O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), negou nesta segunda-feira (1) irregularidades no contrato firmado pela gestão municipal com o Instituto Conhecer Brasil (ICB), alvo de uma operação da Polícia Civil de São Paulo por suspeitas de fraude na instalação de pontos de wi-fi gratuitos na cidade e desvio de recursos públicos. O instituto é da empresária Karina Ferreira da Gama, produtora responsável pelo filme “Dark Horse”, sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Segundo a Polícia Civil, há “fundadas suspeitas” de que os recursos públicos pagos pela prefeitura ao Instituto Conhecer Brasil tenham sido “ilegalmente desviados para subsidiar” o filme sobre Bolsonaro, “caracterizando severa confusão patrimonial”. A polícia afirma que “elementos de inteligência financeiro indicam a possível ocorrência de potencial financiamento cruzado ilícito” da produtora. O prefeito negou problemas e disse que o contrato com o instituto seguiu os ritos legais. “Obviamente, toda investigação vai ter todo apoio da Prefeitura de São Paulo. E, até o momento, nós não identificamos nada de irregularidade. Eu já pedi por duas vezes na última semana para poder rever todo o processo. E o que eu tive da minha equipe é a afirmação de que não existe absolutamente nada de errado dentro do processo de contratação”, disse Nunes a jornalistas. A operação “Wi-Fi Livre SP” apura supostos crimes de frustração do caráter competitivo de procedimento licitatório, fraude na execução de contrato administrativo e emprego irregular de verbas ou rendas públicas. A presente investigação criminal foi iniciada a partir de pedido do Ministério Público do Estado de São Paulo, depois de apurações iniciadas pela Procuradoria da República, que declinou da atribuição ao constatar que os recursos investigados são “de forma exclusiva” da Prefeitura de São Paulo. Um dos pontos investigados pela Polícia Civil sobre o contrato da prefeitura com a ONG é a falta de experiência do instituto no fornecimento de wi-fi. “Se isso está no inquérito, como cidadão, não como prefeito, eu tenho que discordar, porque a pessoa... Eu tenho empresa de embalagem, eu tenho fazenda, eu tenho várias atividades, eu sou prefeito, qual o problema de a pessoa ter várias atividades? Então, se é essa motivação, aí eu acho grave”, disse Nunes. O prefeito negou um suposto direcionamento para a contratação do instituto e disse que a ONG foi contratada depois que a prefeitura não conseguiu interessados em instalar pontos de internet em regiões periféricas da cidade, após um chamamento público de 30 dias. “Se você achar alguma entidade sem fins lucrativos que tem experiência de instalar wi-fi, aí você me apresenta que eu coloco.” Nunes refutou também outros dois pontos investigados pela polícia em relação ao contrato com a ONG da produtora do filme de Bolsonaro. O prefeito disse que a gestão pagou pela instalação de 3.200 pontos de wi-fi, mas as investigações apuram o contrato de 5 mil pontos. “Eu contratei 3.200 pontos. Os 3.200 pontos estão instalados. Eu paguei por aquilo que a gente contratou. As pessoas estão tendo o serviço. Não tem relação com o filme do Bolsonaro. Então, me parece que a gente precisa ter um pouco mais de cuidado com esse processo”, disse. "Dark Horse" é o filme para o qual o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, pediu dinheiro ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro. O dono do extinto Banco Master repassou a um fundo nos Estados Unidos R$ 61 milhões. Segundo Karina da Gama, o dinheiro de Vorcaro representou 90% do orçamento do filme. Flávio negou haver irregularidades da transação. Outro ponto da investigação que o prefeito contesta é a diferença entre o preço cobrado para instalar um ponto de wi-fi na cidade. Segundo as investigações, a Prodam, empresa municipal de processamento de dados, cobraria R$ 230, enquanto a ONG de Karina cobrou R$ 1,8 mil. “Nunca aconteceu isso, não existe isso. Eu não sei de onde tiraram isso”, disse. “Ainda bem que essa entidade se propôs, adentro daqueles moldes, de colocar pontos dentro das favelas, das comunidades, dentro daquele conjunto de exigências técnicas e a quantidade de pontos de Wi-Fi na cidade. Ainda bem que ela participou.” Questionado especificamente se o filme sobre Bolsonaro teria recursos da prefeitura, Nunes negou e apontou uma suposta perseguição política, depois da operação da polícia civil na manhã desta segunda-feira. “Eu acho que isso está mais por conta de que a pessoa que é dessa entidade [Karina Ferreira Gama], ela participa do filme do Bolsonaro do que especificamente daquele processo. Por que é que só agora vem essa questão?”, disse Nunes. O prefeito afirmou ainda que a contratação de fornecimento de wi-fi com a empresa foi feita em junho de 2024 e a comunicação à SPCINE de que teria a gravação do filme de Bolsonaro foi feita mais de um ano depois. Nunes disse ainda que se a motivação da investigação for o filme sobre Bolsonaro, “aí é grave, aí é perseguição política”. A reportagem não conseguiu contato com Karina da Gama.