O norte-americano Stephen Bocskay esmiúca o complexo legado do autor de clássicos como ‘Preciso me encontrar’ e fundador do Quilombo, escola de samba de resistência Candeia, sentado ao violão, à direita, no pandeiro, Martinho da Vila — Foto: Arquivo O GLOBO RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você O pesquisador norte-americano Stephen Bocskay lança livro inédito sobre o sambista Candeia. A obra analisa a fundação da escola Quilombo contra a comercialização do Carnaval. A pesquisa destaca o lado experimental e pan-africanista do compositor carioca. O livro investiga suas contradições ao misturar ritmos estrangeiros com a defesa ferrenha do samba tradicional. O estudo também resgata a atuação de importantes intelectuais negras na agremiação. Nomes como Beatriz Nascimento e Lélia Gonzalez ajudaram a moldar o ativismo do projeto. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Vindo do punk rock, e hoje, em suas palavras, alguém “com mais de 23 anos de atuação com viajante, estudante, pesquisador e professor no Brasil”, o norte-americano Stephen Bocskay, de 50 anos, estreia no mercado nacional justamente com o seu primeiro livro, escrito em português: “Candeia, o samba, o Quilombo e o ativismo negro” (Malê). Menos uma biografia de Antônio Candeia Filho (1935–1978), baluarte do samba, autor de “Preciso me encontrar”, “Testamento de partideiro”, “O mar serenou”, e outros clássicos, e mais um estudo focado no Grêmio Recreativo de Arte Negra e Escola de Samba Quilombo, entidade fundada por ele em 1975 em oposição à comercialização do Carnaval e à erosão das raízes afro-brasileiras. Sambista que se impôs num tempo de brutal repressão política da ditadura militar e de intenso movimento de afirmação do negro (e que se viu no meio do turbilhão provocado por essas duas forças conflitantes), Candeia teve o seu legado esmiuçado e investigado por Bocskay ao longo de 15 anos, nos quais o pesquisador mergulhou em arquivos e entrevistas, dos quais saiu com material inédito e, em boa parte das vezes, revelador. Desdobramento de uma tese de doutorado pela Universidade de Brown, nos Estados Unidos, “Candeia, o samba, o Quilombo e o ativismo negro” tem lançamentos no Rio de Janeiro esta terça (às 19h, na Livraria da Travessa do Shopping Leblon, com direito a mesa de conversa do autor com Selma Candeia, filha do sambista, e mediação da cantora Teresa Cristina) e no sábado (às 14h, no Alfa Bar Cultura, no Centro, com roda de samba), Na segunda-feira (08/06), o lançamento é em São Paulo, às 19h, na Livraria Drummond do Conjunto Nacional. O escritor norte-americano Stephen Bocskay — Foto: Divulgação A mostrar que os caminhos mais fáceis quase sempre não são os melhores, Stephen Bocskay começa chamando a atenção para o que identifica como o “tropicalismo” de Candeia, um preservacionista do samba que fazia experimentos musicais afro-diaspóricos nos LPs “Raiz” (1971), e “Samba de roda” (1975). — Essa ideia de Candeia como tropicalista casa um pouco com a noção do que eu chamo de pan-africanismo cultural, essas duas coisas estão em sintonia — explica Bocskay. — O que a gente vê em álbuns do Candeia, como “Raiz”, é que ele dialoga com música estrangeira. A gente ouve Fela Kuti (na faixa “Saudação a Toco Preto”), a gente ouve elementos da soul music dos Estados Unidos e alguns ritmos afro-cubanos ali, ele tempera a música dessa forma. Por isso, digo que ele é tropicalista, mas nessa disposição de explorar elementos que fazem parte do Brasil. O pesquisador diz acreditar que Candeia possivelmente teria problemas com o identitarismo de hoje em dia, “porque ele não ligava para a cor da pele das pessoas, só o que interessava a ele era a defesa das ideias da cultura negra”: — Em um momento, Candeia diz que uma razão para que não haja segregação racial é porque havia negros que, quando alcançam certa posição social e econômica, se esqueciam dos problemas que envolvem os outros negros. E, por outro lado, existiam brancos que se identificavam com a cultura afro. Contradições Stephen Bocskay vai fundo nas contradições do artista que incorporava elementos estrangeiros à sua música e aquele que gravou “Sou mais o samba” (dos versos “eu não sou africano, eu não / nem norte-americano / ao som da viola e pandeiro / sou mais o samba brasileiro”, em crítica aos jovens que dançavam James Brown nos bailes black nas quadras de escolas de samba do Rio). — Obviamente, o Candeia não curtia quando via que a juventude gostava muito mais de uma música estrangeira do que do samba. É normal. Como todos os demais sambistas, ele era defensor do samba. Ao mesmo tempo, Candeia disse que, se fosse para combater o rock, ou soul era uma opção, mesmo que uma opção negativa. Ele entendia que os jovens são vão ser jovens sempre, vão abraçar vários modismos várias tendências culturais — observa o norte-americano. A proposta de Stephen Bocskay em seu livro “foi a de abrir a porta do Quilombo e apresentar todas as pessoas que estavam dentro dele”, dando conta das formações intelectuais e posições políticas bastante diversas dos seus membros. E, nisso, ele jogou luz sobre as mulheres entre os fundadores, como a historiadora Beatriz Nascimento (“figura fundamental para a nossa compreensão dos quilombos no Brasil e esse legado que Candeia e outros trouxeram para a escola”) e a escritora e ativista negra Lélia Gonzalez (“com as suas críticas do feminismo negro”). — Candeia foi um grande homem, em termos de sua expressão artística e intelectual, mas ele não enxergou o antirracismo como Abdias (do Nascimento, ator, diretor, escritor, político e ativista) ou como Lélia, como algo mais universal, e isso é um pouco decepcionante — lamenta. — Só que não dá para uma pessoa fazer tudo, não é? Como muitos outros sambistas, e como todos, Candeia merece críticas construtivas. A Lélia diz: “Eu aprendi tanto no Quilombo do Candeia, mas, ao mesmo tempo, vi essa limitação em torno da mulher negra brasileira.” Atores e equipe de 'A viagem' falam sobre as mudanças do filme e os 'memes' de Alexandre: 'É um ícone pop', diz diretor Para Stephen Bocskay, a visão que Candeia e os outros fundadores do Quilombo tiveram ali “é a mesma visão que nós deveríamos ter hoje em dia”. — Tanto que, imagina só: eu, um branco que nasceu fora do Brasil, estou publicando esse livro por uma editora de autores negros brasileiros — argumenta. — O samba é uma vivência, você se joga naquilo. É algo que todos nós precisamos, porque o samba aceita todo mundo: branco, árabe, judeu, católico, aceita realmente todo mundo. Hoje, que a xenofobia e o racismo “estão em um auge de novo”, para ele o samba oferece um espaço de resistência: — O samba é um espaço de comunhão. A própria roda de samba, na verdade, é uma forma pedagógica, né? Porque ela é inclusiva, quando você entra, ela te obriga a interagir com o outro. Acho que o samba é um grande professor. ‘Candeia, o samba, o Quilombo e o ativismo negro’ Capa do livro ‘Candeia: O samba, o Quilombo e o ativismo negro’, de Stephen Bocskay — Foto: Reprodução Autor: Stephen Bocskay. Editora: Malê. Páginas: 262. Preço: R$ 78.