A Polícia Civil e o Ministério Público de São Paulo investigam se houve irregularidades no contrato firmado pela prefeitura da capital com a instituição ligada a uma empresária que também atua como uma das produtoras do filme “Dark Horse”, sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. A instituição é o Instituto Conhecer Brasil, ligado a Karina Ferreira da Gama. Em 2024, o ICB foi escolhido pela gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) para um contrato que prevê a instalação de 5 mil pontos de wifi gratuito na cidade. O contrato foi firmado pela Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia da prefeitura. “O caso é investigado pela 2ª Delegacia da Divisão de Investigações sobre Crimes contra a Administração do DPPC, que instaurou inquérito após requisição do Ministério Público”, informou nesta terça-feira (19), por meio de nota, a assessoria da Polícia Civil de São Paulo. “A investigação apura os crimes de frustração do caráter competitivo de procedimento licitatório, fraude na execução de contrato administrativo e emprego irregular de verbas ou rendas públicas envolvendo a Prefeitura de São Paulo.” A Polícia ainda afirmou: “Diligências estão sendo adotadas para o total esclarecimento dos fatos”. O inquérito foi instaurado em março. O contrato entre a prefeitura e o instituto voltou a alimentar questionamentos nos últimos dias em função do papel de Daniel Vorcaro como financiador do filme sobre Bolsonaro. Em uma mensagem de áudio enviada ao banqueiro, o senador e pré-candidato ao Planalto, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pede que ele mantenha o fluxo de aportes financeiros para a continuidade da produção do filme. Nesta terça-feira, a GloboNews informou que Karina Ferreira da Gama afirmou à emissora que Vorcaro bancou 90% dos custos do filme e que os custos atuais da produção estão em cerca de US$ 13 milhões. Assim que vieram à tona, primeiro pelo site Intercept Brasil, os áudios de Flávio Bolsonaro a Vorcaro, parlamentares de oposição ao pré-candidato passaram a questionar se não havia relação entre os recursos destinados ao filme (que tem Karina como uma das produtoras) e o contrato com a prefeitura firmado com o Instituto Conhecer Brasil (que tem Karina como uma das responsáveis). O Valor não conseguiu contato com o Instituto Conhecer Brasil nem com Karina Ferreira da Gama. O Ministério Público e a Polícia Civil não fazem menção, em seus comunicados, que os inquéritos apurem vinculação entre a verba do contrato com a prefeitura e a verba para o filme. O que diz a prefeitura Por meio de nota, a prefeitura afirmou nesta terça-feira que “a produção do filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro não recebeu recursos municipais e qualquer relação entre a contratação do Instituto Conhecer Brasil e a produção cinematográfica é descabida”. Afirmou também: “Os recursos destinados ao programa Wi-Fi foram exclusivamente utilizados para a instalação de 3.200 pontos, que estão em pleno funcionamento e registram cerca de 760 milhões de acessos. A parceria com o Instituto Conhecer Brasil foi estabelecida por chamamento público transparente, aberto pelo período de 30 dias e que cumpriu todas as exigências legais do edital”. Inquérito apura falhas em contrato com ONG Esse não foi o primeiro contrato do Instituto Conhecer Brasil com a prefeitura. Em 2018, as partes haviam firmado um termo de fomento que estabelecia que a entidade (representada por Karina) se encarregava de levar adiante entre agosto e novembro daquele ano um projeto chamado de “Encontro Literário Ide”. Era um contrato de R$ 2,5 milhões. O contrato de 2024 entre a prefeitura e o mesmo instituto, para a instalação de pontos de wifi pela cidade, teve o valor de global de R$ 108 milhões, segundo citado pelo Ministério Público. Em janeiro, o promotor de Justiça Ricardo de Barros Leonel, da Promotoria de Justiça do Patrimônio Público e Social, no MP paulista, instaurou um inquérito civil sobre o contrato com a prefeitura. A iniciativa foi aberta após manifestação encaminhada ao MP pelo vereador Nabil Bonduki (PT). Leonel não está mais à frente do inquérito. Mas a assessoria da Ministério Público afirmou que o procedimento ainda em curso apura questionamentos sobre suposto direcionamento do chamamento público que levou à contratação do Instituto Conhecer Brasil; sobre a ausência de justificativa técnica ou econômica para a escolha da instituição; sobre a celebração de três aditamentos contratuais em sequência; e a antecipação de repasses financeiros por serviços ainda não implantados. Na instauração do inquérito, o promotor incluiu manifestações da prefeitura sobre seis questionamentos e escreveu que apesar das explicações era “necessário o aprofundamento da apuração, a fim de verificar a eventual ocorrência de atos de improbidade administrativa”. A Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia respondeu aos questionamentos do Ministério Público ainda em janeiro, disse nesta terça-feira a prefeitura, acrescentando que até o momento não houve novas solicitações do MP. Sobre os questionamentos no inquérito aberto pela Polícia Civil, a prefeitura afirmou que a secretaria “se encontra em fase de respostas”.
Polícia e MP investigam contrato entre prefeitura de SP e ONG ligada a produtora do filme sobre Bolsonaro
Autoridades apuram suspeitas de falhas no chamamento público e repasses antecipados de dinheiro; gestão Ricardo Nunes diz que contratação ocorreu de forma transparente











