Uma das empresas mais relevantes para a economia da Suécia, a Saab viu a demanda por seus radares, caças e armamentos de guerra disparar diante da escalada nos conflitos globais, que não têm um horizonte claro de solução. A empresa tem buscado novos mercados, e a América Latina é apontada como estratégica pelo grupo, bem como o Brasil. A empresa reuniu jornalistas de 16 veículos diferentes da região em viagem à Suécia, com visitas às instalações nas cidades de Gotemburgo, Karlskoga, Linköping e Estocolmo. O Brasil foi destaque nas conversas, sobretudo diante do fortalecimento da relação entre os dois países com o avanço do projeto de fabricação do caça Gripen em parceria com a Embraer. De toda a comitiva de imprensa na Suécia, dez eram de veículos brasileiros. “A Saab hoje atravessa um momento que mais se parece com o período em que foi fundada, em 1937”, disse Linus Rydberg, diretor de estratégia (CSO) da Saab Surveillance, durante coletiva de imprensa em Gotemburgo. A divisão é focada na fabricação de radares e sensores. Arsenal do governo brasileiro Os equipamentos da empresa fazem parte do arsenal do governo brasileiro e alguns dos radares foram usados, por exemplo, para a manutenção da segurança do espaço aéreo do país durante grandes eventos, como competições esportivas e a COP30, em Belém. Rydberg contou que, antes, o financiamento de pesquisas e novos projetos era mais escasso. “Hoje, há muito dinheiro e pouco tempo”, disse. Em 2015, toda a Saab teve uma receita de vendas de cerca de 27,2 bilhões de coroas suecas (cerca de R$ 14,8 bilhões na cotação atual). Em 2025, apenas a divisão de Surveillance da empresa faturou 27,3 bilhões de coroas suecas. Da Segunda Guerra Mundial ao conflito no Irã O executivo disse que a anexação da Crimeia pela Rússia em 2014, um dos primeiros eventos da turbulência global atual, acabou não sendo levado tão a sério pelos países da região. Em 2022, a Rússia invadiu a Ucrânia após o país tentar se juntar à Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), em uma guerra que perdura até hoje. Depois, o conflito entre Israel e o Hamas foi desencadeado e, mais recentemente, a decisão dos Estados Unidos e de Israel de atacar o Irã levou a uma disparada do preço do petróleo por causa do fechamento do Estreito de Ormuz. A Saab surgiu durante um período de forte rearmamento europeu. Dois anos depois de sua fundação, teve início a Segunda Guerra Mundial. A empresa, cuja sigla significa Svenska Aeroplan Aktiebolaget (ou Companhia Sueca de Aviões, em tradução livre), surgiu para projetar e fabricar aeronaves para a Força Aérea do país. Até hoje, é uma empresa listada na Bolsa de Valores de Estocolmo e sem participação do Estado, embora o governo sueco seja seu maior cliente. Entre todas as apresentações de executivos da empresa, uma das expressões que mais apareceu foi “novas ameaças”. A guerra, em meio a um mundo cada vez mais digital, mudou. Drones e uso de inteligência artificial Entre as principais transformações, está o uso da inteligência artificial como forma de ganho de capacidade e escala, para além do uso no ataque orquestrado de exércitos de drones. Essa tecnologia tem se mostrado eficiente em campo e pegou muitos sistemas de Defesa despreparados ao combater drones (que custam milhares de dólares) com mísseis (que custam milhões de dólares). A mudança levou a Saab a se movimentar. No fim de 2025, a empresa divulgou ao mercado um novo míssil, o Nimbrix, com o objetivo de atacar drones de forma mais eficiente e com um custo mais baixo. O Nimbrix veio como resposta a esse exército de sistemas aéreos não tripulados, que ganharam espaço na guerra entre Rússia e Ucrânia. Tove Hanby, gerente de contas governamentais da Saab Dynamics, unidade focada em armas e projéteis, disse que o grupo não pode abrir detalhes sobre encomendas. Em conversa com jornalistas na sede da divisão em Karlskoga, na semana passada, adiantou que o novo equipamento está em produção e as entregas serão iniciadas no ano que vem. Apesar de distante do cenário de guerra europeu, os países da América Latina também começaram a se movimentar e investir mais em Defesa. Importância do Brasil Ana Paula Cordeiro, vice-presidente de desenvolvimento de negócios e vendas da Saab Brasil, disse que o crescimento da empresa na América Latina passa pela ampliação de parcerias e pela construção de capacidades locais, seguindo o modelo já desenvolvido no Brasil e buscando oportunidades também em países como Colômbia e Chile. “Não se trata apenas de tentarmos vender algo e ficarmos por um curto período, mas sim de construir relacionamentos de longo prazo”, disse a executiva, em coletiva em Gotemburgo. Ana Paula destacou o Brasil como o principal exemplo dessa estratégia na América Latina. Segundo ela, o país se tornou um polo relevante para a Saab, com transferência de conhecimento, treinamento de profissionais e participação na cadeia global de fornecimento do Gripen. A história do Gripen no Brasil começou em meados de 2015, e a linha de produção foi inaugurada em 9 de maio de 2023, na planta da Embraer em Gavião Peixoto (SP), onde serão produzidas 15 aeronaves a serem entregues à Força Aérea Brasileira (FAB). A linha de produção no Brasil foi a primeira do mundo fora da Suécia desde a fundação da Saab, em 1937. Executivos da Saab destacaram em março que a planta no país tem o objetivo de ajudar no fornecimento global do equipamento militar. Há possibilidade de a fábrica também auxiliar no fornecimento de aeronaves à Ucrânia. Defesa da Ucrânia No dia 28, o primeiro-ministro da Suécia, Ulf Kristersson, e o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelenskyy, anunciaram que a Ucrânia pretende adquirir um lote inicial de até 20 caças Gripen E/F, e que a Suécia pretende doar até 16 aeronaves Gripen C/D ao país. O governo sueco também anunciou a destinação de recursos para substituir as aeronaves Gripen que serão doadas. Os próximos passos para as autoridades da Ucrânia e da Suécia serão concluir as negociações referentes à aquisição dos Gripen E/F pela Ucrânia, processo que deverá ocorrer em lotes, com o apoio da Saab. Durante a visita do presidente Zelenskyy a Linköping, em outubro de 2025, Suécia e Ucrânia assinaram uma carta de intenções para cooperação na área de Defesa aérea, estabelecendo as bases para o anúncio realizado agora. Eixo Brasil-Colômbia Em paralelo, a Saab estuda usar sua instalação no Brasil também para ajudar no fornecimento dos caças Gripen encomendados pela Colômbia, conforme apontaram os executivos da empresa durante visita ao país em março. A Saab assinou, em novembro de 2025, um contrato com o governo da Colômbia e recebeu um pedido para 17 aeronaves de combate Gripen E/F. O valor é de 3,1 bilhões de euros, e as entregas ocorrerão entre 2026 e 2032. *O repórter viajou a convite da Saab
Guerras fazem vendas da empresa de armas Saab dispararem, e Brasil é estratégico
País se tornou polo relevante para a Saab, com transferência de conhecimento, treinamento de profissionais e participação na cadeia global do caça Gripen













