Corpo congelado preservou fungos e bactérias que se adaptaram ao frio para sobreviver por milênios O corpo da múmia Otzi preserva pele e outros tecidos — Foto: Eurec Research/Divulgação RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 02/06/2026 - 20:38 Descoberta de Micróbios Vivos em Múmia de 5.300 Anos nos Alpes Cientistas descobriram micróbios vivos na múmia de Otzi, o Homem de Gelo, que morreu há 5.300 anos nos Alpes. Esses microrganismos, incluindo leveduras adaptadas ao frio, sobreviveram milênios e se multiplicaram em laboratório, revelando sua resistência extrema. O estudo, com implicações para a medicina e a indústria, destaca o potencial desses micróbios em processos fermentativos. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Um dos mais bem guardados mistérios de Otzi, o Homem de Gelo, acaba de ser revelado. Otzi morreu há 5.300 anos, num ponto remoto dos Alpes, entre a Áustria e a Itália, e seu corpo foi naturalmente mumificado pelo frio intenso. Mas um estudo apresentado hoje afirma que alguns dos microrganismos da múmia não apenas sobreviveram, mas, quando descongelados, se multiplicaram em laboratório. Estão vivos. O estudo tem desdobramentos não apenas para a arqueologia, mas também para a medicina e a indústria de bebidas e alimentos. Os pesquisadores suspeitam ainda que alguns fungos, mais especificamente leveduras, se adaptaram ao frio, sobreviveram e se multiplicaram na múmia ao longo dos milênios. — Os microrganismos de Otzi não são relíquias do passado. Eles continuam existindo nas condições atuais de preservação, a -6ºC, possivelmente em estado de dormência. Vemos continuidade. Algumas dessas leveduras acompanharam Otzi em sua longa jornada através dos milênios — explica Frank Maixner, diretor do Instituto para Estudos de Múmias do Eurac Research, centro de pesquisa situado em Bolzano (Itália), onde o trabalho foi realizado. Uma vida dura e doída Otzi é uma das múmias mais extraordinárias do mundo. Ele abriu uma janela para a vida na Idade da Pedra. Seu corpo foi encontrado em 1991, no alto das montanhas Otztal, por um casal de alpinistas alemães, na região do Tirol. O corpo preservava pele, tatuagens, parte dos cabelos, órgãos internos. Vestia um traje de couro, tinha arco e flecha e um machado de cobre. Sua última refeição foi cabra alpina. Em vida, Otzi era magro, baixo (1,57m) e canhoto. Se existissem sapatos, seu número seria 39 pelos padrões atuais. Seus olhos eram castanhos. E, estudos posteriores de DNA, revelaram uma peculiar ancestralidade comum com os primeiros agricultores da Anatólia (na Turquia atual). Ele tinha por volta de 45 anos ao morrer. Era velho para a pré-história, cuja expectativa de vida é estimada em cerca de 30 anos. Mas a vida dura lhe custou problemas nas articulações e muitas cáries. Arqueólogos suspeitam que as tatuagens não eram decorativas, mas sim tentativas terapêuticas para aliviar as dores. Assassinato no gelo O corpo estava tão preservado que inicialmente se imaginou que se tratava de um austríaco que desaparecera meses antes durante um baile de carnaval. Mas a roupa de homem das cavernas não era fantasia. Era um traje rudimentar de um caçador. Otzi não morreu de frio. Foi assassinado. A causa da morte foi uma hemorragia causada por uma ponta de flecha, que penetrou no ombro esquerdo e atingiu uma artéria vital. A haste da flecha permanece alojada em suas costas até hoje. O assassino de Otzi, porém, não conseguiu matar os microrganismos que nele viviam. Agora se sabe que alguns dos micróbios que viviam em sua flora intestinal e na sua pele - o chamado microbioma, os microrganismos que nos habitam - sobreviveram, “adormecidos pelo frio”. A múmia está hoje no Museu de Arqueologia do Tirol do Sul, em Bolzano, numa câmara que reproduz as condições de temperatura e umidade onde foi encontrada. O corpo da múmia Otzi preserva pele e outros tecidos — Foto: Eurec Research/Divulgação Além da morte A descoberta relatada num artigo na Microbiome, periódico do grupo Nature, mostra que a maioria dos microrganismos do Homem de Gelo é composta por fungos (leveduras) e bactérias comuns ainda hoje, presentes na flora intestinal ou na pele. Também foram encontrados outros que causam infecções. E ainda alguns que se pensava só existirem na pré-história. Os pesquisadores estavam interessados em investigar a conservação da múmia. Queriam identificar possíveis contaminações ambientais (contato com micróbios atuais) e também a colonização por microrganismos que descompõem o corpo. Mas seu estudo foi bem além do interesse dos especialistas em múmias e tem desdobramentos para a compreensão dos micróbios com importância em medicina e também em processos de fermentação industrial, como os empregados na fabricação de alimentos e cerveja, por exemplo. Com o uso de várias amostras e métodos, sobretudo metagenômica, os pesquisadores diferenciaram quais microrganismos já estavam presentes no corpo quando Otizi estava vivo e aqueles que só o colonizaram após sua morte. Isto tanto durante os mais de 5.000 anos no gelo dos Alpes quanto ao longo de três décadas de conservação. Resistência extrema Mas o estudo revelou muito mais do que isso. Ele evidenciou a extrema resistência dos microrganismos. Eles são capazes de desafiar a morte e sobreviver por milênios em ambientes extremos. Foram coletadas amostras da pele, de órgãos, água de degelo, gelo externo, solo do lugar da descoberta e também de amostras do ambiente do museu. Isso permitiu comparar microbiomas internos, externos e ambientais. A lista de micróbios de Otzi é vasta. Inclui aquelas da flora intestinal, como Romboutsia hominis e Eubacterium sp. Há os microrganismos causadores de doenças, como os bem conhecidos Clostridium perfringens e Staphylococcus aureus, este último notório inimigo do ser humano. Provoca de furúnculos a infecções hospitalares graves. Mas a múmia é milenar e o Homem de Gelo era portador e microrganismos considerados pré-históricos, como Glaciozyma watsonii, Mrakia robertii, Phenoliferia glacialis, Goffeauzyma sp. Os cientistas conseguiram ainda cultivar em laboratórios algumas das bactérias e fungos da múmia, que estavam aparentemente “adormecidas” pelo frio. São elas as bactérias Staphylococcus spp. E as leveduras Glaciozyma watsonii, Mrakia robertii, Phenoliferia glacialis e Goffeauzyma sp. Para além das gerações Chamou a atenção dos pesquisadores a presença de espécies de leveduras adaptadas ao frio. Elas provavelmente são nativas do ambiente glacial e persistiram no corpo de Otzi até hoje. Essas leveduras tolerantes ao frio também podem ter potencial para aplicações industriais, como alguns tipos de fermentação, sugerem os cientistas na Microbiome. Os pesquisadores acreditam que o estudo de Otzi ainda trará muitas revelações. A múmia segue em bom estado, levados em conta seus cinco milênios. — As condições de conservação da múmia são muito estáveis e um monitoramento microbiológico próximo garante que a múmia não sofra danos. Mas ainda são necessárias mais pesquisas e esforços completos de conservação para preservá-la por muitas outras gerações — diz Elisabeth Vallazza, diretora do Museu de Arqueologia do Tirol do Sul.