A recomendação do Escritório de Comércio dos Estados Unidos para que o Brasil seja sancionado com tarifas comerciais e a classificação do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas não significa interferência de Donald Trump no processo eleitoral brasileiro, na opinião de Christopher Garman, diretor executivo para as Américas da Eurasia. De acordo com Garman, essa interferência ainda está por acontecer, e virá com um endosso formal do presidente americano Donald Trump à candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O que houve por ora, de acordo com Garman, está mais relacionado com a eleição congressual nos Estados Unidos em novembro, para as quais o Partido Republicano de Trump está em desvantagem. "A Casa Branca vai se voltar para a América Latina depois de resolvida a guerra com o Irã dentro de uma estratégia ampla para validar as políticas de Trump em relação à imigração. Neste sentido, vincular suas ações ao combate contra o narcotráfico reforçam sua mensagem aos eleitores americanos", diz Garman. O diretor da Eurasia lembra que os Estados Unidos já classificaram como terroristas facções de seis países: México, Haiti, Colômbia, Venezuela, Equador e El Salvador. Os dois últimos aliados políticos incondicionais da Casa Branca. "As repercussões econômicas desta classificação nestes países até o momento são menores do que as que se projetam para o Brasil. Aumentou o custo de compliance, mas não afugentou investimentos no México. No Brasil não deve ter a mesma escala", aposta. As possíveis sanções no âmbito da Seção 301, inclusive em relação ao Pix, também não estão vinculadas diretamente à situação política brasileira, em sua opinião. "A decisão está dentro de uma estratégia global dos Estados Unidos de reconstituir as barreiras tarifárias derrubadas pela decisão da Suprema Corte", afirmou, em uma referência à decisão do Judiciário americano de impedir tarifas generalizadas sem aprovação do Congresso no âmbito da Ieepa (lei de poderes econômicos de emergência institucional). Garman diz que o Brasil pode ter um tratamento pior do que o de outros países pela dureza do governo Lula nas negociações, e não pela conjuntura política. "O uso da seção 301 como retaliação está no radar desde julho, e tornou-se muito provável depois da decisão da Suprema Corte. Apesar disso, o governo brasileiro não fez as concessões que o governo americano esperava. Caberia ao Brasil ser proativo para evitar o que estava vindo", comentou. O diretor da Eurasia, acredita, contudo, que o ambiente eleitoral politizou irremediavelmente as decisões da Casa Branca. "A minha percepção é que a declaração do PCC e do CV colocavam o Planalto em uma situação difícil perante a opinião pública, mas o uso de sanções com base na Seção 301 claramente beneficiam Lula. Com isso o placar fica 1 a 1 e o governo joga com a vantagem do empate", disse.