provém de stocks sobreexplorados ou colapsados, e agravaram-se tanto a percentagem de capturas por arrasto ou dragagem como as taxas de peixe devolvido ao mar.Europa lidera, mas exporta problemasO panorama global traçado pelo relatório é também de alerta. A menos de quatro anos do prazo final, a SDSN estima que apenas 16% das metas da Agenda 2030 serão cumpridas. Os objectivos mais atrasados concentram-se nos sistemas alimentares, nas cidades, no ambiente e na paz. O ritmo de progresso na União Europeia abrandou de forma marcada: na primeira metade desta década, o avanço foi menos de metade do verificado no período pré-pandemia.Há ainda uma contradição que o relatório não deixa passar em claro: a Europa lidera o índice, mas exporta impactos negativos para o resto do mundo através de padrões de consumo e cadeias de abastecimento que geram desflorestação importada, transferência de lucros, exportação de resíduos e casos de trabalho forçado noutros países. Parte considerável do “bom desempenho” europeu assenta, portanto, em custos que são pagos por outros.Entre os países que mais avançaram desde 2015, a Índia registou a maior subida no ranking, com a Etiópia, a Indonésia e a China a seguirem de perto. As Filipinas e o Vietname são também citados como casos de avanço muito acelerado. Este progresso assenta sobretudo em melhorias socioeconómicas, não em objectivos ambientais — uma distinção importante, que recorda que o desenvolvimento sustentável tem múltiplas dimensões e que os países mais pobres estão ainda, em grande medida, a resolver as suas necessidades mais básicas.Em sentido inverso, os EUA e a Nigéria registaram as maiores perdas desde 2015.Olhar pós-2030O relatório introduz ainda um novo índice que mede o compromisso dos países com o sistema multilateral das Nações Unidas. Portugal regista um resultado acima de dois terços da escala, com tendência de subida. Barbados lidera o ranking global; os Estados Unidos ocupam o último lugar.Em Janeiro de 2026, Washington retirou-se de mais de 60 organizações internacionais e votou formalmente contra os ODS e o Acordo de Paris, um sinal que o relatório descreve como parte de uma oposição activa, por parte de uma minoria de países, ao próprio paradigma do desenvolvimento sustentável. É um contexto geopolítico que torna mais difícil, e também mais urgente, o trabalho que resta fazer.Para a era pós-2030, o relatório define oito prioridades. A primeira é acabar com as guerras em curso e reorientar as despesas militares para o desenvolvimento humano. Seguem-se o estabelecimento de um cronograma ambicioso de implementação dos ODS, a organização da acção em torno de grandes transformações sistémicas e a adopção de planos de investimento de longo prazo. O relatório defende também o reforço da cooperação a todos os níveis, com a criação de novos centros das Nações Unidas na Ásia, África e América Latina.Uma das grandes inovações propostas é a introdução de novos impostos globais sobre transacções financeiras, emissões de carbono, aviação internacional, publicidade digital e grandes patrimónios, destinados a financiar aquilo que nenhum país pode garantir sozinho.A lógica é simples: da mesma forma que os impostos nacionais financiam defesa, justiça e educação, a comunidade internacional precisa de contribuições obrigatórias para sustentar bens públicos globais. O défice anual de financiamento dos ODS nos países em desenvolvimento estima-se entre 2,5 e quatro biliões de dólares (2,2 e 3,5 biliões de euros), um valor que torna evidente a inadequação do actual modelo de contribuições voluntárias.Completam a lista a criação de regras globais para a inteligência artificial e outras tecnologias emergentes, e a responsabilização efectiva dos países ricos pelos impactos negativos que exportam para as regiões mais pobres.