A história da primeira mulher trans do Brasil colonial é uma saga que abrange três continentes, o confronto entre a Inquisição e as religiões tradicionais da África e a trajetória trágica do reino do Congo, monarquia africana que se tornou oficialmente católica, mas nem por isso escapou da sanha escravista dos portugueses.

A documentação que permite reconstruir uma pequena parte da biografia de Xica Manicongo, como a personagem histórica ficou conhecida recentemente, está registrada em português do século 16 e italiano do século 17.

Mas o antropólogo e ativista Luiz Mott, de 80 anos, decidiu inserir outro ingrediente nessa salada linguística. Trata-se do pajubá, dialeto com influências do idioma iorubá empregado por travestis, mulheres trans e gays na mesma Salvador em que a "traviarca" (matriarca trans) viveu há mais de 400 anos.

"Normalmente, o meu jeito de escrever é mais tradicional. Gosto de latinismos e expressões antigas —a inteligência artificial vive me corrigindo por isso. Mas, como quero que a história atinja a população-alvo, as transsexuais e travestis, optei por ser jocoso, irreverente, e por dialogar com o leitor de forma menos convencional", diz Mott à Folha. "Xica Manicongo, se fosse nossa contemporânea, certamente seria craque em pajubá."