Equipou-nos de audácia para começarmos esta maratona das crónicas diárias, mas calçou-nos umas peúgas puídas e eu, de certezinha, já sinto a falha dentro dos sapatos, de modo que vamos lá ver como se portam estes meus calcanhares de Aquiles.Tenho dois, é verdade — há pessoas que gostam de redundâncias — e bastava-me um para cair ao comprido. A voz das crónicas devia ser a dela, mas passou-nos a empreitada para as mãos, pouco esperta, é o que ela é. Ficámos aflitas, claro, embora depois nos tenha ocorrido que, se uma mãe inapta consegue levar um filho até à idade adulta sem o perder numa estação de serviço ou à porta de um supermercado, também há-de conseguir isto.É preciso fé em quem nos trouxe ao mundo, fé e uma certa ambição, mas sem olhar demasiado para a meta porque, neste caso, nem ela nem nós sabemos exactamente qual seja. Talvez aconteça como na vida, faz-se um dia de cada vez, não há outro remédio, tentando não ter demasiada pressa, que só os tolos correm em direcção à morte.Quero frisar que a voz destas crónicas não é a da autora, é a nossa, somos várias mulheres forçadas a dar a cara por ela. Disse-nos que a literatura pode, e talvez deva, mentir, e que às vezes só a mentir se alcança qualquer coisa parecida coma verdade. Já o diziam Pessoa e Garrett, segundo ela. A mim, a verdade, na arte e na vida, parece-me coisa irrequieta, dessas que não param sossegadas nem se deixam agarrar, um fantasma a atravessar corredores.Mas eu não percebo nada da vida quanto mais de literatura. Portanto, não sejam demasiado maus nem moralistas com estas mulheres que vos vão acompanhar todos os dias — havendo vontade e pachorra da vossa parte. Estamos nas mãos dela. Só esperamos que não nos faça más pessoas. Mas se por acaso acontecer, aqui ou ali, dizermos alguma coisa contra as vossas convicções, não nos insultem logo, como sucede nas caixas de comentários da imprensa. Podemos conversar. Ou melhor, falem com ela.Claro que estamos receosas desta aventura em que a autora nos meteu. Ainda agora damos os primeiros passos de mamífero na folha e já nos pôs a correr a maratona do folhetim diário, isto é, vir aqui falar convosco todos os dias, até ela e o PÚBLICO se cansarem.
Somos a voz das crónicas diárias da Cláudia Lucas Chéu
Quero frisar que a voz destas crónicas não é a da autora, é a nossa, somos várias mulheres forçadas a dar a cara por ela.











