Há oito anos, quase certos que foi no 10 de Junho, escrevi uma crónica sobre racismo. Sobre como eu sabia o que era na pele. Na altura, muitos leitores comentaram, no artigo e também por e-mail, como eu estava enganada, como eu nunca tinha sofrido de racismo, como eu me tinha confundido com as atitudes que as pessoas tinham para comigo. Entre esses muitos leitores, alguns passaram a mandar-me com regularidade comentários às minhas crónicas e, mais tarde, às newsletters. Seriam fãs? Não. São leitores, todos homens, que têm opiniões e que gostam de as partilhar. Em comum têm o facto de serem mais velhos do que eu, na casa dos 65/75 anos, pais de filhos adultos ou avôs de jovens rapazes e raparigas. E, em comum também, têm um modo de ser paternalista.E eu, inicialmente, nem levava a mal o paternalismo. Por um lado, porque faz parte de uma geração mais velha do que a minha, há sempre aquela coisa do "eu já vivi muito, já vi muita coisa, tenho mais experiência de vida do que a menina Wong" e eu desvalorizava. Por outro, porque sempre achei desafiante debater e, por isso ignorava aquele tom e despendia algum do meu tempo a rebater ideias, citando estudos, autores ou simplesmente dando a minha opinião. No final, "tudo como dantes, no castelo de Abrantes". Eles ficavam na sua, eu na minha. Na semana seguinte lá surgia um e-mail e segunda-feira começava com uma troca de mensagens. Mas, um dia, há um leitor que deixa de me tratar por "senhora jornalista" e passa para um "tu" vindo da aparente intimidade que acredita ter com quem está deste lado do ecrã. Noutro dia, há um outro leitor que me convida para jantar. Decidi que não havia espaço para trocas de ideias, até porque raramente era ouvida e a resposta passou a ser um formal "muito obrigada pela sua leitura atenta".Foi o que aconteceu no início da semana que passou, com dois velhos correspondentes, que não me escreviam há algum tempo e comentaram a última newsletter sobre quando as mulheres passam o prazo de validade. Um decidiu enxovalhar-me a mim, à Cher, à Shakira e à Madonna — tudo mulheres que deviam ter noção que o seu destino é tomar conta dos filhos e dos netos. Outro, aconselhou-me a escrever notícias em vez de pôr nestes "disparates do feminismo". Como não os lia há algum tempo, confesso que abri as mensagens com curiosidade e, depois de lidas, ainda estive a um passito de responder, mas decidi que não, que era perda de tempo. "Muito obrigada pela leitura atenta. Votos de boa semana."Nessa mesma segunda-feira à noite fui ver o espectáculo da Lei da Paridade, três jovens da idade da minha filha, que fazem um podcast no Expresso sobre política, há três anos. Ouço-as e tinha curiosidade de as ver ao vivo. O som estava péssimo, elas ainda não aprenderam a projectar a voz e a falar pausadamente de maneira a que se perceba o que dizem — por isso, muito do que disseram não se entendia, sobretudo as picardias, mas quem as ouve, sabe quais são, subentendeu-as e riu-se na mesma (foi o meu caso!). O Tivoli estava cheio, havia muitos homens mas eram sobretudo mulheres, o tema de arranque foi "quem tem medo da igualdade?", cada uma focou-se numa ideia: Adriana Cardoso falou sobre privilégio, Maria Castello Branco sobre masculinidade e Leonor Rosas sobre posse. No escuro do teatro, lembrei-me dos leitores que me lêem quando Leonor Rosas discorreu sobre os homens que acreditam que têm posse sobre o corpo das mulheres, sobre aquilo que pensam e sobre a sua voz. Lembrei-me do tom paternalista com que os leitores se me dirigem, aquele "a menina Wong não percebe nada, eu é que sei se sofreu de racismo" ou "eu é que sei se essas artistas são mulheres válidas". Eu tenho ou não uma voz? Para estes leitores, eles é que sabem e por isso até me dizem o que escrever. "Vá lá escrever umas notícias, em vez de estar a mandar bitaites." É um facto, escrevo menos notícias precisamente porque tenho outras funções e acreditem que muito do que lêem, fruto do trabalho das jornalistas que escrevem diariamente, é reflexo daquilo que eu sou enquanto editora das secções Ímpar e Fugas. E, por isso, vamos lá a esta semana.Na Fugas temos um Especial Vinhos, com histórias que chegam de várias regiões vinícolas portuguesas e não só — neste caso, o pensamento é dos entendidos, eu limito-me a organizar e editar os textos finais, que eles é que sabem e quem sou eu para tomar posse das suas vozes ou para calá-las. No dia-a-dia, além das notícias, temos uma preocupação em ter textos úteis e práticos, como o saber se podemos ser afectados por estas filas que se intensificaram nos aeroportos; ou conhecer uma ferramenta que nos pode ajudar numa ida aos Açores. Todos os dias, o Guia do Lazer faz propostas sobre o que fazer. E depois, é preparar a próxima Fugas, a edição impressa que sai semanalmente ao sábado, com o PÚBLICO. Já na secção Ímpar, esta foi uma semana cheia de histórias de homens, quase nenhuma feliz. Há desenvolvimentos nas suspeitas em torno do filho do fundador da Mango; mais um preso ligado à morte de Matthew Perry; um condenado por planear um atentado em concerto de Taylor Swift em Viena; de mais um caso que envolve o ex-príncipe André; de um príncipe, o da Noruega, que dá conta do estado de saúde da sua mulher, a qual continua à espera de saber se o seu filho será ou não condenado por 40 crimes; do filho mais velho de Trump que se casou e nem o pai, nem a madrasta marcaram presença; de Sting a reflectir sobre a masculinidade tóxica; e de Putin à conquista da eternidade. Mas também abrimos as portas à relação de Lisboa com o design, em dois eventos que se repetem anualmente, fomos falar com as suas criadoras. E, já na segunda, vamos acompanhar a visita dos duques de Edimburgo a Portugal, para assinalar os 640 anos do Tratado de Windsor, ainda em vigor.Pelo caminho, nas últimas semanas, construímos a revista Ímpar, que sairá no próximo domingo com o jornal PÚBLICO e que reflecte sobre o poder. O poder do amor, como este pode ser inspirador; o poder dos pequenos gestos diários, como estes podem solidificar a nossa auto-estima; o poder que outros têm sobre nós; e muitos outros temas em torno desta palavra e do seu significado, afinal são 84 páginas. Há um tema que está relacionado com esta newsletter, o poder das mulheres e como muitas estão dispostas a abdicar da sua voz. Estou curiosa de ler os comentários a esse texto, mas ainda faltam oito dias.Boa semana.P.S.: Para quem lê esta newsletter, em baixo estão outros temas Ímpar que destaco nesta semana; para quem nos lê no site, é só clicar aqui.
Os donos das vozes das mulheres
Bem-estar, famílias e relações, moda, celebridades... Um mundo que não é fútil.












