Jovens de até 24 anos são maioria entre aqueles que consomem alimentos associados ao risco de câncer sem intenção de reduzir o hábito, aponta a pesquisa Mais Dados Mais Saúde, divulgada nesta quarta-feira (3). Entre eles, 32,3% não pretendem diminuir o consumo de ultraprocessados, 29,5% de embutidos, 24,4% de bebidas adoçadas e 49,1% de carne vermelha. A resistência também é visível no consumo de bebidas alcoólicas, com 16,9% afirmando que não pretendem mudar o hábito. A mesma resposta foi dada por 8,7% das pessoas de 25 a 59 anos e por 7,1% daqueles com mais de 60 anos. Além disso, apenas 62,6% dos jovens reconhecem o álcool como fator de risco para o câncer, a menor proporção entre todas as faixas etárias. Os números são ainda mais baixos para a carne vermelha (22,4%) e alimentos ultraprocessados (55,3%). Luciana Moreira, chefe da Área Técnica de Alimentação, Nutrição, Atividade Física e Câncer do Instituto Nacional de Câncer (INCA), afirmou que os hábitos alimentares e o consumo de bebidas alcoólicas vão além de escolhas individuais e também são resultado de um ambiente que estimula constantemente o consumo desses produtos. "São produtos amplamente divulgados, fáceis de encontrar e, muitas vezes, mais baratos do que opções mais saudáveis. A praticidade e o custo mais baixo acabam sendo fatores determinantes para os jovens, que frequentemente convivem com uma rotina acelerada e orçamento limitado. Outro aspecto importante é a influência do ambiente de consumo. Os jovens estão especialmente expostos às estratégias de marketing nas redes sociais, nos aplicativos de entrega e por meio de influenciadores digitais, o que contribui para a normalização do consumo desses produtos", afirma Moreira. Na avaliação dela, a conscientização sobre alimentação saudável aumentou nos últimos anos, mas muitas pessoas ainda não associam o consumo frequente de alimentos ultraprocessados ao excesso de peso, ao aumento do risco de câncer e ao desenvolvimento de outras doenças crônicas, como diabetes e doenças cardiovasculares. Entre os jovens, afirma ele, o desafio é maior, porque eles costumam perceber o câncer como algo muito distante de sua realidade. "As evidências mostram que as escolhas feitas hoje influenciam diretamente a saúde daqui a 10, 20, 30 anos. Os hábitos alimentares construídos na juventude tendem a acompanhar a pessoa na vida adulta. Quanto mais cedo um padrão de consumo se estabelece, mais difícil costuma ser modificá-lo no futuro", afirmou Moreira. Já Luciana Sardinha, diretora-adjunta de Doenças Crônicas Não Transmissíveis da Vital Strategies, destaca que é necessária uma comunicação pública, por meio de campanhas nas mídias sociais, para mudar esse comportamento. "O câncer não é reconhecido como uma doença prevenível. Então o que a gente precisa é mostrar a importância da prevenção, da promoção à saúde. E uma das promoções à saúde mais importantes é a alimentação saudável, uma ingestão rica em alimentos de origem vegetal, como frutas, legumes, verduras, cereais e alguns tipos de feijão", afirma. Tabagismo é o fator de risco mais reconhecido A pesquisa avaliou o conhecimento dos brasileiros sobre os fatores de risco para o câncer. O tabagismo foi o mais reconhecido: 90,5% dos entrevistados afirmaram saber que fumar pode causar a doença. Entre os jovens de até 24 anos, o nível de conhecimento também é elevado, mas ligeiramente menor, alcançando 88,7%. Já entre as pessoas com 60 anos ou mais, esse percentual sobe para 94,4%. Na direção contrária, a carne vermelha é o fator menos reconhecido entre os listados: apenas 27,5% dos brasileiros afirmam saber que seu consumo está associado a um maior risco de desenvolver câncer. O perigo está no consumo excessivo, como a ingestão de mais de 500 gramas por semana. Este é o grupo em que a maioria da população relata consumir o produto sem ter tentado reduzir a ingestão (cerca de 45%), seguida por aqueles que consomem e tentam reduzir (aproximadamente 40%). O não consumo é menos frequente, representando em torno de 10% dos entrevistados. Na lista de fatores mais conhecidos aparecem ainda a herança genética (89,4%) e a exposição excessiva ao sol (88,3%). A maioria dos participantes também reconhece o consumo de bebidas alcoólicas (71,3%) e de alimentos embutidos (70,7%), como presunto, salsicha e peito de peru defumado. Já os produtos ultraprocessados, como macarrão instantâneo, salgadinhos de pacote e sorvetes, são reconhecidos por 65,6% dos entrevistados. Por outro lado, fatores relacionados ao estilo de vida ainda são menos associados ao câncer pela população. O sobrepeso e a obesidade são reconhecidos como fatores de risco por 54,1% dos entrevistados. O sedentarismo é relacionado ao câncer por 48,3% dos participantes. Já o consumo de bebidas adoçadas, como refrigerantes, é citado por 55,3%, enquanto a baixa ingestão de frutas e verduras é mencionada por 53,3%. A pesquisa ouviu 6.566 adultos com 18 anos ou mais, de todos os estados brasileiros, entre setembro e outubro de 2025. O levantamento “Mais Dados Mais Saúde — Percepções da população brasileira sobre fatores de risco para o câncer” foi realizado por Umane e Vital Strategies, com apoio do Instituto Devive e parceria técnica do Instituto Nacional de Câncer.