Outros cinco estados tiveram prévias esta semana e oferecem pistas para o pleito de meio de mandato. Pela primeira vez em nove anos, candidato majoritário apoiado por Trump perde entre republicanos Candidato democrata Xavier Becerra aparece à frente entre os democratas nas primárias para o governo da Califórnia e pode ser o primeiro latino a governar estado com economia do tamanho da do Japão — Foto: Frederic J Brown/ AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 04/06/2026 - 13:25 Moderados Avançam nas Primárias dos EUA: Democratas e Republicanos em Destaque na Califórnia Nas primárias nos EUA, moderados do Partido Democrata avançam na Califórnia, enquanto o Partido Republicano registra, pela primeira vez em nove anos, a derrota de um candidato apoiado por Trump. A corrida para o controle do Congresso em novembro e o cenário para 2028 ganham forma. Na Califórnia, Becerra, democrata moderado, e Hilton, republicano, lideram. Em outros estados, como Novo México e Nova Jersey, candidatos moderados também se destacam, refletindo uma tendência pragmática nas disputas eleitorais. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Os resultados das primárias realizadas na última terça-feira em seis estados americanos, com apuração lenta e ainda em curso no maior deles, a Califórnia, oferecem pistas importantes para as eleições de meio de mandato, daqui a cinco meses. Nas prévias do Partido Democrata prevaleceu o pragmatismo. Já nas do Partido Republicano, registrou-se a primeira vitória, em nove anos, de um candidato para cargo majoritário sem apoio do cada vez mais impopular Donald Trump. Em novembro estará em jogo o controle do Congresso e o fôlego da guinada à extrema direita no país do Trump 2.0, com o início extraoficial da corrida para a Casa Branca em 2028. As consultas internas desta semana ocorreram ainda em Nova Jersey, Novo México, Iowa, Montana e Dakota do Sul. As da Califórnia, no entanto, são as únicas batizadas, na peculiar gramática política americana, de “primárias da selva”. Diferentemente das demais, nelas se vota no candidato preferido sem restrição partidária. Os dois primeiros, ainda que filiados à mesma sigla, seguem para disputas mano a mano em novembro. Para governador, com 56% dos votos apurados, aparecem à frente o republicano Steve Hilton, com 27,6%, e o democrata Xavier Becerra, com 25,6%. O bilionário Tom Steyer aparece em terceiro, com 19,8%. Ele desembolsou mais de US$ 200 milhões (R$ 1 bilhão) de sua fortuna na campanha, um recorde em disputas locais, e atraiu, curiosamente, a esquerda, com plataforma que incluía a taxação dos mais ricos, como ele. Mas o grosso dos votos a serem apurados foram os sufragados com antecedência, pelos Correios, em sua maioria em redutos de Becerra. Por isso ele e Hilton, e nessa ordem, devem seguir para a disputa final. Hilton é um imigrante britânico de origem húngara, âncora da Fox News responsável pela estratégia de modernização do Partido Conservador na virada da década passada que levou ao governo David Cameron. É apoiado por Trump e pela militância do Faça os EUA Grandes Novamente (Maga, na sigla em inglês). Já Becerra, com família de origem mexicana, foi ministro da Saúde do ex-presidente Joe Biden e líder dos democratas na Câmara, afinado com a cúpula do partido. Também foi Procurador-Geral da Califórnia, quando sucedeu a ex-vice presidente Kamala Harris, com histórico de confronto jurídico contra o primeiro governo Trump, que não o tolera. Se eleito, será o primeiro hispânico a comandar o estado, que tem 35% da população de origem latina. Os latinos foram o estrato mais afetado pela política de deportação em massa de pessoas sem documentação devida do Trump 2.0, com abusos documentados e a ocupação militar federal de Los Angeles, no ano passado, após a série de protestos contra os agentes da Alfândega e Imigração (ICE, na sigla em inglês) . O envio de tropas pela Casa Branca se deu sem consentimento dos líderes locais e aumentou o conflito aberto entre o atual governador, Gavin Newsom, do Partido Democrata, e Trump. Governador da Califórnia, Gavin Newsom, em discurso no Texas — Foto: Annie Mulligan/The New York Times O cálculo arriscado de Newsom Impedido de disputar um terceiro mandato, Newsom não apoiou um sucessor. À frente nas enquetes internas do Partido Democrata para a Casa Branca em 2028, sua lógica parecia à prova de erros. Afinal, não desagradou moderados ou progressistas e evitou se comprometer com nomes estrelados cogitados para o cargo, capazes de lhe fazer sombra no futuro ao controlarem a máquina do estado, com um PIB equivalente ao do Japão. Um dos que perderam tração sem seu aval foi o de Kamala. Ele só não imaginava a entrada de sete democratas na corrida, e menos ainda a possibilidade de dois republicanos, de forma inédita, rumarem para a disputa em novembro, como registraram pesquisas mês passado. — Newsom escapou de um vexame e agora vê Becerra, um democrata moderado e sem ambição nacional, se tornar o favorito para vencer em novembro. Os californianos votaram sem paixão e escolheram quem parecia ter mais condições de vencer o trumpismo — afirmou ao GLOBO o cientista político Jonathan K. Hanson, professor emérito da cadeira Gerald Ford da Universidade de Michigan. Poucos duvidam que os votos do bilionário Steyer irão para Becerra na disputa contra Hilton. Quase metade dos eleitores na Califórnia se dizem pró-democratas e Trump teve 38% dos votos no estado em 2024. Ainda assim, os