A actriz Nastassja Kinski vai revogar o consentimento para que continue a ser exibida uma cena de Movimento em Falso, de 1975, de Wim Wenders. Na sequência em causa, na sua estreia no cinema, com apenas 13 anos, Kinski surge seminua.A decisão, anunciada pelo advogado da actriz, surge ao fim de uma década de tentativas falhadas de diálogo com o realizador e poucos dias depois de este ter justificado em público a recusa em mexer no filme. Kinski alega que nunca houve um consentimento válido para aquelas imagens. O caso foi revelado pelo diário alemão Süddeutsche Zeitung.Na cena, que não chega a dois minutos, a menor surge de tronco nu, apenas com cuecas, sobre uma cama; um homem adulto, também em roupa interior, debruça-se sobre ela, bate-lhe na cara e, em seguida, acaricia-lhe o rosto. À mãe não tinha sido explicado o que estava em causa, garante Kinski, que se recorda de ter ficado sozinha na rodagem e de se ter fechado na casa de banho a chorar.
A actriz diz que não foi preparada para se despir nem teve acesso a um guião. “Se assim fosse, poderia ter tido uma toalha, ou também se poderia filmar de mil maneiras diferentes”, argumenta em declarações ao diário alemão. E sublinha que a nudez não constava do livro de Handke, tendo sido uma opção de encenação do realizador. “Foi o meu primeiro filme, foi o meu primeiro realizador, e ele não me protegeu”, afirmou ao Süddeutsche Zeitung.Desde 2011 que Nastassja Kinski, hoje com 65 anos, procura falar com Wenders sobre a situação; a partir de 2016, fê-lo através do advogado Christian Schertz, que pediu por escrito a exclusão das imagens e uma indemnização. O realizador respondeu sempre pelos seus advogados, alegando não existir qualquer direito legal à eliminação da cena nem necessidade de uma conversa. Embora diga, ao mesmo tempo, compreender “as percepções e os sentimentos actuais” da actriz. Para Kinski, é uma fórmula que contorna a questão de fundo: o que sentiu uma criança de 13 anos.A polémica forçou Wim Wenders, de 80 anos, a pronunciar-se em público a 29 de Maio, durante a entrega dos prémios da Academia Alemã de Cinema, onde recebeu uma distinção de carreira. Perante a plateia de profissionais, defendeu que retirar a cena “criaria um precedente” que “vos afectaria a todos”, escreve o jornal francês Libération. Wenders garantiu que nunca mais filmaria daquela maneira, porque “as sensibilidades mudaram”, mas recusou qualquer autocrítica: “Não posso recriminar aquele jovem de 29 anos de há 50 anos.”Não é caso único. A actriz chegou já a acordo com a estação pública NDR a propósito de um episódio da série Tatort, rodado em 1976, em que aparece nua aos 15 anos. O episódio, entretanto, retirado, teve 25 milhões de visualizações. De regresso à Alemanha, onde retomou a carreira, Kinski diz querer um pedido de desculpas e ser “um modelo forte para mulheres e raparigas vítimas de exploração”.











