Durante a última Copa do Mundo —que para nós foi o Mundial da eliminação—, mergulhei em uma leitura que dialoga profundamente com o ótimo desempenho recente da seleção de Cabo Verde. Falo de "Manifesto a Crioulização" (Solisluna Editora), de Mário Lúcio Sousa, intelectual cabo-verdiano que mantém laços históricos e afetivos com o Brasil.

Nascido em Tarrafal, na Ilha de Santiago, Mário Lúcio é músico, escritor e diplomata. Atuou no parlamento e foi ministro da Cultura de seu país entre 2011 e 2016. Seu livro-manifesto é uma obra de 70 páginas, mas é altamente profunda, do ponto de vista conceitual e humano.

A força da obra está exatamente no poder da linguagem. O autor, que transita com naturalidade pela língua portuguesa falada tanto no território brasileiro quanto no africano, propõe neste ensaio "a crioulização como um novo paradigma antropológico e ético para a humanidade".

Trata-se de uma dimensão focada na superação de barreiras geográficas, raciais e culturais, transformando o idioma em uma fronteira a ser ultrapassada.

Mário Lúcio divide esse processo em três estágios: o da "diferença", o da "indiferença" e, finalmente, o da "in-dife-rença". Em todos eles, a crioulização atua como uma ferramenta potente no combate à discriminação e, fundamentalmente, contra o uso político e metafórico do próprio termo "raça".