Durante anos, o RH correu para automatizar processos. Agora, começa a surgir uma discussão mais desconfortável: a tecnologia sozinha não resolve contratações ruins. Esse foi um dos principais debates do Café da Manhã Pandapé, realizado em São Paulo, que reuniu especialistas e lideranças de RH para discutir inteligência artificial, experiência do candidato, qualidade das contratações e o novo papel estratégico da área em um mercado pressionado por velocidade e eficiência. Ao longo do encontro, uma percepção apareceu em diferentes palestras e painéis: o problema das empresas já não é mais acesso à tecnologia. É transformar tecnologia em decisão melhor. Promovido pelo Pandapé, software de RH mais usado na América Latina, o evento marcou a retomada do encontro presencial após dois anos e reuniu profissionais para discutir como a inteligência artificial, dados e novas ferramentas vêm mudando a lógica do recrutamento. Na abertura, Monize Oliveira, Gerente de Marketing Sênior na Redarbor Brasil, detentora do Pandapé, destacou que o objetivo do encontro era aproximar profissionais de RH para discutir, na prática, temas que vêm dominando o setor. "Hoje tudo é IA, tudo é tecnologia, mas como usamos isso da melhor forma? Como colocamos essas tendências na prática?", afirmou. A palestra "A IA no recrutamento e na gestão de pessoas", conduzida por Daniele Andrade, CEO e fundadora da aiiaLabs, trouxe uma das discussões mais provocativas do evento. Segundo a especialista, muitas empresas ainda usam IA apenas para acelerar tarefas antigas, sem revisar a lógica dos próprios processos. "A inteligência artificial já está gerando valor no dia a dia quando apoia uma análise, ajuda a escrever um e-mail ou organiza informações. Mas o hype passa. Agora chegou o momento de entender qual é o valor real disso para o trabalho", afirmou. Para Daniele, existe um risco crescente de empresas automatizarem processos ruins sem repensar critérios, tomada de decisão e estrutura operacional. "A gente pode estar automatizando o erro. Organizar é o primeiro passo, mas o que precisamos é transformar resultado, decidir melhor e fazer diferente", disse. A especialista também destacou que a tecnologia pode tornar o recrutamento mais humano quando usada para melhorar a comunicação e experiência dos candidatos. "O medo do candidato não é ser analisado por uma tecnologia. O medo do candidato é ser invisível. O silêncio já foi a desumanização do processo", afirmou. Outro tema que apareceu com força durante o evento foi a pressão crescente sobre qualidade das contratações. No painel "Do volume à precisão: como evoluir a qualidade das contratações", Patrícia França, Coordenadora de Seleção e Desenvolvimento na Mash, e Danilo Porcel, HR Senior Manager da Dasa, discutiram os desafios de equilibrar velocidade, experiência e assertividade em processos seletivos de grande volume. Segundo Porcel, as empresas precisam adaptar estratégias de recrutamento de acordo com o perfil das vagas e do público recrutado. "Quanto mais próxima da base da pirâmide, mais velocidade o processo precisa ter. Quanto mais sênior a vaga, mais importante é a qualidade da decisão", afirmou. Na Dasa, explicou o executivo, eventos presenciais passaram a ser usados para acelerar admissões operacionais e reduzir barreiras digitais enfrentadas por parte dos candidatos. "Muitos candidatos não têm memória no celular para subir um documento no sistema de admissão. O evento presencial facilita a jornada e melhora a experiência", disse. Patrícia França destacou que comportamento e aderência cultural ganharam peso mesmo em setores historicamente focados apenas em qualificação técnica. "A gente tem uma necessidade técnica de contratar, mas também olha para o comportamento. Buscamos pessoas que consigam trabalhar em equipe, se adaptar a cenários e mudar a forma de trabalho", afirmou. A experiência do candidato também apareceu como uma das prioridades mais discutidas ao longo da manhã. Para os participantes, o recrutamento deixou de ser apenas triagem e passou a funcionar como extensão da marca empregadora. "A ferramenta nos ajudou a centralizar banco de dados, automatizar processos e trazer indicadores", afirmou Patrícia sobre o uso do Pandapé na Mash. Na Dasa, Porcel reforçou a importância de plataformas que também olhem para a jornada do candidato. "O Pandapé é fácil de usar para o candidato. Muitas plataformas focaram só na experiência da empresa, mas é preciso olhar se o candidato está conseguindo se cadastrar e avançar na vaga", disse. Encerrando a programação, Paula Mendes, Gerente de Negócios na Redarbor Brasil, falou sobre como IA, dados e ciência comportamental vêm transformando a atração de talentos. Segundo ela, o mercado já percebeu que velocidade sozinha não resolve problemas de contratação quando o processo continua burocrático, impessoal ou difícil para o candidato. A executiva destacou que tecnologias de automação, comunicação conversacional e avaliações comportamentais vêm sendo usadas para reduzir atrito, melhorar conversão e tornar o recrutamento mais eficiente. "A tecnologia precisa ajudar o RH a ganhar tempo, enxergar melhor seus indicadores e tomar decisões mais seguras. Mas isso só acontece quando existe método, clareza de processo e foco na experiência de quem está dos dois lados da jornada: recrutador e candidato", afirmou Paula Mendes. Ao longo do evento, ficou evidente que o RH vive uma nova fase na adoção de inteligência artificial. Depois da corrida por automação, empresas começam a perceber que o diferencial não está apenas em usar tecnologia, mas em construir processos mais inteligentes, decisões mais precisas e experiências mais humanas.
Empresas perceberam que IA sozinha não resolve contratações ruins, dizem especialistas
Em evento do Pandapé, lideranças de RH discutiram por que o próximo desafio do recrutamento não é mais automatizar processos, mas tomar decisões melhores