republicanos querem usar os próximos cinco meses para explorar o inevitável desgaste com 15 anos de governos democratas em sequência, desde Arnold Schwarzenegger. Se um lado aposta no anti-Trump o outro vai de anti-Newsom. Entre os pontos negativos apontados pela direita estão o aumento de pessoas vivendo nas ruas, a crise habitacional e as falhas no combate aos incêndios que têm assolado a Califórnia. Ao GLOBO um estrategista republicano disse, de forma reservada, que mesmo que não vença, Hilton, será incentivado pela Casa Branca a bater duro, inclusive abaixo da cintura, em Becerra e Newsom. Sua ida à eleição geral, avalia, ajudará os trumpistas na disputa, cadeira a cadeira, pelo controle da Câmara. Em novembro, o atual governador conseguiu aprovar, pelo voto, o redesenho dos distritos eleitorais da Califórnia, com o objetivo de garantir mais cinco cadeiras para os democratas. Ainda é cedo na apuração para confirmar a efetividade da estratégia. Em outra disputa relevante no estado, pelo comando de Los Angeles, a segunda maior cidade do país, a prefeita Karen Bass, apoiada pelo comando do Partido Democrata, deve enfrentar em novembro a surpresa republicana Spencer Pratt, estrela de diversos reality shows televisivos. Para vencer em novembro, no entanto, ele precisará conquistar os votos da terceira colocada, a vereadora socialista Nithya Raman, que, matematicamente ainda tem chances de surpreender na reta final, com 62% dos votos já apuradas. De qualquer forma, uma vez mais, o centro chegou na frente. Também foi assim no Novo México, estado que vota majoritariamente democrata. O senador Ben Ray Luján teve 84% dos votos nas prévias democratas de terça-feira e venceu o socialista Matt Dodson. Para o governo, a ex-ministra do Interior de Joe Biden, Deb Haaland, outra moderada, teve mais de 70% dos votos e deverá ser a primeira indígena a comandar o estado do Sudoeste americano. Já em Nova Jersey, a também moderada Rebecca Bennett, militar da reserva, tentará tirar o republicano Thomas Kean Jr. de sua cadeira na Câmara em uma das disputas mais inusitadas deste ciclo eleitoral, por conta do desaparecimento do congressista. Desde março Kean Jr. não aparece no Capitólio. Na terça, divulgou mensagem informando estar bem e que revelará a doença que o aflige “nos próximos meses”. Mistério que não impediu o apoio de Trump à sua reeleição. Disputa esquenta nos rincões rurais A guinada ao centro do Partido Democrata não foi total. Na mesma Nova Jersey, a esquerda confirmou a aposta na reeleição da organizadora política Analilia Mejia para a Câmara e, em distrito vizinho, que inclui a Universidade de Princeton, venceu as prévias seu aliado Adam Hamawy. Militar da reserva e cirurgião plástico, ele trabalhou como voluntário em Gaza e foi das vozes mais duras contra o apoio dos EUA a Israel nos anos Biden. Se eleito em novembro, encontrará no Capitólio a senadora Tammy Duckworth, também democrata, do Illinois, cuja vida foi salva justamente por ele durante combate no Iraque. Em Montana, o sindicalista e bombeiro paraquedista Sam Forstag se tornou uma das novas estrelas da esquerda ao vencer as primárias para a Câmara contra um empresário da indústria bélica. Ele é uma das apostas dos progressistas em distritos da América Profunda, há décadas sequer disputados pelos democratas. Pesquisas registram crescente insatisfação de trabalhadores rurais com os efeitos dos tarifaços nos negócios e no mercado de trabalho. Estado rural no coração do Meio-Oeste, Iowa deu vitória a Trump há dois anos com vantagem de 13% sobre Kamala, mas as consultas mostram que as quatro cadeiras do estado na Câmara estão agora em jogo. Para o Senado, no entanto, prevaleceu na terça o moderado Josh Turek, veterano de guerra e campeão paraolímpico, que derrotou o favorito da esquerda. Deputado estadual, ele venceu as duas eleições que disputou anteriormente, em áreas de maioria conservadora. — Os resultados desta semana não resolveram a guerra interna no Partido Democrata. Com alguma razão, os progressistas apontam o prazo de validade curto da estratégia dos moderados ao apostarem em uma eleição plebiscitária, anti-Trump. Eles alertam para a importância de se oferecer aos eleitores de classe média e baixa, que migraram do partido rumo ao Maga na última década, uma receita concreta para combater bolsos vazios e o custo de vida cada vez mais alto. Por outro lado, o cabo-de-guerra interno arrisca diminuir o tamanho de uma eventual onda azul [em referência à cor dos democratas] em novembro – afirma ao GLOBO o cientista político David Schultz, da Universidade Hamline, do Minnesota, catedrático em ética na política americana. No flanco republicano, Trump amargou, também em Iowa, uma rara, mas significativa derrota na terça-feira. Nas primárias para o governo do estado, o fazendeiro Zach Lahn, neófito e que concorreu à direita do candidato ungido pelo presidente, bateu o deputado Randy Feenstra, campeão do Maga. Na campanha, o vitorioso prometeu defender “as pessoas do campo deixadas hoje ao léu” e se apresentou como inimigo dos “cartéis instalados em Washington”. Um candidato a cargo majoritário apoiado pelo atual presidente não perdia uma prévia há nove anos. A derrota de Feenstra esta semana arqueou sobrancelhas dos dois lados do tabuleiro político americano.
Eleições nos EUA: moderados avançam em primárias democratas na Califórnia, mas disputa interna ameaça ‘onda azul’
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