Gerando resumoO aumento registrado em 2026 de 6,7% na presença feminina em conselhos de administração de empresas do Ibovespa e de 4,6% nas diretorias executivas superou os crescimentos dos últimos dois anos. Em 2025, as altas haviam sido de 2,8% e 2,6%, respectivamente, e, em 2024, de 3,5% e 1,3%. O ano cujo cenário se destoou foi 2023, quando, impulsionada pela pressão da sociedade no pós-pandemia, a participação das mulheres avançou 22% nos colegiados e 14,5% nas diretorias – à época, as bases de comparação também eram mais baixas, facilitando incrementos mais expressivos.PUBLICIDADEPara especialistas em diversidade no mundo corporativo, a evolução deste ano, apesar de mais significativa, ainda é lenta e insuficiente. “A proporção de mulheres nessas cadeiras não sobe na velocidade que a gente precisa”, diz Roberta Tedesco, sócia da consultoria EY-Parthenon Brasil.“Tem uma evolução, mas o Brasil é lento, como um todo”, acrescenta Anna Guimarães, presidente do conselho consultivo do 30% Club Brasil (movimento internacional que defende uma participação feminina de ao menos 30% nos conselhos e cargos de diretoria executiva). A cofundadora do Conselheira101 (organização que trabalha para aumentar a presença de mulheres negras na liderança) Jandaraci Araujo afirma ver o crescimento como “positivo”, mas que os dados mostram que a diversidade na liderança das grandes empresas ainda está “longe do ideal”.Tedesco, da EY-Parthenon, observa que países com políticas efetivas que impulsionam a inclusão, como Reino Unido e Itália, têm registrado avanços mais relevantes. No primeiro, por exemplo, existe um programa para incentivar as companhias a atingirem metas de diversidade de gênero e, se elas não cumprem seus objetivos, precisam explicar o que aconteceu – no Brasil, a B3 desenvolve um projeto semelhante. Além desse programa, a pressão da sociedade fez com que a presença feminina em conselhos de administração alcançasse 43% nas 100 maiores empresas da Bolsa de Londres.PublicidadeNa Itália, há uma lei que obriga companhias a terem mulheres em colegiados. Lá, a participação feminina chega a 39% das cadeiras dos colegiados das maiores corporações listadas, de acordo com dados do 30% Club.Para a sócia da consultoria, são três as principais barreiras para a ascensão feminina. Uma delas é a rede de contatos. Em conselhos de administração, por exemplo, muitas vezes um conselheiro indica algum conhecido seu para as posições. Se a mulher não faz parte dessa “bolha”, dificilmente consegue uma vaga. Betania Tanure, membro do conselho de administração da MRV e do Magazine Luiza: 'Quando o preconceito é colocado na mesa, todos ficam desconfortáveis' Foto: Netun LimaOutra barreira é a falta de oportunidades, na qual está inclusa a questão da maternidade. Com frequência, mulheres deixam de ser promovidas – ou são até demitidas – após se tornarem mães. Por fim, os vieses, que são percepções e julgamentos, muitas vezes inconscientes, que levam mulheres a serem avaliadas de forma diferente no ambiente de trabalho. É o caso de quando uma diretora é vista como “mandona” e um homem como “líder natural” ou quando a funcionária precisa entregar mais resultados do que homem para ser promovida.Anna Guimarães, do 30% Club, destaca que a importância da diversidade de gênero ainda não está clara para parte dos diferentes atores do mundo corporativo. “Temos uma agenda robusta para apresentar às empresas e explicar porque é importante ter equilíbrio de gênero.”PublicidadeDiversidade de gênero é importante?Levantamento do Morgan Stanley que analisou 1.875 empresas do índice MSCI World (que inclui companhias de 23 países) indica que as ações de companhias com maior diversidade de gênero tiveram um desempenho, em 2022, 1,6% superior ao daquelas com menor diversidade. O dado está em linha com o obtido pelo levantamento de 2021 e com a média de longo prazo anterior à pandemia. A agência de classificação de risco Moody’s já mostrou que há uma correlação entre as empresas com melhores notas de crédito e aquelas que têm maior número de mulheres em seus conselhos. Melhores notas de crédito significam dinheiro mais barato para a companhia. Um estudo de Claudia Emiko Yoshinaga, Leticia Bellato e Nathália Ruggiero Gil, publicado na revista acadêmica Gender, Work & Organization, no entanto, não encontrou evidências de que a presença feminina em posições decisórias influenciam os resultados financeiros das empresas, seja de forma positiva ou negativa.“Isso significa que preocupações relacionadas ao desempenho empresarial não deveriam servir, de forma alguma, como justificativa para limitar a presença feminina. Diante desse achado, nenhuma razão além do preconceito de gênero pode explicar disparidades tão significativas entre homens e mulheres em cargos gerenciais e de tomada de decisão”, diz o estudo, cuja pesquisa considerou empresas listadas na B3 entre 2010 e 2020. PublicidadeCONTiNUA APÓS PUBLICIDADEAinda que não tenham percebido relação entre diversidade de gênero e resultado financeiro, as autoras afirmam existir “diversas razões (...) pelas quais os CAs (conselhos de administração) e as DEs (diretorias executivas) deveriam ser mais diversos, de forma a realmente representar a sociedade”. “Quanto mais diversos e representativos forem os conselhos de administração, maior a probabilidade de que tomem decisões considerando um conjunto mais amplo de stakeholders. Portanto, pode-se argumentar que esse atributo é essencial para alinhar a composição dos conselhos corporativos à realidade da comunidade”, escreveram.As pesquisadoras – vinculadas à escola de administração da FGV – apontam ainda que há estudos que confirmam a existência de benefícios para empresas quando há maior presença feminina na direção e outros que são inconclusivos, como o delas. Elas afirmam, porém, que a ausência dessa confirmação pode decorrer, entre vários motivos, da ainda baixa participação de mulheres nos órgãos decisórios.Diferentes estudos citados pelas autoras apontam a necessidade de as mulheres conseguirem ter participação efetiva nas companhias, o que pode não ocorrer quando são poucas em um ambiente dominado por homens. Também indicam que há casos em que mulheres são nomeadas diretoras e conselheiras apenas para que a companhia esteja alinhada às diretrizes de governança e diversidade. Nessas casos, elas acabam tendo atuações pouco substantivas. Conselheira do Magazine Luiza e da MRV, Betania Tanure afirma que existem empresas que de fato acreditam no valor da diversidade para o negócio, mas que há outras que “fingem que o tema está na pauta”. Ainda assim, ela vê essa realidade como positiva. “É como cinto de segurança. As pessoas começaram a usar por obrigação e depois introjetaram isso.”PublicidadeTanure, que também é sócia-fundadora da consultoria BTA, destaca que a situação das mulheres no comando das corporações melhorou nas últimas décadas. Quando ela começou a atuar como conselheira, há mais de 20 anos, era a única nos colegiados dos quais fazia parte – hoje, o Magazine Luiza tem uma presença feminina de 37,5% em seu conselho e a MRV, de 25%.A conselheira acrescenta que atualmente comentários preconceituosos costumam ser mal recebidos no ambiente corporativo. “Quando o preconceito é colocado na mesa, todos ficam desconfortáveis.”