A União Europeia apresentou nesta quarta-feira um amplo plano para expandir suas cadeias domésticas de suprimento tecnológico, buscando maior independência dos Estados Unidos e da Ásia em áreas como semicondutores, inteligência artificial e computação em nuvem. O braço executivo do bloco, a Comissão Europeia, anunciou uma série de medidas para fortalecer a chamada “soberania tecnológica” e incentivar o uso de produtos locais em detrimento de alternativas estrangeiras. As propostas podem ter implicações significativas, desde os subsídios disponíveis para fábricas de chips até a possibilidade de empresas como a Microsoft e a Amazon fornecerem serviços de nuvem para armazenar dados governamentais sensíveis. Uma postura mais protecionista da União Europeia pode aumentar as tensões com os Estados Unidos e a China. Washington já criticou regulamentações consideradas discriminatórias contra empresas americanas de tecnologia, como a Lei de Serviços Digitais da União Europeia (Digital Services Act), e chegou a ameaçar retaliações. O retorno do presidente Donald Trump à Casa Branca e a deterioração das relações transatlânticas intensificaram preocupações antigas sobre a dependência excessiva de empresas americanas de tecnologia. O temor de que Washington pudesse restringir o acesso a serviços essenciais de nuvem e software levou algumas cidades da Dinamarca a substituir produtos da Microsoft por alternativas de código aberto. A Comissão Europeia também classificou centros de dados e equipamentos de rede chineses como potenciais ameaças à segurança. — Todos perceberam como é importante não depender de um único país ou de uma única empresa quando se trata de tecnologias críticas — afirma Henna Virkkunen — Essas dependências podem ser usadas contra nós. Lei para Nuvem e Inteligência Artificial O principal elemento do plano é a Lei de Desenvolvimento de Nuvem e IA (Cloud and AI Development Act, ou CADA), que pretende estimular a construção de centros de dados europeus e triplicar a capacidade instalada do continente nos próximos cinco a sete anos. O setor europeu de computação em nuvem, responsável pela infraestrutura digital que sustenta atividades on-line e aplicações de IA, é atualmente dominado por empresas americanas. Segundo estudo encomendado pelo Parlamento Europeu, os serviços Amazon Web Services, Microsoft Azure e Google Cloud concentram mais de 70% do mercado da União Europeia. Pela proposta, governos seriam obrigados a armazenar dados críticos em serviços de nuvem pertencentes a empresas europeias e realizar avaliações obrigatórias de “risco de soberania” de seus fornecedores. A intenção é proteger informações de legislações estrangeiras, como o Cloud Act dos Estados Unidos, que permite às autoridades americanas exigir dados armazenados por empresas dos EUA, mesmo quando os servidores estão localizados no exterior. Os provedores seriam classificados em uma escala de quatro níveis de soberania, baseada no grau de controle europeu sobre seus serviços, cadeia de suprimentos, processamento de dados e infraestrutura física. Algumas empresas americanas já se antecipam a regras mais rígidas. O Google firmou parceria com a empresa francesa Thales para criar a joint venture S3NS. Recentemente, a Comissão Europeia selecionou a S3NS como uma das quatro empresas autorizadas a fornecer serviços de nuvem para instituições da UE. Microsoft e Amazon também lançaram soluções de “nuvem soberana” na Europa. Reformulação da Lei dos Chips O pacote também inclui uma reformulação da Lei dos Chips (Chips Act), em vigor desde 2023, criada em resposta à escassez global de semicondutores durante a pandemia de Covid-19 e destinada a ampliar a participação europeia na produção mundial. No entanto, o órgão de auditoria da União Europeia afirmou no ano passado que o bloco dificilmente alcançará a meta de dobrar sua participação de mercado até 2030. Batizada de “Chips Act 2.0”, a nova versão recomendará que a Comissão Europeia possa investir diretamente em grandes projetos transfronteiriços, oferecendo às empresas uma forma mais simples de obter financiamento público do que por meio de subsídios nacionais. O objetivo também é estimular a demanda local para fortalecer a viabilidade econômica de novas fábricas de semicondutores. Os investimentos serão realizados por meio de programas de subsídios já existentes até 2028. Após esse período, novos recursos dependerão do próximo orçamento plurianual da União Europeia, ainda em negociação. A Comissão estima que serão necessários € 120 bilhões (US$ 139 bilhões) em investimentos públicos e privados até 2035 para revitalizar a indústria europeia de semicondutores. Software aberto e energia O pacote de soberania tecnológica também prevê uma estratégia para incentivar a adoção de softwares de código aberto desenvolvidos na União Europeia, além de um plano para garantir que novos centros de dados e fábricas de IA sejam integrados de forma sustentável às redes elétricas do bloco. A Europa possui algumas empresas líderes mundiais em tecnologia. A holandesa ASML é a única produtora das máquinas de litografia mais avançadas do mundo, essenciais para fabricar semicondutores de ponta, incluindo os aceleradores da Nvidia utilizados no treinamento e operação de modelos de IA em data centers. Ainda assim, a presença europeia nas cadeias globais de software e hardware continua muito menor do que a dos Estados Unidos e da Ásia. Em conversa com jornalistas, Virkkunen reconhece que construir alternativas às tecnologias estrangeiras será um processo longo e complexo. Segundo ela, resultados significativos só deverão aparecer a partir de 2030. — 80% das nossas tecnologias vêm de fora da Europa. Não construiremos essa capacidade da noite para o dia — afirma. Riscos do plano A União Europeia insiste que a iniciativa não deve ser interpretada como protecionista. O documento afirma que soberania tecnológica “não significa isolamento, protecionismo ou desacoplamento tecnológico”. No entanto, regras que excluam fornecedores estrangeiros podem gerar escassez de tecnologias críticas caso as alternativas europeias não tenham a mesma capacidade ou alcance. Além disso, as medidas podem provocar retaliações dos Estados Unidos e da China. Para Leonardo Quattrucci, a UE não possui escala suficiente para dominar toda a cadeia de inteligência artificial, como fazem EUA e China. — A União Europeia não tem tamanho para controlar toda a infraestrutura de IA. Se o pacote de soberania tecnológica impor padrões excessivamente restritivos, grandes empresas venderão seus produtos em outros mercados, parceiros comerciais serão afastados e os europeus deixarão de ter acesso às melhores ferramentas — conta. Outro desafio é a lentidão do processo decisório europeu. As principais propostas de soberania tecnológica deveriam ter sido apresentadas em março, mas sofreram vários adiamentos devido à resistência de governos nacionais e críticas do próprio conselho de supervisão da Comissão Europeia. Mesmo após sua publicação, os projetos ainda precisarão passar por diversas rodadas de negociação entre os governos da União Europeia e o Parlamento Europeu antes de serem aprovados — um processo que pode levar vários meses.