A saída recente de investidores estrangeiros e a reavaliação da trajetória dos juros nos Estados Unidos e no Brasil levaram parte relevante da bolsa doméstica a negociar em níveis de “valuation” (avaliação de mercado) raramente vistos na última década. Em setores como construção civil, educação e varejo de vestuário, empresas consideradas de qualidade passaram a ser negociadas entre 4 e 6 vezes o preço sobre lucro (P/L), em um movimento que acendeu, entre participantes do mercado, a percepção de que parte da reprecificação recente pode ter sido excessiva. “Uma dúzia de empresas está em níveis de múltiplos muito baixos. Pelo que me lembro, talvez a gente tenha visto isso apenas uma vez nos últimos dez anos. Isso chama atenção”, afirma o CEO e gestor da AlphaKey, Christian Keleti. O executivo menciona companhias como Cyrela, Direcional, Tenda e Moura Dubeux, que negociam entre quatro e seis vezes o preço sobre lucro (P/L). No setor de educação, os múltiplos variam entre cinco e sete vezes, enquanto, no varejo de vestuário, nomes como C&A, Renner e Track&Field também operam abaixo de suas médias históricas. “São empresas de qualidade, muitas delas sem dívida relevante. A dúvida do mercado é se esse lucro vai se concretizar.” A avaliação de que a recente correção abriu oportunidades na bolsa também é compartilhada pelo BTG Pactual. Para o chefe de pesquisa e sócio do banco, Carlos Eduardo Sequeira, a recente saída de investidores estrangeiros não alterou os fundamentos que sustentam a atratividade do mercado brasileiro. Em maio, a categoria acumulou retiradas de R$ 14,2 bilhões em ações listadas, segundo dados da B3. Embora o comportamento dos fluxos globais continue no radar, Sequeira acredita que os recursos tendem a retornar ao Brasil em algum momento. “Não é preciso muito dinheiro para fazer diferença no mercado local”, afirmou no podcast semanal do banco. Na avaliação do estrategista, após o desempenho acima da média da bolsa brasileira em relação a outros emergentes nos primeiros meses do ano, é natural que parte dos investidores tenha realizado lucros. Para Keleti, da AlphaKey, o Brasil reúne um conjunto de características que combina liquidez; exposição a ativos reais (“hard assets”); e empresas baratas e, em alguns casos, pouco endividadas, o que deve favorecer o retorno do investidor estrangeiro à frente. “Ele deve voltar a comprar bancos, empresas como a Localiza e, talvez, alguma companhia de varejo ou de construção civil de baixa renda, que inclusive pode funcionar como proteção em um cenário de eventual reeleição do Lula”, diz. O BTG mantém uma visão construtiva para as ações domésticas e avalia aumentar a exposição a empresas que voltaram a negociar a preços mais atrativos após a correção receapontnte. De acordo com Carlos Sequeira, a bolsa brasileira negocia atualmente a menos de 9 vezes preço sobre lucro (P/L). Excluindo Petrobras e Vale, empresas que negociam a múltiplos mais baixos, o mercado passa a ser negociado a pouco mais de 10 vezes P/L. “Voltamos a negociar a um desvio-padrão abaixo da média histórica, mesmo levando em conta o juro real”, observa. O ‘valuation’ [das ações brasileiras] continua chamando atenção do investidor estrangeiro” O estrategista ressalta que a bolsa brasileira segue descontada em relação a outros emergentes, que negociam a 15 ou 20 vezes o P/L. “O ‘valuation’ continua chamando atenção do estrangeiro. O Brasil tem uma economia razoavelmente arrumada e um ciclo político que, se não é o ideal, também não assusta tanto. Isso mantém o país em certa vitrine”, afirma Sequeira, embora reconheça que é difícil “lutar contra juros subindo nos EUA e caindo mais lentamente aqui”. A carteira do BTG segue concentrada em empresas domésticas, mas mantém exposição ao petróleo como proteção (“hedge”), por meio de Petrobras, que representa cerca de 15% do portfólio. A avaliação da casa é que ainda não há clareza sobre quanto tempo o conflito pode durar, apesar do avanço recente nas negociações de paz entre EUA e Irã. Na visão do banco, o mercado brasileiro possui uma característica particular: caso a guerra se prolongue, o petróleo tende a contribuir de forma relevante tanto para o desempenho do índice quanto para a economia do país. Por outro lado, se o conflito terminar e os preços da commodity recuarem, o foco do mercado deve voltar para a trajetória dos juros, o que favoreceria os papéis que costumam ser mais ligados à economia doméstica. No portfólio do BTG, a exposição cambial líquida é de aproximadamente 10%, principalmente por meio de Embraer, enquanto o segmento de construção civil também representa cerca de 10% da carteira. Em relação às distribuidoras de energia, a leitura é que o prêmio em relação às NTN-Bs voltou a se ampliar após um período de compressão, uma vez que os juros longos no Brasil subiram menos do que os americanos. Nesse contexto, o setor tende a voltar a ganhar espaço nas carteiras, ao combinar características defensivas com um retorno considerado atrativo pelo executivo do banco. O movimento também encontra respaldo no posicionamento dos gestores locais. Segundo levantamento da XP, os fundos de ações ampliaram recentemente a exposição a empresas de valor e aumentaram o risco ativo das carteiras, em um sinal de maior disposição para buscar oportunidades fora dos papéis que lideraram o rali do mercado. “Nos últimos 30 dias, o posicionamento dos gestores indicou uma rotação em direção aos setores cíclicos e uma redução parcial da exposição a segmentos defensivos”, afirma a corretora. O movimento reforça a percepção de que parte dos investidores voltou a buscar oportunidades em empresas que ficaram para trás durante a recente correção da bolsa, mas que hoje negociam a múltiplos considerados atrativos por gestores.
Saída de estrangeiro volta a deixar bolsa local barata
Mercado vê exagero na recente reprecificação e destaca que ‘valuations’ descontados podem voltar a atrair recursos










